[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A fusão entre Petz e Cobasi, aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em dezembro de 2025, criou o maior varejista pet do Brasil. A nova configuração exigirá o fechamento de 26 lojas para evitar concentração excessiva em determinadas regiões, mas ainda assim consolida mais de 500 pontos de venda e presença digital robusta da gigante que fatura alto, na casa de R$ 7 bilhões.
Por um lado, a nova empresa ganha poder de negociação com fornecedores e capacidade ampliada de competir em preço e sortimento, acelerando o movimento de concentração do setor. Por outro, encara um mercado que, ao menos metade dele, permanece fragmentado. Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet), pequenos e médios pet shops movimentam 48,7% de todo o faturamento do setor.
“Esse é um dado importante pois demonstra que, diferentemente de outros países, o Brasil ainda tem uma base pulverizada”, disse José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da Abempet (que até o ano passado era chamada Abinpet). Essa estrutura dual cria dinâmica competitiva em que escalas opostas coexistem e disputam o mesmo consumidor. No Brasil, a população de animais de estimação é de 149,6 milhões, segundo a associação. Para Galvão, a questão tributária pesa mais do que a concentração do varejo na definição dos rumos do mercado.
“A tributação sobre pet food afeta todos os elos da cadeia”, afirmou. Com impostos na casa de 50%, enquanto a média mundial fica em 18%, de acordo com estudo da entidade, o mercado enfrenta limitações estruturais que vão além da dinâmica competitiva entre grandes e pequenos. De acordo com o executivo, a tributação elevada reprime consumo e trava o crescimento do setor como um todo, independentemente do porte dos operadores.
FORNECEDORES – Na teoria, a fusão Petz-Cobasi altera o equilíbrio de forças na negociação com a indústria e distribuidores. O Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de São Paulo (Sindilojas-SP) chegou a desenvolver parceria para uma plataforma que funcionaria como central de compras. Eduardo Sylvestre, gerente de marketing do Sindilojas-SP, afirmou que “a iniciativa deu pouco resultado por particularidades do mercado paulistano”. A cadeia de distribuição já estabelecida está entre os fatores que dificultaram a consolidação do modelo associativo.
Um cenário que tem outros agravantes para os pet shops. A escassez de mão de obra especializada é um deles. Segundo o Sindilojas, profissionais como banhistas e tosadores evitam o regime de Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e optam por atuar como freelancers, dificultando integração à cultura organizacional e fortalecimento de vínculos de confiança com os clientes. “Esses profissionais se desligam e passam a oferecer serviços autônomos em suas residências a preços inferiores”, afirmou Sylvestre.
Na avaliação de Sylvestre, há ainda outro fator. Esse movimento cria concorrência desleal, já que prestadores informais não arcam com custos de formalização. A digitalização também representa barreira estrutural. Para Fernando Mansano, presidente da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), os pequenos não conseguem ter a mesma estrutura dedicada que grandes redes possuem e, por isso, ficam em desvantagem no quesito operação. “Grandes redes levam vantagem em escala logística, sortimento, marketing e negociação com a indústria”, disse Mansano.
O executivo apontou ainda que os pequenos negócios lidam com baixa escala para competir em preço e custos como aquisição de clientes online, gestão de estoque integrada e estrutura operacional e tecnológica dedicada ao e-commerce. Na opinião de Mansano, a combinação de maior poder de compra com a eficiência operacional digital amplia a distância competitiva entre os maiores e os menores players do setor.
VANTAGENS – Porém, ao mesmo tempo, é justamente o tamanho dos pequenos negócios pet que apresenta uma vantagem em outras áreas do digital e, principalmente, do atendimento ao público. Segundo Sylvestre, do Sindilojas, de modo geral, o consumidor que frequenta grandes redes busca essencialmente preço competitivo, padronização e variedade de produtos. “Já o cliente dos pequenos valoriza atributos diferentes: comodidade, empatia e atendimento diferenciado”, disse Sylvestre.
Essa preferência é marcada pela proximidade e pelo relacionamento direto com os profissionais que cuidam dos animais de estimação, o que pode gerar uma relação estreita e personalizada com os clientes. De acordo com Sylvestre, pequenos lojistas conhecem o histórico do animal, incluindo doenças preexistentes, alergias e necessidades específicas, além de compreenderem hábitos, preferências e características do tutor, o que contribui para atendimento mais eficiente, construção de vínculos de confiança e fidelização.
O varejo pet ainda é majoritariamente físico. O e-commerce representa 6,8% das vendas do varejo, segundo a Abempet. “Grandes redes avançaram mais rápido no digital”, disse Mansano, presidente da Abiacom. “Enquanto pequenos e médios pet shops estão se digitalizando principalmente via WhatsApp, redes sociais e marketplaces.”
E essa combinação de canais tem se mostrado o modelo mais eficiente para pequenos negócios, que utilizam redes sociais e mensageria para relacionamento e vendas recorrentes, marketplaces para ganhar escala e visibilidade, e presença própria, mesmo enxuta, para fidelização e margem no médio prazo.
A digitalização amplia alcance, potencializa relacionamento e gera recorrência para pequenos pet shops. Para grandes redes, potencializa a escala. “O diferencial do pequeno está na proximidade e na personalização”, afirmou Mansano.
OCIOSIDADE – Já do lado da indústria de pet food, o cenário também reflete limitações estruturais. Em 2023, a produção brasileira foi de 4,07 milhões de toneladas, crescimento de 3,7% sobre 2022, segundo dados da Abempet. Em 2024, caiu 0,6%, para 4,04 milhões de toneladas. A projeção para 2025 (cuja consolidação ainda será divulgada) indica leve alta de 0,85%, voltando a 4,07 milhões de toneladas.
O parque industrial brasileiro tem capacidade para superar 9 milhões de toneladas anuais, mas opera com apenas 45% da capacidade instalada. “Isso representa ociosidade de mais de 5 milhões de toneladas por ano”, disse Galvão, da Abempet.