SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um conflito prolongado no Irã, que foi atacado neste sábado (28) pelos Estados Unidos e Israel, tende a ser benéfico para as exportações de petróleo do Brasil, dizem analistas. No entanto, o mesmo cenário pode levar à alta nos preços da commodity pelo mundo, pressionando a inflação global.
Isso porque os iranianos controlam parte do estreito de Hormuz, que fica localizado entre o país e Omã, por onde é escoado um quinto da produção mundial.
Segundo o presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), Roberto Ardenghy, boa parte é vendida por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Kuwait e Iraque à Ásia, em especial para a China.
Se houver restrições ao fluxo da commodity ou até um fechamento do estreito, afirma, isso pode ampliar o mercado asiático para as vendas de petróleo do Brasil e de outros países da América Latina. No ano passado, o Brasil exportou US$ 44,5 bilhões (R$ 228 bilhões) da commodity, o equivalente a 12,8% de todas as vendas a outros países.
“Nos últimos dois anos, o principal produto exportado pelo Brasil foi o petróleo. Portanto, se o conflito se consolidar por um período maior, o Brasil e outros países, como a Argentina e a Guiana, podem se tornar alternativas ao petróleo do Oriente Médio”, diz.
Ele aponta que o Brasil já é um grande exportador para a Ásia, em especial para a China. “Esse mercado pode se abrir mais se o conflito se prolongar.”
Para Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), o aumento nos preços do petróleo -a cotação ultrapassou US$ 70 o barril na semana passada em meio à tensão entre Irã e EUA– pode beneficiar as exportações brasileiras.
“Dependendo de como a guerra continuar, a commodity vai subir. Mas só ultrapassa os US$ 100 se o estreito for fechado”, avalia.
De acordo com o especialista, mesmo que a passagem não seja interrompida, as cotações dos fretes sobem pelo risco aumentado de travessia pelo estreito.
“Para o mundo, se o conflito se prolongar, é um cenário ruim. Petróleo caro é inflação e juros subindo, o que retarda o crescimento global”, diz Pires. “Para o Brasil, que é um grande exportador de petróleo, pode ser bom. Para a Petrobras, dependerá de o governo deixar repassar a alta para os preços dos combustíveis em um ano eleitoral.”
Ele pondera que o cenário atual no mercado de petróleo é de sobreoferta, o que ajuda a amortecer o impacto do conflito. “É uma situação diferente da guerra entre Rússia e Ucrânia, quando o momento era de pouca oferta de petróleo.”
Bruno Cordeiro, especialista em inteligência de mercado da consultoria StoneX, afirma que o fechamento do estreito de Hormuz é improvável, mas que se isso acontecer os preços subirão “de forma acelerada”.
“Há poucas opções de transporte de petróleo por outras vias, o que resultaria em um aperto significativo do balanço global, principalmente na Ásia e na Europa.”
O especialista da StoneX diz que a possibilidade de destituição do regime iraniano e forte instabilidade política no país tende a estimular a alta dos preços futuros do petróleo. Por outro lado, se o mercado avaliar que não há risco de os conflitos se estenderem no médio prazo, isso pode segurar as cotações.
Neste domingo (1º), está marcada uma reunião ministerial da Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados) para definir os tetos de produção para abril.
“Pelo fato de grande parte dos membros terem sido impactados pela situação, existem grandes incertezas em relação a quais decisões o grupo deve tomar, bem como se a reunião de fato irá ocorrer nesse contexto de conflitos”, diz Cordeiro.
Segundo duas pessoas consultadas pela Reuters, a Opep+ provavelmente considerará um aumento maior na produção de petróleo, de 411 mil barris por dia.
Delegados da organização haviam dito anteriormente que os países provavelmente concordariam com um aumento modesto de 137 mil barris por dia para abril, enquanto o grupo se prepara para a demanda de verão.