Cosan e Shell abandonam negociações sobre capitalização da Raízen

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Por falta de acordo, a britânica Shell e a Cosan encerraram negociações sobre a capitalização da Raízen, gigante que atua nos setores de distribuição de combustíveis e produção de etanol e hoje vive uma crise financeira.

A reportagem apurou que as duas partes não se entenderam sobre a melhor solução para salvar a companhia. A Shell pretende prosseguir com negociações com credores para injetar capital na empresa, sob resistência da sócia.

Com uma dívida de R$ 55 bilhões, a Raízen precisa de socorro para evitar a recuperação judicial. O caso é acompanhado de perto pelo governo, que não tem interesse em ver quebrar a terceira maior distribuidora de combustíveis do país, com cerca de 9.000 postos e 40 mil empregados.

Nesta terça-feira (3), o presidente da Shell no Brasil, Cristiano Pinto da Costa, havia dito que tem um orçamento de R$ 3,5 bilhões para capitalizar a distribuidora, mas não o faria sem aporte equivalente de sua sócia. Ambas têm 44% do capital.

A Cosan, porém, já havia informado a Shell de que não tem esse dinheiro e buscava uma solução no mercado. As duas empresas chegaram a negociar detalhes de uma proposta coordenada pelo BTG, que previa injeção de R$ 1 bilhão da Cosan e R$ 500 milhões de seu controlador, Rubens Ometto.

O BTG, sócio da Cosan, e credores entrariam com novos recursos. A ideia era levantar algo em torno de R$ 25 bilhões para reduzir consideravelmente o endividamento da empresa, tendo como resultado colateral a diluição da fatia dos atuais sócios.

A proposta previa ainda a cisão da Raízen em duas empresas, uma de distribuição de combustíveis e outra de produção de açúcar e etanol, setor em que os bancos credores não têm tanto interesse em atuar.

Pinto da Costa disse na terça que a Shell não concorda com a cisão da Raízen, que foi criada em 2011 a partir da união entre os postos e instalações da Shell e ativos do agronegócio do grupo Cosan. As sócias chegaram a procurar outros investidores, mas sem sucesso.

A dívida da Raízen é dividida entre bancos comerciais e detentores de títulos. Ambos os grupos constituíram representantes para participar das negociações. A expectativa agora é que sentem com a Shell para conversar, sob oposição da Cosan, que teme grande diluição de sua fatia com esse processo.

A Raízen é o maior ativo do conglomerado de Rubens Ometto e, por muito tempo, garantiu os recursos para a expansão do grupo, que expandiu operações para os setores de logística e gás natural e passou em 2025 pelo seu próprio processo de capitalização.

A companhia recebeu aporte de R$ 10 bilhões do BTG e da Perfin para reduzir dívida contraída com a tentativa frustrada de tentar interferir na gestão da Vale com a compra de participação relevante em 2022. Na época, anunciou que usaria o dinheiro apenas para reduzir sua dívida.

Cosan e Raízen sofreram os efeitos de uma estratégia expansionista em um cenário de juros altos no país. Ambas investiram, se endividaram e passaram a pagar juros elevados de dívida. Problema que hoje afeta outros grupos brasileiros, como CSN e Braskem.

A empresa de combustíveis e etanol foi prejudicada ainda por incêndios florestais e cortes de produção, que reduziram margens de lucro. No quarto trimestre de 2024 (terceiro trimestre do ano fiscal da empresa), registrou prejuízo de R$ 15,6 bilhões, seis vezes maior do que no mesmo período de 2023.

As ações da Raízen despencaram durante o dia na B3 em reação às notícias sobre a interrupção das negociações. Chegaram a cair mais de 11% no decorrer do dia. Nem Shell nem Cosan comentaram o assunto até a publicação deste texto.

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