Datena estreia em TV estatal entrevistando Alckmin, que se esquiva de polêmicas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lá se vão 24 anos que o colunista José Simão popularizou o termo “Picolé de Chuchu” para se referir ao estilo “insosso” de Geraldo Alckmin. E, de fato, a estreia do talk show Na Mesa com Datena careceu de fortes emoções.

“A grande estrela de uma entrevista é o entrevistado”, havia dito José Luiz Datena, dias antes da estreia na TV Brasil, no canal da estatal EBC (Empresa Brasil de Comunicação), na noite desta terça (10). Mas o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços não trouxe revelações. Em vez disso, fez um grande balanço de sua gestão na pasta.

Impostos, evasão fiscal, Haddad, desmatamento, vacinação, tarifaço do Trump, técnicas de manusear enxada e causos de Pindamonhangaba estiveram no cardápio. Alckmin saiu pela tangente quando o anfitrião perguntou a que ele vai concorrer nessas eleições -seu partido, o PSB, tenta mantê-lo na chapa do presidente Lula.

“Olha, Datena, vice-presidente não precisa deixar [o cargo]. Então, você continua na vice-presidência. Agora, ministério, pra qualquer cargo que for disputar, você tem que se afastar. Então, no dia 2 de abril, cumprindo rigorosamente a lei, nós vamos nos afastar”, assinalou o político.

Ao comentar sobre o escândalo do Banco Master, Datena questionou: “Houve tentativa, do ponto de vista do governo, de uma certa proteção, já que poderia atingir figuras do próprio governo e figuras importantes de outras instituições?”

“Olha”, respondeu Alckmin, “o presidente Lula tem sido claro. Ninguém no governo limita a investigação.”

“Não, nem o filho dele”, levantou a bola Datena. “É investigação rigorosa, Polícia Federal tem liberdade, Ministério Público, Poder Judiciário”, encampou Alckmin.

Com alcance nacional, o talk show semanal foi transmitido ao vivo para todo o país, entre 21h e 22h30. Pelo canal da TV Brasil no YouTube, com alguns minutos de atraso, também era possível acompanhar o programa. Em geral, o Na Mesa com Datena será dedicado a entrevistas com personagens da política e da vida pública brasileira.

No dia 23 de fevereiro, Datena já havia estreado um programa diário matutino na Rádio Nacional, emissora também pertencente à EBC. “Estou aqui para dar porrada em todo mundo. Não interessa se é direita ou esquerda”, afirmou o jornalista na ocasião, antes de entrevistar o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL ).

Alckmin fez ainda uma citação religiosa. “Na verdade, Datena, diz que quando Jesus entrou em Jericó, Zaqueu, que era baixinho, subiu num sicômero, numa árvore, para ver quem era Jesus. Jesus passa, vê Zaqueu trepado no sicômero, e fala: ‘Desce, Zaqueu. Convém que eu fique hoje em tua casa'”, disse.

“Essa é a passagem de São Lucas, maravilhosa, na Bíblia”, continuou. “E aquilo foi um escândalo. Por que foi um escândalo? Porque Zaqueu era cobrador de impostos. Então faz 2.000 anos que ninguém gosta de pagar impostos. Faz 2.000 anos, não é novidade.”

Também disse uma frase que repete há pelo menos dez anos e que credita ao poeta Olavo Bilac. “Há no interior de cada homem e de cada mulher um demônio que ruge e um Deus que chora”, declamou.

E arrematou: “O ser humano não é perfeito em nenhum lugar do mundo. O que precisa ter é boas instituições”.

Diferentemente do que tem feito na rádio, onde há espaço para falar e opinar a respeito de diversos assuntos, Datena se limitou ao papel de entrevistador na estreia televisiva.

Pelas duas atrações, o apresentador, que disputou a última eleição para prefeito de São Paulo pelo PSDB, assinou um contrato de R$ 100 mil mensais, passando nota como pessoa jurídica. O jornalista iniciou sua carreira no rádio esportivo aos 15 anos, antes de se tornar nacionalmente conhecido em atrações sensacionalistas como o Cidade Alerta, na Record, ou o Brasil Urgente , na Band.

Em dezembro, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e sindicatos criticaram o plano da EBC de contratá-lo, revelado pela Folha, e disseram, em nota, que o apresentador “consolidou um tipo de jornalismo marcado pelo desrespeito sistemático aos direitos humanos e pelo proselitismo político”.

“Esses programas têm um teor mais de fundo retrógrado, muito conservador, mas ele nunca foi esse cara. Eu sempre soube disso”, afirmou o diretor-presidente da EBC, Andre Basbaum, no dia da estreia na rádio.

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