BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O déficit comercial do Brasil na relação com os Estados Unidos se multiplicou por 26 após o presidente Donald Trump anunciar uma série de medidas para tarifar importações; o fluxo de bens entre os dois países saiu de US$ 283 milhões em 2024 para US$ 7,5 bilhões em 2025. Esse foi o 17º ano seguido em que o resultado favoreceu os americanos.
As exportações brasileiras aos EUA caíram 6,6% na comparação com 2024, para US$ 37 bilhões. Enquanto isso, as importações de produtos americanos cresceram 11% (para US$ 45 bilhões).
Herlon Brandão, diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), afirma que o tarifaço afetou o resultado. “Influenciou sim. Observávamos um aumento da exportação aos Estados Unidos até o meio do ano, depois houve quedas mensais”, disse.
Segundo ele, no entanto, outros fatores pesaram. Um deles é a própria dinâmica da economia brasileira, que tradicionalmente importa mais produtos em momentos de expansão. Com indústrias e outros tipos de empresas demandando mais máquinas e equipamentos para ampliar suas capacidades, os bens americanos acabam sendo mais demandados pelo Brasil.
Outro fator é a menor compra de petróleo estrangeiro, já que a produção americana se expandiu nos últimos anos a ponto de reduzir a necessidade de comprar barris de fora do país. Como o petróleo é principal produto exportado pelo Brasil aos Estados Unidos, a menor demanda pelo produto diminui o saldo brasileiro.
“A queda não é totalmente afetada pelas tarifas porque vimos redução [das vendas] em diversos produtos que não foram afetados pelo tarifaço; por exemplo, o petróleo. Mas teve outros que caíram; por exemplo, madeira e máquinas, que foram afetados pelo tarifaço”, disse. “Então é a economia [brasileira] crescendo, e do lado da exportação tanto a tarifa como uma demanda menor por parte do país [Estados Unidos]”.
O vice-presidente e ministro do Mdic, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo brasileiro continua com a missão de negociar para reduzir o alcance do tarifaço americano. “O trabalho continua e vai ser acelerado”, disse.
Segundo ele, o trabalho já trouxe avanços. Inicialmente, disse, 37% dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos eram taxados em 50% e hoje o percentual está em 22%. Outros 27% estão taxados praticamente com a mesma tarifa do restante do mundo; 51% estão tarifados em até 10%.
“O presidente Lula tem com o presidente Trump um bom relacionamento. As conversas avançaram e é nossa tarefa avançar ainda mais. Acho que podemos ter um ganha-ganha e uma pauta muito positiva não só do ponto de vista tarifário”, afirmou.
“Você tem uma agenda importante passando por terras-raras, big techs, data centers”, disse. “O limitante da inteligência artificial no mundo vai ser energia, e o Brasil tem energia abundante e renovável”, afirmou sobre as possibilidade de parceria com os americanos.
Ele também comentou brevemente a situação na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelo governo Trump, embora não tenha citado os potenciais efeitos do cenário para a balança comercial brasileira. “Torcemos pela Venezuela, para que ela possa se recuperar, crescer, aumentar sua importação e sua exportacao. Todo o mundo torce”, disse.
O comportamento da corrente de comércio com os Estados Unidos é observado de perto após Trump anunciar uma série de iniciativas para tarifar importações de produtos de diversos países ao longo de 2025. Em fevereiro, ele impôs taxas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio.
Em julho, Trump publicou uma carta endereçada a Lula na qual anunciou formalmente uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os EUA a partir de 1° de agosto, sob a alegação de que processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro seriam uma “caça às bruxas”. Na ocasião, disse ainda que a relação com o Brasil gera “déficits insustentáveis”.
Depois disso, Trump recuou em parte das iniciativas. Em julho, o americano assinou o decreto que estabeleceu a tarifa de 50%, mas com quase 700 exceções, que livraram 43% do valor de itens brasileiros exportados para os Estados Unidos, segundo levantamento feito pela Folha de S.Paulo.
Ficaram isentos do tarifaço, por exemplo, derivados de petróleo, ferro-gusa, produtos de aviação civil e suco de laranja. Por outro lado, carnes, café e pescado não escaparam na ocasião.
Em setembro, Trump retirou a tarifa de 10% sobre a celulose importada pelos Estados Unidos. Mais recentemente, em novembro, assinou decreto que retira as tarifas de 40% sobre alguns produtos agrícolas vendidos pelo Brasil como carne e café. Ao todo, foram contemplados mais de 200 itens agrícolas e da pecuária, incluindo alguns fertilizantes à base de amônia.