Democratas citam Bad Bunny e ressuscitam projeto contra Doutrina Monroe

Uma image de notas de 20 reais

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Diante das recentes investidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a América Latina, com destaque para a Venezuela, congressistas do Partido Democrata reintroduziram um projeto de lei que propõe o fim da chamada Doutrina Monroe.

A deputada democrata Nydia Velázquez, de origem porto-riquenha, voltou nesta terça-feira (10) a apresentar a proposta, que havia sido introduzida pela primeira vez em 2023 durante o governo de Joe Biden. Agora, o texto conta com o apoio de 14 parlamentares.

Durante o evento para anunciar a reintrodução do projeto, Velázquez mencionou o show de Bad Bunny, que aconteceu no domingo (8) durante o SuperBowl, em que proclamou sobre a união dos países da América. “Há algo mais poderoso que o ódio, que é o amor”, disse a porto-riquenha. “E, há algo mais poderoso que o intervencionismo, que é o respeito mundial entre países soberanos e independentes.”

A Doutrina Monroe foi formulada em 1823 pelo então presidente James Monroe como resposta às tentativas de interferência europeia na América Latina e no Caribe, regiões que haviam passado recentemente por processos de independência. No atual mandato de Trump, a política foi rebatizada informalmente pela Casa Branca de “Doutrina Donroe”, uma fusão entre os nomes Monroe e Donald.

O projeto foi apresentado pela primeira vez há dois anos, após a doutrina completar 200 anos. Na ocasião, Velázquez afirmou que os EUA usaram essa política para justificar uma abordagem paternalista e prejudicial nas relações com a América Latina e o Caribe.

“Como resultado, o legado da política externa do nosso país nessas regiões é de instabilidade política, pobreza profunda, migração extrema e colonialismo. Já passou da hora de mudarmos nossa abordagem”, disse a deputada à época. O projeto foi apresentado após uma comitiva de democratas visitar o Brasil, Colômbia e Chile.

Agora, ao reapresentar o projeto, Velázquez afirma que o retorno da retórica intervencionista sob Trump reforça a necessidade de uma mudança estrutural na política externa americana para a região.

A democrata já anunciou que não buscará a reeleição ao Congresso e que deve se aposentar ao fim do mandato. Em 2023, apesar de Joe Biden ocupar a Presidência, os republicanos detinham a maioria no Congresso. No atual mandato de Trump, o cenário se mantém, o que torna remota a possibilidade de aprovação do projeto no Legislativo.

Velásquez afirmou, em entrevista a jornalistas, que a força do projeto depende de demonstrar o engajamento de membros do Congresso e de reunir um número expressivo de parlamentares dispostos a coassinar a resolução.

“Acredito que é extremamente importante mostrar que há membros do Congresso que não são apenas latino-americanos por origem ou ascendência, mas também outros parlamentares interessados em pôr fim a esse tipo de política, que não beneficia nem os EUA nem os países latino-americanos”, disse Velásquez.

Embora tenha surgido com princípios considerados positivos, a doutrina —sintetizada no lema “América para os americanos”— passou, ao longo do tempo, a servir de base para intervenções dos EUA na região em defesa de interesses estratégicos e econômicos.

Além de pedir o fim formal da Doutrina Monroe, o texto propõe uma série de mudanças na política externa dos EUA para a América Latina e o Caribe sob o rótulo de “Boa Vizinhança” —uma referência à política adotada nos anos 1930 pelo então presidente Franklin D. Roosevelt, que defendia a não intervenção e o respeito à soberania dos países latino-americanos.

O evento contou com a presença de vítimas de países da América Latina, que viveram sob ditaduras que foram financiadas pelos EUA. Um dos discursos mais emocionantes foi o da chilena Luz de las Nieves, que relatou o sequestro de sua família durante a ditadura de Augusto Pinochet, com apoio e treinamento dos EUA.

“Desapareci e fui torturada por argentinos, uruguaios, paraguaios, brasileiros e outros que falavam alemão e inglês”, relatou ela, que descreveu cenas de tortura que viveu ao lado do pai e irmão, entre elas espancamento, ter sido submetida ao pau de arara, além de múltiplos assédios sexuais.

As torturas, disse Luz, foram comandada pelos diretor Manuel Contreras do Dina (Direção de Inteligência Nacional), que aprendeu sobre os métodos nos EUA.

“É por isso que eu acuso e culpo os governo dos Estados de [Richard] Nixon e [Henry] Kissinger, que muniram os ditadores militares chilenos com armas, treinamento e dinheiro. Isso é parte da Doutrina Monroe, que prevaleceu por séculos e foi aplicada por diversos presidentes dos EUA. É por isso que nós pedimos a anulação da Doutrina Monroe. Apenas o povo pode salvar o povo.”

Voltar ao topo