Desconfiança e ameaça de guerra marcam negociação EUA-Irã

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sob a sombra do cerco militar crescente de Donald Trump ao Irã, delegações do país persa e dos Estados Unidos se reuniram de forma indireta nesta sexta-feira (6) em Mascate, capital de Omã. Não houve nenhum avanço significativo.

O tema central à mesa era o programa nuclear da teocracia, mas o pano de fundo da crise é a ameaça de Trump de atacar o Irã na esteira da repressão a protestos contra o regime. Desde seu primeiro mandato (2017-2021) o americano não esconde o desejo de ver derrubado o governo hostil aos EUA.

Segundo o líder da delegação iraniana, o chanceler Abbas Araghchi, “o muro da desconfiança precisa ser vencido”. Ao mesmo tempo, disse que “a atmosfera foi muito positiva” e afirmou que novas negociações devem acontecer, mas dependem de decisões a serem tomadas depois que os governos forem informados do teor do encontro desta sexta.

Ainda não houve manifestação do lado americano, que reuniu o negociador Steve Witkoff, o genro de Trump Jared Kushner e o almirante Brad Cooper, comandante das forças americanas no Oriente Médio.

A presença do militar havia provocado protesto dos iranianos, pelo tom intimidatório e pelo fato de que Teerã só aceitaria discutir a questão nuclear, e não a questão dos manifestantes e mesmo seu programa de mísseis balísticos, visto pelos EUA como ameaça regional.

Os iranianos querem a retomada do acordo de 2015 segundo o qual se comprometiam a apenas enriquecer urânio com fins pacíficos, e não para fazer a bomba atômica, em troca do fim de sanções. Trump, que deixou o arranjo em 2018, quer o fim completo do programa nuclear.

A ONU estima que o Irã tem 400 kg de urânio a ponto de fazer até 15 bombas atômicas de baixo rendimento, que podem ser ainda mais enriquecido. Imagens de satélite divulgadas pelo jornal New York Times mostram que parte das instalações bombardeadas por Trump no ano passado foi reconstruída.

O fato de as conversas terem acontecido já foi um avanço em si, dada a animosidade. Elas seriam diretas entre as partes, algo que não ocorre há uma década, na Turquia. Mas Teerã insistiu em repetir o formato adotado em cinco rodadas similares no sultanato do Golfo Pérsico em 2025.

Assim, as delegações permaneceram separadas, fazendo reuniões com o chanceler omani, Badr al-Busaidi, e sua equipe. O diplomata ouvia os argumentos e levava para o grupo rival em outra sala. “Foi útil para deixar claro os pensamentos iraniano e americano e identifica áreas para possível progresso”, escreveu ele no X.

É um filme conhecido, e não traz bom agouro. O fracasso daquelas conversas, também sob pressão militar de Trump, abriu o caminho para uma guerra inédita. Em junho, Israel atacou o rivais persas durante 12 dias, e Trump promoveu seu ataque, levando o conflito a um cessar-fogo.

A atual crise tomou corpo na virada do ano, quando milhares de manifestantes foram às ruas iranianas para protestar contra a crise econômica aguda, em atos que se tornaram contra o regime rapidamente.

A repressão de Teerã foi brutal, e ativistas falam em mais de 5.000 mortos, com o país sob a sombra de um apagão da internet que impediu a verificação precisa do que aconteceu.

Trump sugeriu intervir e prometeu que enviaria ajuda aos manifestantes, instando-os a ocupar prédios públicos. Mas logo voltou atrás, dizendo que tinha informações de que “a matança está parando”. Ao mesmo tempo, mobilizou ativos militares para um cerco ao Irã.

As forças enviadas ao Oriente Médio incluem um grupo de porta-aviões, navios de guerra e inúmeros aviões de ataque e apoio. Mas a ação ainda é inferior, em termos ofensivos, em comparação com a mobilização feita antes do conflito do ano passado.

Em março de 2025, os americanos escalaram sua presença no Oriente Médio e chegaram a ter três porta-aviões na região.

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