RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A taxa de desemprego (ou desocupação) renovou a mínima da série histórica no Brasil, mas isso não significa que o mercado de trabalho tenha superado todos os seus desafios.
Conforme economistas, a desocupação no menor patamar já registrado pode ofuscar outros indicadores que sinalizam dificuldades mais amplas. É o caso da taxa de subutilização, que também atingiu a mínima histórica, embora siga em dois dígitos.
O conceito de subutilização vai além do desemprego e capta ainda situações como a dos profissionais que desistiram de procurar emprego ou que até trabalham, mas menos do que gostariam. Por isso, funciona como uma espécie de termômetro do desperdício de mão de obra.
No trimestre até dezembro, a taxa de subutilização recuou a 13,4%, enquanto a de desemprego baixou a 5,1%.
Os dados oficiais são da Pnad Contínua, pesquisa iniciada em 2012 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
No caso da subutilização, analistas recomendam a análise a partir do quarto trimestre de 2015 em razão de ajuste metodológico ocorrido à época.
A subutilização chegou a superar 30% durante a pandemia, em 2020. Mesmo estando na mínima histórica após a recuperação do mercado de trabalho, a proporção de 13,4% ainda pode ser considerada elevada, na visão do pesquisador João Mário de França, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
O percentual mais recente equivale a 15,3 milhões de pessoas subutilizadas de 14 anos ou mais em uma força de trabalho ampliada de 113,8 milhões de pessoas.
“Se você olhar só para a desocupação, pode mascarar alguma outra informação”, diz França.
QUEM SÃO OS SUBUTILIZADOS
Os 15,3 milhões de subutilizados somam três grupos: desempregados (5,5 milhões), subocupados por insuficiência de horas (4,5 milhões) e força de trabalho potencial (5,3 milhões).
Os desempregados não estão trabalhando, seguem à procura de vagas (formais ou informais) e estão disponíveis para ocupar eventuais oportunidades. Para entrar nessa classificação, não basta só não ter emprego.
Já os subocupados até estão trabalhando, mas menos de 40 horas semanais, e gostariam de ter jornadas maiores. Um possível exemplo é o de quem faz bicos de forma esporádica.
Por fim, a força de trabalho potencial envolve pessoas que desistiram de procurar emprego, como os desalentados, e profissionais que até buscaram vagas, mas não estavam disponíveis para ocupá-las por diferentes razões, como doenças ou cuidado de familiares.
A subutilização consegue captar aspectos “mais estruturais” do mercado de trabalho no Brasil, como produtividade média mais baixa e informalidade mais elevada do que em outros países, segundo o economista Ely José de Mattos, professor da Escola de Negócios da PUCRS.
“Não diria que é uma taxa muito alta, ela vem caindo, mas ainda está em 13%, em dois dígitos, e chama um pouco a atenção. É algo mais estrutural do que conjuntural. Tem a ver com a maneira como o emprego está estruturado.”
O IBGE afirma que a taxa de desemprego é amplamente utilizada pelos países, mede a procura por trabalho e permite maior comparabilidade internacional. Já a taxa de subutilização, segundo o instituto, pode ampliar o diagnóstico ao captar outras formas de “insuficiente inserção laboral”.
“Embora a taxa de desocupação seja diferente da taxa de subutilização, isso não a torna mais verdadeira ou menos verdadeira. O IBGE produz e divulga ambas, e podem ser analisadas de forma complementar”, acrescenta.
DIFERENÇAS REGIONAIS
No quarto trimestre de 2025, a subutilização atingiu a mínima da série nas cinco grandes regiões do país. As desigualdades, contudo, permanecem.
O percentual de mão de obra desperdiçada foi de 22,6% no Nordeste, seguido pelo registrado no Norte (15,7%). A taxa nordestina é mais que o triplo da encontrada no Sul (7,2%). Centro-Oeste (8,6%) e Sudeste (11%) completam a relação.
Em 20 de fevereiro, quando o IBGE divulgou dados do quarto trimestre e da média de 2025, o pesquisador do instituto William Kratochwill disse em nota que a queda do desemprego “mascara problemas estruturais”, citando informalidade e subutilização elevadas no Norte e no Nordeste.
A taxa de subutilização ficou acima de 20% em seis estados no quarto trimestre de 2025. Todos estão no Nordeste: Piauí (27,8%), Bahia (25,4%), Alagoas (25,1%), Sergipe (24,3%), Maranhão (22,8%) e Pernambuco (21,9%).
Oito estados, por outro lado, mostraram percentuais abaixo de 10%. Foram os seguintes: Santa Catarina (4,4%), Espírito Santo (5,9%), Mato Grosso (6,1%), Rondônia (6,9%), Mato Grosso do Sul (7%), Rio Grande do Sul (7,9%), Goiás (8%) e Paraná (8,6%).
O economista e pesquisador Alysson Portella, que estuda o mercado de trabalho e as suas desigualdades, diz que as diferenças regionais estão associadas a processos históricos.
Locais como o Nordeste, segundo ele, enfrentaram dificuldades mais acentuadas em áreas como educação ao longo do tempo.
“Tem também o perfil econômico. O Nordeste, historicamente, não passou por um processo de desenvolvimento tão forte quanto o Sul e o Sudeste na indústria e nos serviços. A própria agricultura tem mais dificuldades.”
No recorte das capitais, a maior subutilização foi encontrada pelo IBGE no Recife, onde a taxa ficou em 19,9% no quarto trimestre do ano passado. Aracaju (18,4%) e Salvador (18,1%) vieram na sequência.
Já os menores níveis de desperdício de mão de obra foram verificados em Goiânia (5,5%), Campo Grande (5,9%) e Florianópolis (6%).
“A gente tem de pensar o país de formas diferentes, porque os problemas das regiões são completamente diferentes”, diz o economista Edgard Leonardo Lima, professor do Centro Universitário Tiradentes, no Recife.
Ele afirma que profissionais que perderam o emprego em crises anteriores podem ter enfrentado dificuldades para se requalificar em meio a transformações da tecnologia no mundo do trabalho.
Com isso, a alternativa pode ter sido a migração para vagas com características de subutilização. É o que Lima chama de “desemprego disfarçado”.
Diferentes setores da economia brasileira passaram a relatar escassez de profissionais disponíveis e aptos a preencher determinadas vagas após a recuperação do mercado de trabalho.
A situação ocorre em um momento no qual o país discute o eventual fim da escala 6×1 seis dias de trabalho e um de descanso na semana. A ideia divide opiniões.
Defensores do fim desse modelo dizem que o trabalhador precisa de mais tempo livre para o seu bem-estar e que isso não traria risco a empregos. Setores contrários à mudança, incluindo líderes empresariais, falam em aumento de custo e risco de demissões.