Direitista vence eleição na Costa Rica com discurso linha-dura inspirado em Bukele

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A cientista política Laura Fernández, 39, foi eleita presidente da Costa Rica no domingo (1º) com 48,3% dos votos. Integrante do recém-criado PPSO (Partido Soberano do Povo), a apadrinhada do atual chefe do Executivo, Rodrigo Chaves, venceu com um discurso de continuidade ao governo apesar da derrocada na segurança pública nos últimos quatro anos.

Ao todo, 20 candidatos disputaram a Presidência. Não haverá segundo turno, já que a direitista Laura, ex-chefe de gabinete de Chaves, foi a escolha de ao menos 40% dos eleitores e ficou mais de dez pontos percentuais à frente do segundo colocado, Álvaro Ramos —condições para encerrar a corrida em uma só votação, de acordo com a lei do país.

Candidato do PLN (Partido da Libertação Nacional), Ramos também foi integrante do governo Chaves, chefiando o sistema de Previdência Social no início da gestão. O político alcançou 33,18% dos votos.

Embora tenha um nível de aprovação que ronda os 60%, o atual presidente não tentou a reeleição, uma vez que a Constituição proíbe mandatos presidenciais consecutivos. Laura, no entanto, havia prometido um alto cargo ao aliado caso tivesse êxito na votação, de acordo com a imprensa local.

O aumento de assassinatos no país fez a criminalidade ser a questão central da corrida presidencial. Autoridades locais atribuem a violência, entre outros fatores, a uma mudança na rota do narcotráfico internacional, que passou a usar a Costa Rica para armazenar cocaína proveniente da América do Sul antes de transportar a droga aos Estados Unidos e à Europa.

Em 2025, o índice de homicídios chegou a 16,7 a cada 100 mil habitantes, um dos maiores já registrados e só um pouco menor do que o do Brasil em 2024, por exemplo. Foram 873 mortes, apenas três a menos do que no ano anterior. O ano recordista é 2023, com 905 homicídios.

Nesse cenário, cerca de 40% dos eleitores apontaram a violência como o maior problema do país, contra apenas 4% há quatro anos, quando Chaves foi eleito.

Abertamente simpatizante de Nayib Bukele, Laura recebeu durante a campanha a bênção do presidente de El Salvador, constantemente criticado pelas denúncias de violações de direitos humanos e prisão de inocentes na guerra contra as gangues que lidera em seu país.

No domingo, o presidente salvadorenho foi o primeiro a parabenizá-la pela vitória. “Desejo o maior dos sucessos em seu governo e tudo de melhor para o querido povo irmão da Costa Rica”, escreveu ele em um post na rede social X. A presidente eleita afirmou, nesta segunda (2), que conta com Bukele para implementar “com sucesso” sua estratégia de combate ao narcotráfico.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também parabenizou Laura por sua “vitória incontestável”. “Sob sua liderança, estamos confiantes de que a Costa Rica continuará avançando em nossas prioridades compartilhadas, incluindo o combate ao narcotráfico, o fim da imigração ilegal para os EUA, a promoção da segurança cibernética e o fortalecimento dos laços econômicos”, afirmou.

Em seu discurso de vitória no domingo, a presidente declarou-se uma “democrata convicta” e “defensora da liberdade”, embora tenha atacado duramente a imprensa, à maneira de Chaves. Ovacionada por apoiadores, disse ainda, sem dar detalhes, que sua gestão não permitirá “o autoritarismo e a arbitrariedade”, mas que “certas regras do jogo político” mudarão, e que a mudança será “profunda e irreversível”.

A declaração tem endereço: ela é acusada por seus adversários de querer levar o país para o caminho do autoritarismo com suas propostas de reformas no Judiciário, que considera um entrave no combate ao crime organizado.

Para isso, ela se esforçou para conquistar a maioria dos 57 membros da Assembleia, cujos cargos também estavam em disputa no domingo. Segundo as projeções, porém, Laura contaria com cerca de 30 parlamentares, o que não lhe permitiria reformar a Constituição.

Foi a partir da conquista do Legislativo que Bukele destituiu juízes da mais alta corte salvadorenha e concentrou poder para levar a cabo a sua guerra contra gangues, constantemente criticada devido a denúncias de violações de direitos humanos e prisão de inocentes.

“Todos os regimes ditatoriais da América Latina criam suas próprias constituições. Foi o que fizeram Augusto Pinochet [Chile], Daniel Ortega [Nicarágua], nosso vizinho salvadorenho Nayib Bukele e Jorge Rafael Videla [Argentina]”, afirmou à imprensa o ex-presidente Óscar Arias, prêmio Nobel da Paz de 1987, perto do seu centro de votação. “Não há nada mais distante do espírito do costarricense do que acumular poder.”

Conhecida pela neutralidade, a Costa Rica, um país de 5,2 milhões de habitantes, aboliu seu Exército em 1948 e se consolidou como um refúgio na América Central ao longo do século 20, quando seus vizinhos passavam por sangrentas guerras civis.

“As maiorias eleitorais, por mais avassaladoras que sejam, não são salvo-conduto para silenciar as minorias nem para sufocar as vozes dissidentes”, afirmou Laura Chinchilla, primeira mulher a governar a Costa Rica, em 2010, e uma das críticas mais ferrenhas da presidente eleita.

A despeito das críticas, Chaves continuou apostando em políticas linha-dura inspiradas em seu homólogo salvadorenho —e Laura parece ir para o mesmo caminho.

Em janeiro, o presidente começou a construção de um presídio nos moldes do Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), famoso complexo para membros de gangues de El Salvador, em uma cerimônia com a presença de Bukele.

“Durante anos, nos venderam mentiras perigosas, dizendo que o crime organizado é complexo demais para ser combatido”, afirmou Chaves. “Não é complexo. Para o Judiciário e para a maioria no Congresso, os direitos humanos dos presos são mais importantes do que os direitos das vítimas. Eles não enxergam a sequência de eventos que os dados, a ciência e as análises nos mostram: o que aconteceu em El Salvador está acontecendo aqui hoje.”

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