Dólar cai e Bolsa ronda a estabilidade com novas ameaças tarifárias de Trump em foco

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar registra queda nesta segunda-feira (19), em uma sessão marcada por maior aversão ao risco global, agenda esvaziada de indicadores e sem a referência do mercado norte-americano, fechado em função de feriado nos Estados Unidos.

Ao longo do pregão, analistas acompanham os desdobramentos das novas ameaças tarifárias do presidente norte-americano, Donald Trump, à Europa. Internamente, os agentes reagem a entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Às 13h58, o dólar caía 0,33%, aos R$ 5,354. No mesmo horário, a Bolsa subia 0,05%, aos 164.894 pontos, próxima da estabilidade.

As ameaças de novas tarifas de Trump sobre parceiros comerciais europeus aumentam a volatilidade nos mercados globais. No sábado (17), Trump prometeu implementar tarifas adicionais de importação de 10% sobre produtos da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido — todos já sujeitos a tarifas impostas por Trump.

Segundo o republicano, as taxas entrarão em vigor em 1º de fevereiro e serão mantidas até que os EUA tenham permissão para comprar a Groenlândia, ilha ártica da Dinamarca.

Essas tarifas aumentarão para 25% em 1º de junho e continuarão até que se chegue a um acordo envolvendo o território, escreveu Trump.

Em reação, países da UE (União Europeia) avaliam impor tarifas no valor de 93 bilhões de euros aos EUA (cerca de R$ 580 bilhões) ou restringir empresas americanas no mercado do bloco.

Segundo Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a aversão ao risco está relacionada a fatores geopolíticos. “As tensões entre Donald Trump e Europa geram ruídos e elevam o desconforto nos mercados. Com Wall Street fechada, esse movimento acaba sendo menos intenso”.

Para Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos, há diversos focos de tensão no cenário internacional. “Trump vem intensificando as tensões com países da União Europeia e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), movimento que tem gerado bastante ruído nos mercados. Também crescem as especulações sobre um novo nome no comando do Fed após a saída de Jerome Powell”, afirma.

Trump disse, na quarta-feira, não ter planos de demitir Powell, apesar de uma investigação criminal contra o chefe da autoridade monetária norte-americana estar em curso. O inquérito apura se Powell mentiu ao Congresso sobre o escopo da reforma de dois prédios do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) em Washington, em projeto estimado em US$ 2,5 bilhões. Ele nega ter cometido qualquer irregularidade e disse que as ações “sem precedentes” são um pretexto para pressioná-lo.

Powell não tem atendido às demandas de Trump por taxas de juros mais baixas, e diz que as decisões de política monetária do comitê do banco central estão sendo tomadas a partir da análise de dados econômicos.

O mandato de Powell à frente do banco central termina em maio. Trump disse estar inclinado a nomear o ex-diretor do Fed, Kevin Warsh, ou o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, para o cargo. “Os dois Kevins são muito bons”, disse Trump. “Tem outras pessoas boas. Anunciarei algo nas próximas semanas.”

Warsh parece mais bem posicionado do que Hassett nos mercados de aposta. Segundo o Polymarket, o ex-diretor do Fed aparece com cerca de 60% de probabilidade de indicação, enquanto Hassett recuou para cerca de 7%, depois de já ter marcado quase 80% de chance.

Rick Rieder, diretor de investimentos em renda fixa da BlackRock, e Christopher Waller, diretor do Fed, também estão entre os mais cotados, com 16% e 13% de chance, respectivamente.

Internamente, o mercado repercute a entrevista de Fernando Haddad ao Uol na manhã desta segunda. A agenda do dia não tem divulgação de indicadores importantes.

Segundo o ministro da Fazenda, o governo discute proposta para que Banco Central passe a fiscalizar fundos de investimento. “Tem muita coisa que deveria estar no âmbito do Banco Central e está no âmbito da CVM, equivocamente”, afirmou.

Haddad também voltou a defender a atuação do BC no caso do Banco Master, liquidado em novembro, e disse que o presidente da autoridade monetária herdou diversos problemas da gestão de Roberto Campos Neto.

“O presidente nomeado pelo governo anterior [Campos Neto] trabalhou o tempo inteiro para sabotar esse governo”, disse. “O problema do Banco Master foi constituído na gestão anterior. Não cresceu nesse ano em que o Galípolo descascou o abacaxi, […] resolvendo com grande competência.”

Analistas também mencionam os dados do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) referentes a novembro, divulgados na sexta-feira.

“O IBC-Br mostrou uma economia ainda bastante aquecida, o que praticamente esvaziou as expectativas de corte na taxa de juros Selic em março, deslocando-as para abril”, diz Ramon Coser, da Valor Investimentos.

Considerado uma prévia do PIB (Produto Interno Bruto), o indicador do BC teve alta de 0,7%, acima do esperado. A expectativa de economistas consultados pela Reuters era de avanço de 0,3%.

A Selic alta por mais tempo tira atratividade da renda variável, já que torna a renda fixa um investimento rentável e de baixo risco. No mercado de câmbio, por outro lado, o diferencial de juros joga a favor do real, já que os investidores se aproveitam das taxas baixas de outros mercados, como o norte-americano, para tomar empréstimos e, depois, aportar esse dinheiro no Brasil. Investir aqui implica na conversão de dólares em reais, o que valoriza a moeda brasileira.

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