SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar está em forte disparada nesta terça-feira (3) diante do agravamento das tensões no Oriente Médio, com investidores em busca de segurança.
O cenário contamina a Bolsa de Valores brasileira, cujo principal índice acionário, o Ibovespa, chegou a marcar queda de mais de 4% em meio à aversão ao risco global.
Às 14h35, a moeda norte-americana avançava 2,6%, a R$ 5,298. Na máxima do dia, chegou a R$ 5,340, um aumento de quase 20 centavos em relação ao fechamento da véspera, de R$ 5,164.
O Ibovespa, no mesmo horário, tombava 3,41%, a 182.839 pontos, depois de ter tocado a mínima de 180.518 pontos uma queda de 4,64%, ou 9.000 pontos a menos ante os 189.307 pontos do fechamento de segunda-feira.
O conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irã ganhou ainda mais contornos de guerra regional depois que soldados israelenses ocuparam novas posições no Líbano nesta terça.
A invasão terrestre ao país tenta conter novos ataques do Hezbollah, milícia aliada a Teerã, em uma ampliação da presença de Tel Aviv no Líbano. O Irã, por sua vez, segue lançando mísseis contra países vizinhos, aliados dos Estados Unidos. Em Riad, capital da Arábia Saudita, testemunhas disseram à agência de notícias AFP terem ouvido duas fortes explosões na zona diplomática da cidade.
No Qatar, o Exército afirmou ter interceptado mísseis nesta madrugada, e repórteres da AFP relataram fortes explosões na capital Doha. No Kuwait, as Forças Armadas do país informaram que um soldado da Marinha foi morto nesta segunda durante uma operação militar, mas não forneceu detalhes sobre as circunstâncias do incidente.
A escalada do conflito agrava as disrupções no mercado global de energia. O Irã anunciou, na segunda, o fechamento do estreito de Hormuz para navegação, via por onde passam 20% de toda a produção de petróleo do mundo.
O Qatar ainda suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
Como resultado, os preços das commodities estão em mais um dia de disparada. O barril do petróleo Brent, referência global, subia 8%, cotado a US$ 84 (R$ 435), enquanto o gás europeu avançava 40%, após já ter subido 40% na véspera.
A incerteza sobre a duração do conflito impõe volatilidade aos mercados, levando operadores a ativos tradicionalmente seguros. O dólar, por exemplo, se fortalece globalmente: o índice DXY, que o compara a uma cesta de seis moedas fortes, avançava 0,85%, a 99,21 pontos, depois de já ter subido 0,8% na véspera.
“Não víamos o dólar sendo usado como ativo de porto seguro desde pelo menos o início de 2025, quando o governo Donald Trump começou a fazer as políticas que criaram disrupções no mercado. Com a escalada do conflito no Oriente Médio, a moeda volta a ter protagonismo”, diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex.
Praças acionárias ao redor do mundo estão derretendo. Na Ásia, o índice chinês CSI300, que reúne as principais companhias listadas em Xangai e Shenzhen, caiu 1,54%, e o índice SSEC, de Xangai, desvalorizou 1,43%.
A Bolsa de Tóquio caiu 3,1%; a de Seul, 7,24%. Na Europa, o tombo foi de mais de 3%. O índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, recuou 3,08%, acompanhado por Frankfurt (-3,4%), Londres (-2,75%), Paris (-3,46%), Madri (-4,55%) e Milão (-3,92%).
As Bolsas dos EUA também estão em queda acentuada. O Dow Jones caía 1,4%, enquanto o S&P 500 recuava 1,38% e o Nasdaq Composite, 1,59%.
“O que estamos vendo é um movimento clássico de fuga para ativos considerados mais seguros, em meio à piora do cenário geopolítico”, diz Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.
No Brasil, praticamente todas as empresas da carteira teórica do Ibovespa estão no negativo. Petrobras é exceção, cujos papéis preferenciais e ordinários marcavam alta de 0,5% cada devido à valorização do petróleo no exterior.
Em segundo plano, na agenda econômica local, o IBGE divulgou dados do PIB, que mostraram que a atividade econômica do país teve expansão de 2,3% em 2025, mas terminou o ano quase estagnada no quarto trimestre e mostrou perda de força em relação a 2024.
No ano, o resultado ficou abaixo do desempenho do PIB em 2024, de alta de 3,4%. A expectativa do governo era de alta de 2,3% em 2025. Já no quarto trimestre, o PIB teve alta de 0,1% sobre os três meses anteriores, em linha com a expectativa em pesquisa da Reuters.
Para o Copom (Comitê de Política Monetária), o dado deve “favorecer a aceleração do ciclo de corte de juros”, diz Bezzon, da StoneX. A dúvida agora é sobre o tamanho da redução da Selic no encontro deste mês: se 0,25 ponto percentual, se 0,5 ponto.
“Pode até ser que o Copom mencione o conflito no Oriente Médio como um ponto de incerteza do ambiente externo, mas, para essa decisão, não acredito que tenha algum impacto significativo.”