SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em queda de 0,43% nesta terça-feira (6), cotado a R$ 5,380, refletindo o bom humor externo após o mercado digerir o impacto inicial da invasão dos Estados Unidos à Venezuela no final de semana.
O maior apetite por risco também impulsiona praças acionárias globais, com os índices de Wall Street avançando entre 0,6% e 1%.
Já no Brasil, o Ibovespa teve alta firme de 1,1%, a 163.665 pontos, segundo dados preliminares. A Bolsa pegou carona na valorização de mais de 3% da Vale, um contrapeso relevante para a queda de quase 2% dos papéis da Petrobras pela segunda sessão consecutiva.
Os operadores seguiram atentos aos desdobramentos geopolíticos na Venezuela. Mas a avaliação do mercado, segundo Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, é de que, até o momento, “os impactos sobre os preços dos ativos têm sido limitados”.
Parte dessa percepção deriva da posse da líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que ajudou a dissipar um pouco da cautela que rondava as mesas de operação desde o ataque norte-americano a Caracas no último sábado.
Vice de Nicolás Maduro, Rodríguez declarou lealdade ao ditador, reduzindo a incerteza sobre como será a condução da política econômica venezuelana, em especial no que diz respeito à indústria do petróleo.
“Os fluxos iniciais de busca por segurança no dólar já se dissiparam”, afirma Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury. “Não é uma grande surpresa, dada a limitada integração da Venezuela à economia global, que tem sido restringida por políticas governamentais e sanções internacionais.”
Ele ainda aponta que, para o mercado, há uma sensação geral de que o ataque foi pontual, e não o início de um conflito prolongado, especialmente ao considerar que Rodríguez não sugeriu ações militares de retaliação.
Segundo ele, a remoção do regime Maduro aponta para uma transição política gradual e, “espera-se”, pacífica, que pode levar à abertura da economia venezuelana. “A indústria petrolífera, principal motor de crescimento do país, parece estar prestes a ser reformulada pelos EUA, o que deve impulsionar a produção nos próximos anos. Mas uma ‘retomada rápida’ não está nos planos, e qualquer impacto nos preços globais do petróleo provavelmente demorará a ser sentido”, afirma Ryan.
Os preços do petróleo Brent, referência internacional, estão em queda, apagando parte dos ganhos de mais de US$ 1 por barril na véspera. A commodity recuava 1,13%, a US$ 61,06, na Bolsa de Londres.
No Brasil, Petrobras estendia o movimento de segunda-feira, quando perdeu R$ 6,8 bilhões em valor de mercado. Os papéis preferenciais recuavam 1,82%; os ordinários, 1,95%. Os negócios da estatal na B3 também estão sendo afetados pela notícia de um vazamento de fluido de perfuração na Bacia da Foz do Amazonas, que paralisou as operações da petroleira por tempo indeterminado.
A avaliação de analistas e investidores é que as petroleiras brasileiras podem perder atratividade com a expectativa de novos investimentos no setor na Venezuela, além de terem que lidar com preços mais baixos da commodity, devido a um potencial crescimento da oferta.
A Venezuela é dona da maior reserva de petróleo no mundo e é do grupo fundador da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), mas sua indústria foi sucateada nos últimos anos e hoje produz menos de 1% do volume global.
Com o impacto inicial do ataque já digerido pelos operadores, o foco agora se volta para divulgações de dados econômicos ao longo da semana.
O principal relatório da agenda é o payroll dos Estados Unidos, uma métrica sobre o mercado de trabalho que poderá alterar as apostas sobre a política monetária do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano).
Por ora, 83,9% dos investidores apostam que a decisão do banco central será de manutenção da taxa de juros no atual patamar de 3,5% e 3,75%. Os 16,1% restantes enxergam uma nova redução como o movimento mais provável da próxima reunião, marcada para o fim de janeiro.
No Brasil, com o Congresso e parte das autoridades do Executivo ainda em recesso, os investidores não têm, por enquanto, gatilhos fortes para operar, o que mantém o dólar próximo da estabilidade ante o real e no patamar de R$ 5,40.
“Caso rompa este suporte de R$ 5,40, teremos novamente uma tendência de baixa do dólar no médio prazo”, diz o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, acrescentando que no longo prazo a divisa segue em tendência de queda.
Por aqui, dados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial da inflação no país, serão divulgados na sexta-feira.
Já na ponta corporativa, destaque para as ações da Vale, em alta de 3,62%, “acompanhando a valorização do minério de ferro e dando suporte relevante ao desempenho do índice”, avalia Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.