SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar registra forte queda nesta segunda-feira (16), desabando mais de 1% na manhã com a guerra do Irã e trajetória dos juros brasileiros no radar dos investidores.
Às 11h14, a moeda norte-americana caía 1,10%, cotada a R$ 5,258, em sintonia com o recuo no exterior. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis outras moedas, recua 0,54% nesta manhã.
No mesmo horário, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, avançava 1,79%, a 180.841 pontos, com todas as ações do índice no campo positivo.
O movimento devolve os ganhos da moeda norte-americana e as perdas da Bolsa, que haviam registrado alta de 1,35% e queda de 0,9%, respectivamente, na sexta-feira (13).
“Encerramos a sexta-feira com o dólar em R$ 5,32. Agora, porém, vemos uma correção desses movimentos: enquanto o dólar se enfraquece no exterior, o real acaba se beneficiando”, diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Os analistas continuam atentos ao confronto no Oriente Médio, que vem impactando diretamente o preço do petróleo, e também aguardam a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do BC, que definirá a nova taxa de juros.
O conflito tem ganhado status de uma guerra regional. Nesta segunda-feira, Israel invadiu novas áreas do sul do Líbano, em uma ofensiva terrestre contra Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã.
No centro do conflito estão os temores de gargalos no mercado de energia o Estreito de Hormuz, na costa iraniana, é responsável por 20% de todo petróleo e gás global, que podem causar um repique inflacionário global.
“A persistência da guerra no Oriente Médio mantém volatilidade no preço do petróleo, com o Brent orbitando novamente a faixa de US$ 100 por barril, o que reforça temores de pressões inflacionárias a nível global e sustenta a busca por ativos considerados mais seguros, como a moeda americana”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
No sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou outros países a enviarem navios de guerra para manter o estreito de Hormuz aberto à navegação.
“Os países do mundo que recebem petróleo pelo estreito de Hormuz precisam zelar por essa passagem, e nós vamos ajudar E MUITO!”, escreveu Trump em publicação no Truth Social. “Os EUA também vão se coordenar com esses países para que tudo ocorra de forma rápida, tranquila e satisfatória.”
No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que a via está aberta para todos, menos para aliados dos Estados Unidos.
A travessia estaria bloqueada “apenas para petroleiros e navios de inimigos e os aliados deles”, afirmou Araghchi para a mídia estatal iraniana. “Os outros navios têm passagem livre, mas podem optar desviar por questões de segurança”, acrescentou. “Ainda há muitos petroleiros e navios que estão passando pelo estreito”, disse o chanceler.
As tensões no Oriente Médio têm afetado as previsões de política monetária de bancos centrais. O mercado já estima que o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) mantenha o patamar atual de juros até julho.
Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, os investidores veem uma chance de 99,2% de que o Fed mantenha o patamar atual de juros, entre 3,5% e 3,75%, na reunião desta quarta-feira (18).
As previsões também apontam maior probabilidade de manutenção da taxa nas reuniões subsequentes: 93% na reunião de abril e 71,7% na de junho. O quadro começa a mudar na reunião de julho, com 59,5% prevendo manutenção, mas 34,3% projetando redução para a faixa entre 3,25% e 3,5%.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, vê uma pressão global com o conflito. “O petróleo mais caro tende a pressionar as expectativas de inflação global, principalmente em economias desenvolvidas, o que pode reduzir o espaço para cortes de juros mais rápidos pelo Fed”.
No Brasil, a postura também é mais cautelosa. Para a decisão desta quarta-feira (18), cresceu a aposta de redução de 0,25 ponto percentual da taxa básica, a Selic. A mediana das previsões coletadas pela agência Bloomberg aponta taxa de 14,75%.
O boletim Focus, divulgado nesta segunda, aumentou a previsão da inflação ao seu maior patamar neste ano e diminuiu o tamanho da redução que esperam na reunião desta semana do Copom (Comitê de Política Monetária) para a taxa de juros. A previsão do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) saltou para 4,10%, maior nível neste ano, e da Selic, para 14,75%.
“Para o Banco Central brasileiro, houve mudanças importantes no ambiente macro. O dólar passou a apresentar maior volatilidade e voltou a subir, superando R$ 5,25. Além disso, o mecanismo de transmissão do aumento do petróleo que passou a negociar em patamares próximos de US$ 100 o barril representa um choque com potencial inflacionário relevante”, diz Bruno Shahini, da Nomad.
O preço do petróleo começou a semana em alta e chegou a bater em US$ 106 nesta segunda. Na máxima do dia, a commodity alcançou US$ 106,50 (R$ 560,38) às 19h30 de domingo (horário de Brasília), quando era manhã na Ásia.