SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O empresário e ex-governador de São Paulo João Doria procurou o banqueiro Daniel Vorcaro em maio de 2025 para alertá-lo sobre informações negativas que estariam circulando a seu respeito e sobre o Banco Master, sugerindo que reagisse “com equilíbrio e ponderação”.
As mensagens constam do celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal na nova fase da Operação Compliance Zero, que levou o banqueiro à prisão preventiva sob suspeita de tentar atrapalhar as investigações.
No diálogo, Doria afirma estar preocupado. “Tenho escutado coisas que vão precisar de reação sua. Sempre com equilíbrio e ponderação. Mas jamais com silêncio. Vamos agendar um café?”, escreveu.
Vorcaro pergunta a que fatos o ex-governador se referia. Doria responde: “A você. Ao Maurício. Ao banco”. Em seguida, o banqueiro sugere que conversem por telefone. A ligação ocorre no minuto seguinte.
À reportagem Doria afirmou, por meio de sua assessoria, que a troca de mensagens ocorreu em maio de 2025, antes de qualquer investigação formal contra o banqueiro.
“A mensagem foi enviada em maio de 2025, quando ainda não havia nenhum tema público de gravidade imputado ao Banco Master. Foi apenas um gesto cordial”, disse.
A troca de mensagens ocorreu em período anterior à abertura formal das frentes investigativas que mais tarde atingiriam o Banco Master. Naquele momento, ainda não havia inquérito público ou medidas judiciais contra a instituição ou contra Vorcaro, mas já circulavam questionamentos no mercado financeiro sobre a estrutura societária do banco e sua relação com o BRB (Banco de Brasília).
As investigações que culminaram na Operação Compliance Zero só seriam deflagradas meses depois, quando a Polícia Federal passou a apurar suspeitas de irregularidades e possível tentativa de interferência nas apurações.
“Maurício” citado por Doria na mensagem é Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e um dos personagens centrais na apuração sobre a estrutura acionária que envolveu o banco e o BRB.
Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, Quadrado não respondeu à reportagem até a publicação deste texto.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, uma auditoria instalada no BRB para apurar a operação envolvendo o Master coloca sob suspeita a atuação de antigos gestores do banco do Distrito Federal.
Vorcaro, Quadrado e João Carlos Mansur se tornaram acionistas do BRB por meio de fundos de investimento, enquanto a instituição do Distrito Federal aumentava seu capital, com ofertas de ações que levantaram R$ 1 bilhão em 2024.
Em conjunto, esses dois fatores levantam a desconfiança por parte dos investigadores de que a expansão do patrimônio do BRB via oferta de ações tinha como objetivo final ampliar a capacidade do banco de Brasília de fazer negócios com o Master.
Vorcaro já foi homenageado pelo Lide, grupo que promove encontros de empresários com autoridades no Brasil e no exterior fundado e presidido por Doria. Em meio ao escândalo do Master, em janeiro deste ano, o Grupo Lide chegou a esconder um vídeo do ex-banqueiro sendo premiado pela organização em 2024.
Vorcaro recebeu um prêmio na categoria Empreendedorismo, em cerimônia realizada em 9 de dezembro daquele ano. No entanto, em uma playlist reservada à premiação no YouTube, todos os homenageados apareciam com depoimentos individuais exceto Vorcaro. O vídeo voltou para a playlist após reportagem da Folha.