Entenda em 5 pontos por que a PF investiga relação entre Toffoli e Banco Master

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

PELOTAS, RS, E SÃO PAULO, SP(FOLHAPRESS) – A Polícia Federal apontou ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, a suspeição do ministro Dias Toffoli como relator das investigações sobre o Banco Master nesta quarta-feira (11).

O pedido é resultado de investigações da PF sobre as relações de Toffoli com o Banco Master, que encontraram menções ao ministro em conversas apreendidas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master. Em nota, o gabinete do magistrado afirmou que “o pedido de declaração de suspeição apresentado pela Polícia Federal trata de ilações”.

As autoridades também apuram transferências de dinheiro para Toffoli de uma empresa que foi sócia de um fundo ligado ao Master em um resort. Conforme revelou a colunista da Folha de S.Paulo Monica Bergamo, o ministro admitiu que recebeu o dinheiro.

O avanços das investigações aumenta a pressão sofrida por Toffoli desde o ano passado para deixar de ser relator do caso

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ENTENDA EM 5 PONTOS POR QUE A PF INVESTIGA RELAÇÃO ENTRE TOFFOLI E BANCO MASTER

QUAL É O PAPEL DE TOFFOLI NO CASO DO BANCO MASTER?

O ministro Dias Toffoli é relator do caso do Banco Master no STF. O banco teve sua liquidação decretada pelo Banco Central no dia 18 de novembro, depois que a PF prendeu seu controlador, Daniel Vorcaro, suspeito de tentar fugir do país. As investigações apontaram uma fraude bilionária no banco.

O caso chegou ao STF a pedido da defesa de Vorcaro, após um envelope com documentos de um negócio imobiliário relacionado ao deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro privilegiado, ter sido encontrado em uma busca e apreensão.

Toffoli acolheu o argumento e determinou que o inquérito tramitasse sob sua supervisão exclusiva.

As investigações da PF já apontaram possível envolvimento de políticos com foro especial no caso Master. O material reunido pela PF na primeira fase da operação contém referências a lideranças partidárias e altas autoridades, segundo relatos feitos à Folha de S.Paulo, sob anonimato, por investigadores do caso.

Essas pessoas afirmam à reportagem que foram feitos “vários achados” com menções a essas figuras do mundo político. Apurações sobre essas autoridades terão de correr no STF. Segundo investigadores, as apurações envolvendo políticos poderão ser desmembradas do caso original.

CRÍTICAS SOBRE A RELATORIA DO CASO

A atuação de Toffoli no caso virou alvo de críticas, inclusive de colegas de corte, após o ministro colocar, ainda em dezembro de 2025, sob sigilo elevado um pedido da defesa de Vorcaro para levar as investigações sobre o empresário ao STF. A justificativa do magistrado foi de que o segredo de Justiça seria necessário para evitar vazamentos, que seriam mais comuns na primeira instância.

Enquanto isso, avançavam apurações sobre conexões financeiras e pessoais que ligam familiares do ministro à rede de negócios associada a Vorcaro.

A crise escalou quando veio à tona a informação de que Toffoli havia viajado para fora do país no jato de um dos advogados envolvidos no caso Master no mesmo dia em que ele se tornou relator do caso. O ministro foi para Lima, no Peru, assistir à final da Taça Libertadores.

As críticas aumentaram quando Toffoli convocou uma acareação entre Vorcaro, do Master, Ailton de Aquino Santos, diretor do Banco Central, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. A decisão foi fortemente condenada por ter sido tomada antes que investigados e testemunhas prestassem depoimentos individuais. Posteriormente, o ministro recuou e deixou a decisão a critério da PF.

Em 29 de janeiro, Toffoli defendeu publicamente, pela primeira vez, sua atuação como relator do caso e disse que, ao final das investigações, decidiria se o caso iria ou não para a primeira instância.

“Encerradas as investigações, será possível examinar os casos para eventual remessa às instâncias ordinárias, sem a possibilidade de que se apontem nulidades em razão da não observância do foro por prerrogativa de função ou de violação da ampla defesa e do devido processo legal”, afirmou Toffoli, em nota que rememora toda a sua atuação no caso Master.

LIGAÇÕES DA FAMÍLIA TOFFOLI COM O BANCO MASTER

A situação de Toffoli ficou pior com a revelação de relações de negócios entre sua família e a teia do Master. Durante quatro anos (entre 2021 e 2025), como revelou a Folha de S.Paulo, os irmãos do ministro José Eugenio Dias Toffoli e José Carlos Dias Toffoli dividiram o controle do resort Tayayá, no Paraná, com o fundo de investimentos Arleen, da rede do Banco Master. O ministro Dias Toffoli confirmou que faz parte do quadro societário da empresa Maridt, que foi uma das donas do resort Tayayá, no Paraná.

O Arleen entrou na sociedade em 2021, comprando cotas de empresas que pertenciam aos irmãos e a um primo de Toffoli. O Arleen era de propriedade de outro fundo, o Leal, que, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Situado às margens da represa de Chavantes, no Paraná, o resort oferece piscinas aquecidas, passeios de caiaques, quadras de beach tenis e até cassino. Para se hospedar no local, na cidade de Ribeirão Claro, é preciso ser cotista ou procurar algum apartamento vago, com diária a partir de R$ 1.200.

A vida dos irmãos de Toffoli, no entanto, destoa do luxo do resort no Paraná. Eles moram em Marília, no interior de São Paulo, onde a casa de um deles é listada como sede da Maridt Participações, que era dona de 33% do Tayayá.

O RESORT E AS MENSAGENS DE CELULAR

Os negócios da família do ministro em Ribeirão Claro (PR) não se restringiram ao resort Tayayá. O ministro tem uma relação próxima com a cidade. Em 2017, ele recebeu da Câmara Municipal local o título de cidadão honorário, por ter ajudado na instalação do resort na cidade.

Dois anos depois, em 2019, ele usou jato da FAB para comparecer à inauguração do fórum eleitoral de Ribeirão Claro, que ganhou o nome de Luiz Toffoli, seu pai. Na época, hospedou-se no resort da família.

Ex-sócio do Tayayá, Mario Umberto Degani, primo do ministro e conhecido como Beto Degani, é proprietário de uma empresa de empreendimentos imobiliários aberta em 2022 chamada Praia de Cuca. Essa companhia é dona de uma área de aproximadamente sete alqueires com amplas residências de luxo para hospedagem, logo ao lado do resort.

Toffoli já foi visto utilizando helicóptero para frequentar o resort e utilizando barcos do empreendimento que não estão disponíveis para outros hóspedes.

Funcionários destacados para atender a ministros do Supremo estiveram por ao menos 150 dias na cidade para “prestar apoio em segurança e transporte para autoridade do Supremo Tribunal Federal”. O pagamento de diárias para esses agentes passou de R$ 454 mil desde dezembro de 2022.

A pressão sobre Toffoli, porém, escalou com a apreensão de mensagens no celular de Vorcaro. Os diálogos mencionam pagamentos à empresa Maridt, da qual Toffoli admitiu ser sócio junto a seus irmãos. A sede da empresa é onde mora José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro, em Marília (SP).

Embora o ministro afirme que os valores recebidos são lícitos e declarados, a PF aponta um conflito de interesses direto.

Relatórios entregues ao STF pela PF indicam que Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, discutiram pagamentos à Maridt até o ano passado.

Casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel chegou a ser detido pela PF. Ele funcionaria como uma espécie de gerente do caixa do cunhado, segundo as investigações.

Nas mensagens, Vorcaro e Zettel citam o nome de Toffoli e combinam as transferências, que seriam pagamentos pela compra de um resort que tinha a Maridt como sócia. Há menções a pagamentos recentes, feitos em 2025, ano em que o negócio foi concluído, segundo a Polícia Federal.

Há também mensagens entre Toffoli e Vorcaro, aponta o órgão. Os dois, segundo uma pessoa que teve acesso ao relatório, não tratam de negócios nem de recursos. Apenas combinam de se encontrar.

Há ainda referências a festas e confraternizações para as quais outras autoridades, que não são do STF, são convidadas.

Toffoli confirmou que integra o quadro societário da empresa Maridt, que foi uma das donas do resort Tayayá, no Paraná, até 21 de fevereiro de 2025, e que vendeu cotas do negócio ao fundo Arleen, que faz parte da teia do Master e tinha cerca de 16% do Tayayá .

Ele disse, no entanto, que jamais soube quem era o gestor do fundo Arleen e que “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro”.

O pedido de suspeição de Toffoli ocorreu após a PF encontrar menções a Toffoli em conversas apreendidas no celular de Vorcaro. A informação foi revelada pelo UOL e confirmada pela Folha de S.Paulo com uma autoridade que acompanha as investigações. Os investigadores pedem a abertura de novas apurações sobre o caso, incluindo menções ao ministro.

Em conversas reservadas com pessoas próximas, Toffoli vem afirmando que não mantinha contato com o ex-banqueiro, mas que haveria mensagens nas quais Vorcaro mencionaria seu nome.

Em comunicado, a defesa de Vorcaro afirmou ter “preocupação com o vazamento seletivo de informações, que acaba por gerar constrangimentos indevidos, favorecer ilações e a construção de narrativas equivocadas, além de prejudicar o pleno exercício do direito de defesa”.

Toffoli vem reafirmando que não vê razões para sair da relatoria do caso desde as primeiras críticas sobre sua atuação, ainda em 2025.

O Código de Processo Penal prevê que um juiz está impedido de atuar nas ações em que seu cônjuge ou parente tenha participado; em que ele próprio tenha atuado no passado (como advogado ou juiz de instância inferior); ou em que ele ou seus familiares forem “diretamente interessados”.

Já a suspeição tem caráter subjetivo e diz respeito a situações, por exemplo, em que o ministro é amigo íntimo das partes ou dos advogados, recebe presentes de pessoas interessadas na causa ou aconselha as partes. Se houver motivo de foro íntimo, ele não é obrigado a detalhá-lo.

Se Toffoli se declarasse suspeito ou impedido, todas as decisões assinadas até aqui poderiam ser automaticamente anuladas, e a investigação voltaria à estaca zero.

OS PAGAMENTOS A TOFFOLI —QUE ELE ADMITE

Nesta quarta-feira (11), a colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo revelou que o ministro admitiu ter recebido dinheiro da Maridt Participações. Ele d isse que a transferência ocorreu na época em que a participação da empresa no resort Tayayá foi vendida para o fundo da teia de Vorcaro. Ele era sócio da firma junto a outros familiares.

A explicação foi dada por ele a interlocutores depois que a PF passou a apurar a transferência de recursos para o magistrado. É a primeira vez que o magistrado detalha seu envolvimento com o resort e a companhia dos irmãos.

De acordo com a explicação dada por Toffoli, ele é sócio há vários anos da Maridt, que seria uma típica empresa familiar. Seu nome não aparece nos documentos públicos da empresa, no entanto, porque ela é uma Sociedade Anônima de livro —em que o nome dos acionistas não é acessível a terceiros, como nas companhias abertas.

Por isso apenas os nomes de dois de seus irmãos são públicos, por serem eles os administradores da empresa. De acordo ainda com Toffoli, todas as transferências de recursos, feitas ao longo de diversos anos, foram lícitas e declaradas à Receita Federal, tendo origem e destino rastreáveis.

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