[SÉRIE Vozes da Economia] Cassio Besarria: "O BC tenta apagar o fogo e o governo tenta acender"
Besarria: com desigualdade, economia aquecida não é acompanhada por desenvolvimento
(Divulgação)
Para professor e economista, Brasil não escapa de uma gangorra que impede ou limita o desenvolvimento. "Investidor quer estabilidade"
Medir a saúde da economia apenas pelo PIB (que cresce pouco) exclui, por exemplo, o fator desigualdade. Além de gargalos logísticos
Por Vitor NuzziCompartilhe:
[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS] Produção sem produtividade. Aquecimento do consumo e da inadimplência. Para Cassio Besarria, autor do livro Economia em Lições do Dia a Dia, a aparentemente eterna gangorra da economia brasileira faz com que o chamado “país do futuro” não avance como deveria. São gargalos de infraestrutura, deficiência educacional, medidas públicas que vão em sentidos opostos. O economista dá como exemplo a contradição entre as atuais políticas monetária e fiscal: “O Banco Central tenta apagar o fogo, e o governo tenta acender”.
Como parte do Série Vozes da Economia, o pesquisador destrincha a situação do Brasil sob a ótica das contas públicas, do PIB brasileiro e dos paradoxos para um crescimento sempre prometido, mas nunca sustentado. “Temos também desafios macroeconômicos. Se olharmos os últimos dez, 15 anos, vivemos numa gangorra. E investidor gosta de estabilidade.” É um desafios brasileiros: crescer de forma equilibrada e sem tantos solavancos na economia.
Besarria atualmente é professor adjunto da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordena o Laboratório de Inteligência Artificial e Macroeconomia Computacional (Labimec) da instituição. Também é presidente da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec) e integra o time de especialistas do Ibre.
AGÊNCIA DC NEWS – O PIB cresceu 3,4% em 2024 e deve fechar em torno de 2% e 2025. Os dados refletem o desempenho da nossa economia? CASSIO BESARRIA – Olhar apenas para o PIB omite aspectos importantes. A gente está olhando atividade aquecida, mas isso não é acompanhado por desenvolvimento econômico, principalmente quando temos um país com grande desigualdade de renda. O PIB não capta isso. Mas tivemos algum progresso nesse sentido.
AGÊNCIA DC NEWS – Em que sentido? CASSIO BESARRIA – O índice Gini divulgado pelo Ipea é de 0,50, em 2024. Em 1991, estávamos 0,61. [Quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade.] Mas o PIB também não mede a informalidade no trabalho. Isso é um fato em certa medida preocupante. São pessoas na idade ativa, que estão na informalidade e não têm direitos sociais.
AGÊNCIA DC NEWS – O país também não vai crescer muito… CASSIO BESARRIA – A expectativa para 2025, entre 2% e 2,5%, ainda mostra um crescimento pequeno. Não é apenas o Brasil. Os países da América Latina, em certa medida, são caracterizados por instabilidades. Mas o principal mecanismo de desigualdade social de um país é a inflação. Em um país em que 70% da população ganha até dois salários mínimos, a inflação tem efeito muito maior sobre essas famílias.
Ano
PIB (%)
IPCA (%)
1994
–
18,57
1995
–
22,41
1996
–
9,56
1997
–
5,22
1998
–
1,65
1999
–
8,94
2000
+4,4
5,97
2001
+1,4
7,67
2002
+3,1
12,53
2003
+1,1
9,30
2004
+5,8
7,60
2005
+3,2
5,69
2006
+4,0
3,14
2007
+6,1
4,46
2008
+5,1
5,90
2009
-0,1
4,31
2010
+7,5
5,91
2011
+4,0
6,50
2012
+1,9
5,84
2013
+3,0
5,91
2014
+0,5
6,41
2015
-3,5
10,67
2016
-3,3
6,29
2017
+1,3
2,95
2018
+1,8
3,75
2019
+1,2
4,31
2020
-3,3
4,52
2021
+4,8
10,06
2022
+3,0
5,79
2023
+3,2
4,62
2024
+3,4
4,83
2025
+2,0*
4,26
Fonte: IBGE (*Estimativa)
AGÊNCIA DC NEWS – Nós passamos praticamente cinco décadas com índices de dois dígitos por mês. A partir do Plano Real, só houve inflação anual de dois dígitos em 1994, 1995, 2002, 2015 e 2021. Nos últimos quatro anos, ficou relativamente comportada, embora perto ou acima do teto. A inflação é um perigo controlado? CASSIO BESARRIA – Historicamente, o Brasil passou por cenários inflacionários desafiadores. [De janeiro a junho de 1994, no período imediatamente anterior ao Plano Real, o IPCA superou os 40%/mês.] A implantação do regime de metas de inflação, associada ao câmbio flutuante e à taxa Selic como principal instrumento de política monetária, marcou uma mudança institucional importante, conferindo maior previsibilidade à condução da política econômica e contribuindo para a estabilização dos preços. Esse arcabouço permitiu ancorar as expectativas inflacionárias, reduzir a volatilidade macroeconômica e criar condições mais favoráveis ao crescimento econômico de longo prazo, ainda que não tenha eliminado os desafios impostos por choques externos, pressões fiscais e rigidez estrutural da economia brasileira.
AGÊNCIA DC NEWS – Mas, agora, segue acima do centro da meta. CASSIO BESARRIA – Nesse sentido, apesar de verificar que a inflação não alcançou a meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o desempenho é mais estável que aquele verificado antes do Plano Real. Aí o remédio amargo para fazer a inflação convergir para a meta são as taxas de juros. A dose foi pesada. Saltamos de 2%, em 2020, para 15%.
AGÊNCIA DC NEWS – E vai cair? CASSIO BESARRIA – A perspectiva é de que a inflação continue convergindo para a meta. Nesse caso, é esperado que a Selic comece um novo ciclo [de cortes]. O Banco Central é sempre mais resistente a mudar sua postura do que nós, economistas.
AGÊNCIA DC NEWS – Voltando ao PIB, se considerarmos o período de 2000 para cá, temos uma média de 2,4%/ano. Não é pouco para um crescimento sustentável? CASSIO BESARRIA – Ao analisar os dados de crescimento real do PIB brasileiro, divulgados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), entre 2014 e 2024, fica claro que o Brasil cresceu pouco ao longo desse período. Em média, o crescimento foi de cerca de 1% ao ano. Esse resultado é bem inferior ao observado em outras economias: enquanto os países emergentes cresceram, em média, 4,1% ao ano, as economias avançadas registraram crescimento de 2%, e a economia mundial cresceu 3,2%.
AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil fica abaixo, então? CASSIO BESARRIA – Outro ponto que chama a atenção é que, praticamente durante todo o período analisado, o crescimento do Brasil ficou abaixo tanto da média das economias emergentes quanto da média mundial. A única exceção foi o ano de 2024, quando o Brasil cresceu 3,4%, superando levemente o crescimento da economia global, que foi de 3,3%.
AGÊNCIA DC NEWS – Além disso, a taxa de investimento está aquém do que é considerado ideal. CASSIO BESARRIA – Do ponto de vista do investimento, esse talvez seja um dos grandes entraves para micro e pequenos empresários. Aqui no meu estado, por exemplo, temos 90% que se enquadram nessa categoria. E quem tem mais dificuldade é justamente esse empresário.
AGÊNCIA DC NEWS – Quem cresce e quem fica para trás? CASSIO BESARRIA – Em 2025, a expectativa é que o crescimento seja puxado pelo agronegócio e pela indústria. É um cenário diferente de 2024, quando os serviços cresceram 3,7% e a indústria, 3,3%, enquanto a agropecuária caiu 3,2%. Não tem como considerar um crescimento homogêneo. O setor de serviços tem maior absorção de mão de obra. Aí você tem o agronegócio mais ligado a tecnologias. Existem fatores que não estão sob nosso controle, como as condições climáticas.
AGÊNCIA DC NEWS – E a infraestrutura? CASSIO BESARRIA – O Brasil é sempre o país visto com grande expectativa, mas existem alguns fatores que a gente chama de Custo Brasil. São aqueles gargalos que aumentam o custo dos produtos e diminuem a competitividade. Se você vai atrás de um caminhão numa BR, vê o quanto se perde – seja por buracos ou pela condição do veículo. Temos infraestrutura inadequada, obras inacabadas, desperdícios.
AGÊNCIA DC NEWS – Não falta investimento? CASSIO BESARRIA – O custo do investimento no Brasil ainda é alto. É um país entre as três maiores taxas reais de juros. A gente tem problema de qualificação – não adianta fazer um empreendimento e não ter mão de obra adequada. E temos também os desafios macroeconômicos. Se a gente olhar os últimos dez, 15 anos, vivemos numa gangorra. Investidor gosta de estabilidade. Somos um país com incerteza alta. Juros, condições de crédito que são diferenciadas. Obviamente, a gente avançou em alguns requisitos. Por exemplo, o tempo de abertura de uma empresa.
AGÊNCIA DC NEWS – Na primeira reunião do Copom em 2026, como previsto, os juros foram mantidos. Existe espaço real para quedas que mudem significativamente o ciclo de investimento e crédito? CASSIO BESARRIA – É um país de contrários.
AGÊNCIA DC NEWS – Em que sentido? CASSIO BESARRIA – A gente tem uma taxa de juros de 15%, mas por outro lado tem um governo criando taxa de crédito consignado. Por um lado, você tem um Banco Central querendo apagar o fogo, e por outro tem um governo querendo acender o fogo. Temos que decidir se queremos famílias consumindo mais e aumentando a inadimplência, porque aí vem a piora nos indicadores de inadimplência, renegociação de dívidas… Se não, a gente vai viver sempre nessa gangorra. Esse cenário é ruim.
AGÊNCIA DC NEWS – O que deve ser feito? CASSIO BESARRIA – O processo de educação financeira acaba sendo algo relevante neste aspecto. É como o motorista que comete uma infração de trânsito: por que não fazer as mesmas coisas com as pessoas que não fazem bom uso do crédito? Esse crédito precisa vir junto com políticas de qualificação, para que elas consigam entender quanto estão pagando por aqueles produtos. [Segundo o Serasa, havia 81,2 milhões de inadimplentes no Brasil em dezembro, ante 73,5 milhões em igual mês de 2024. Pesquisa da CNC aponta nível de endividamento de 78,9% em dezembro, o maior da série histórica.] O empresário que quer programar sua produção para o ano seguinte vê essa inadimplência e pensa duas vezes.
AGÊNCIA DC NEWS – O mercado de trabalho, que em boa medida sustentou a renda e o consumo, deve se manter aquecido? CASSIO BESARRIA – Se a gente faz um recorte dos últimos dez anos, o ápice do desemprego foi em 2021, dentro do cenário de pandemia, quando atingiu 14% [taxa média anual]. De lá para cá, só cai [5,6% em 2025]. A tendência de fato tem sido de queda, o que é um cenário bom. É positivo sob o aspecto do bem-estar social. Mas, obviamente, a gente tem que olhar os setores que estão absorvendo, qual sensibilidade que eles têm a um ciclo negativo. Serviço é um setor que emprega muito e desemprega muito. Quem é que absorve essa mão de obra? A construção civil, que é muito dependente de políticas governamentais.
AGÊNCIA DC NEWS – Estamos em ano eleitoral, que costuma ter mais gasto público. E o esperado ajuste? CASSIO BESARRIA – No governo Temer, foi aprovada a regra do teto dos gastos públicos. Talvez não tenha sido a mais adequada, mas foi necessário para conter os gastos. Voltamos à nossa conversa inicial, de haver previsibilidade. As contas melhoraram, ou pelo menos não se deterioraram tanto. A gente vê uma dívida bruta m torno de 79%, beirando valores do tempo da pandemia. Por que o crescimento da dívida importa? Quanto maior o gasto público, mais juros serão pagos. O governo vai se financiar tributando mais a sociedade ou emitindo títulos, que estão indexados à taxa de juros. Existe uma literatura dos ciclos políticos – em ano eleitoral, o governo gasta mais e depois vem o arrocho.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o Brasil se saiu no tarifaço? CASSIO BESARRIA – Primeiro, tivemos um cenário político e econômico surpreendente. Falamos de uma economia [Estados Unidos] que defende a competividade entre os países e que passa a tarifar a produção de outros países. Acredito que o Brasil tomou uma postura correta, da diplomacia, e acabou saindo em certa medida vitorioso. Além disso, o Brasil aumentou o número de parceiros comerciais. É provável que a dependência dos Estados Unidos venha a diminuir. A gente tem a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, e é provável que o Brasil seja um dos beneficiados na exportação de produtos ligados ao agronegócio. Ninguém falou sobre as barreiras não tarifárias, e o Brasil é um dos países que mais impõem. É o ISO, é a origem do produto. São barreiras técnicas que impedem a importação de determinados produtos. A gente acaba fechando a economia e diminuindo a produtividade.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o nosso principal entrave? CASSIO BESARRIA – É difícil apontar um único fator. Quando a gente olha para a concessão de crédito, seria a taxa de juros. Há a questão da incerteza econômica: os investidores ficam mais retraídos, os consumidores também.
AGÊNCIA DC NEWS – A desigualdade está no meio do caminho? CASSIO BESARRIA – A gente tem ainda desafios a superar. Um deles – eu volto a insistir – são as desigualdades. E aí não estou falando só de renda. Escolar, por exemplo. Temos uma criança no oitavo ano que é equiparável a uma que está no segundo, em termos de leitura, escrita, dificuldade de entendimento. Se a gente tem mão de obra mal formada, isso influencia no produto que nós vamos entregar no futuro. Se a gente quiser uma economia mais aberta ao mundo, precisamos aumentar nossa produtividade. Se a economia não é produtiva, esse processo de abertura pode ser muito traumático.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais são os desafios? CASSIO BESARRIA – Nós deveríamos nos esforçar para buscar a estabilidade. A minha defesa vem de regras. Do ponto de vista fiscal, uma regra mais clara seria mais importante. Outro ponto é a questão climática e seus efeitos econômicos. Além disso, a informalidade afeta contas públicas, as condições de bem-estar futuro. É bem provável que passemos por outra reforma previdenciária. E um dos fatores que ajuda nisso é o processo de formalização.
AGÊNCIA DC NEWS – E a velha discussão sobre qual deveria ser o tamanho do Estado? CASSIO BESARRIA – Esse é o ponto. Às vezes, o Estado acaba crescendo muito, e a gente sabe que o setor público é mais volátil que o setor privado. Acho que essa participação deveria ser mais estratégica. Não adianta o Estado querer estar em todos os setores. .