SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, irmão mais novo do rei Charles 3º, foi preso nesta quinta-feira (19) sob suspeita de má conduta em cargo público devido aos seus vínculos com Jeffrey Epstein. O episódio representa o maior desdobramento até hoje do caso Epstein envolvendo uma figura pública.
A informação foi divulgada inicialmente pela imprensa britânica. Horas depois, o Palácio de Buckingham confirmou a prisão. “Tomei conhecimento, com a mais profunda preocupação, das notícias sobre Andrew Mountbatten-Windsor e das suspeitas de má conduta em cargo público”, afirmou o rei, em nota.
O monarca disse ainda que as acusações contra seu irmão serão investigadas “de maneira apropriada”. “As autoridades têm nosso apoio e cooperação plenos e incondicionais. Permitam-me afirmar com clareza: a lei deve seguir seu curso”, acrescentou.
A prisão ocorre no mesmo dia em que o ex-duque de York completa 66 anos. Andrew foi interrogado pelas autoridades, que realizaram uma operação de busca e apreensão.
A polícia britânica já havia anunciado no início deste mês que analisava denúncias de que Andrew teria repassado informações confidenciais do governo a Epstein, de acordo com os novos documentos publicados pelo Departamento de Estado dos EUA.
Segundo a imprensa inglesa, carros de polícia sem identificação e cerca de oito agentes à paisana foram até a casa de campo em Sandringham, a propriedade do rei em Norfolk, no leste da Inglaterra, onde Andrew vive.
Ele se mudou para o local no início deste mês, após deixar sua mansão na propriedade da família real em Windsor, onde viveu por anos. A troca de residência ocorreu logo após novas revelações sobre seus vínculos com Epstein nos arquivos divulgados pelo governo dos Estados Unidos.
Em fotos incluídas no último lote de documentos sobre o caso, o ex-duque de York aparecia ajoelhado sobre uma mulher deitada no chão. Em duas delas ele parece estar tocando na barriga dela. Outra imagem o mostra olhando diretamente para a câmera.
A nova leva de arquivos trouxe novamente o foco para Andrew e representou mais um capítulo na crise envolvendo a família real britânica. O filho da rainha Elizabeth 2ª foi destituído de todos os títulos reais no ano passado, devido aos laços com Epstein.
Na prática, portanto, Andrew já não é mais um membro da realeza, mas permanece na linha de sucessão ao trono, ocupando a oitava posição. Ele sempre negou qualquer irregularidade em relação a Epstein e já disse que se arrepende da amizade entre eles.
É a primeira vez em quase 400 anos que um membro direto da família real britânica é preso. O caso mais recente ocorreu em 1647, quando o rei Charles 1º foi detido durante a Guerra Civil Inglesa por forças alinhadas ao Parlamento. Ele foi posteriormente julgado por alta traição e acabou executado em 1649.
Desde então, nenhum outro caso semelhante havia sido registrado.
Em 2010, Andrew teria encaminhado relatórios governamentais de visitas que realizou ao Vietnã, Singapura e China para Epstein. Os documentos também parecem revelar que o atual ex-príncipe enviou ao financista informações sobre oportunidades de investimento em ouro e urânio no Afeganistão.
Andrew atuou como enviado comercial do Reino Unido de 2001 a 2011. Segundo as diretrizes, os ocupantes do cargo têm o dever de manter sigilo sobre informações sensíveis, comerciais ou políticas relacionadas às suas visitas oficiais.
Uma condenação por má conduta em cargo público prevê pena máxima de prisão perpétua e deve ser julgada em um Crown Court, um tribunal de primeira instância que analisa infrações criminais mais graves.
O Departamento de Justiça dos EUA também publicou emails separados que sugerem que Epstein convidou Andrew para jantar com uma mulher russa de 26 anos. As mensagens foram trocadas em agosto de 2010, dois anos depois de Epstein se declarar culpado de aliciar uma menor de idade.
Após a liberação dos materiais, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, disse que o ex-príncipe deveria testemunhar perante um comitê do Congresso dos EUA para explicar tudo o que sabe sobre Epstein reforçando o pedido que legisladores americanos haviam refeito a Andrew em novembro.
Mais cedo nesta quinta, antes de a prisão ser anunciada, o premiê disse em entrevista à emissora BBC que “ninguém está acima da lei”, ao ser questionado sobre o ex-príncipe.
A relação de Andrew com o bilionário americano foi primeiramente denunciada pela australiana-americana Virginia Giuffre, que acusou o então príncipe de ter abusado sexualmente dela e contratado serviços da rede de exploração sexual do americano.
Ela ingressou com um processo judicial contra Andrew em um tribunal de Nova York em 2021. Giuffre o acusou de ter cometido abuso sexual em três ocasiões, quando ela tinha 17 anos. Os episódios teriam ocorrido com a ajuda de Epstein.
Andrew chegou a pagar uma quantia milionária, não divulgada publicamente, em 2022 para encerrar a ação judicial estima-se que teria sido superior a £ 9 milhões (cerca de R$ 63 milhões na cotação atual). O ex-príncipe afirma que nunca a conheceu e nega as acusações apesar disso, uma foto que circulou amplamente na imprensa mostra os dois juntos ao lado de Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein e acusada de coordenar a rede de tráfico sexual do financista.
Giuffre se suicidou em abril do ano passado, aos 41 anos. Em um pronunciamento nesta quinta, a família dela afirmou em nota que a prisão de Andrew mostra que “ninguém está acima da lei”. Epstein se suicidou em uma prisão nos Estados Unidos em 2019 quando aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual.