Falta de energia em Cuba coroa crise generalizada sob ameaça de Trump

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Não sou idealista, sei que vamos viver tempos difíceis, mas vamos superá-los juntos, com resistência criativa e com o esforço e o talento de todos”, afirmou o líder de Cuba, Miguel Díaz-Canel, na última quinta-feira (5), em uma entrevista coletiva televisionada.

O chamado a sacrifícios não chegou a toda a população, em grande parte sem eletricidade para assistir ao primeiro pronunciamento do político desde a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, no início de janeiro –episódio que abalou a ilha, altamente dependente do petróleo venezuelano.

Os fluxos são pouco transparentes, mas estima-se que Cuba produza menos da metade do petróleo de que necessita, ficando o restante por conta de aliados. Até o começo do ano, a Venezuela era o principal, seguida de México e Rússia, mesmo após uma queda nos envios em 2023.

Mas sem Caracas, que está impedida pelos EUA de comercializar com Cuba após a intervenção, a ilha é palco de apagões que chegam a 20 horas diárias em algumas regiões e filas de horas para comprar combustível. A crise se dá em um contexto que já era de escassez generalizada de remédios, instabilidade econômica e êxodo massivo.

Os “tempos difíceis” por vir ficaram mais claros na sexta-feira (6), quando o vice-primeiro-ministro cubano, Oscar Pérez-Oliva Fraga, anunciou em um programa de televisão um plano emergencial que entrará em vigor na próxima segunda (9) para “garantir a vitalidade” do país.

Entre as medidas estão restrições à venda de combustíveis, redução de viagens de ônibus e trem, fechamento de hotéis e cortes na carga horária escolar. “O combustível está sendo destinado à proteção de serviços essenciais para a população e a atividades econômicas indispensáveis”, afirmou o político.

A situação energética precária coroa as múltiplas crises que Cuba enfrenta com mais intensidade pelo menos desde a pandemia de Covid-19 –agora, com a volta das ameaças de Donald Trump, que não poupou a ilha em seu primeiro mandato.

Dias após a queda de Maduro, o presidente americano ameaçou o regime ao sugerir a adoção de um acordo “antes que seja tarde demais”. Já na última quinta, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a ditadura “está em seus últimos suspiros e prestes a cair”.

Declarações como essas não são exatamente novas. A ilha já resistiu a inúmeras tentativas de intervenção, e profecias de que o regime está com os dias contados ocorrem desde 1959, quando a Revolução Cubana derrubou o ditador Fulgencio Batista.

Um dos momentos de maior instabilidade foi a Crise dos Mísseis, quando a instalação de armas nucleares soviéticas no território, a cerca de 150 km dos EUA, deixou o mundo à beira de um conflito nuclear em 1962. Houve também o chamado Período Especial, quando o colapso da aliada União Soviética, nos anos de 1990, levou a uma grave escassez de recursos por mais de uma década.

No entanto, a ideia de que Cuba nunca esteve em uma situação tão grave encontra eco até mesmo entre especialistas. “Eu diria que é o momento mais crítico da história do país desde 1959”, afirma o cubano-americano Arturo Lopez-Levy, professor de relações internacionais e política na Holy Names University.

Para ele, não há paralelo com o Período Especial, quando a possibilidade de se abrir parcialmente ao mercado capitalista global era um horizonte possível para o regime –que, além disso, tinha créditos com a população devido às melhorias sociais conquistadas nas décadas anteriores.

“Agora, tudo isso se foi”, diz Levy. “Esta é uma crise que vem depois de um longo período de crises anteriores. Devemos lembrar que o período após a queda do bloco socialista já representa mais da metade da história da Revolução, e que, desde então, não houve uma única década completa de estabilidade.”

Após a intervenção americana na Venezuela, o México ganhou destaque entre os países exportadores de petróleo a Cuba, mas essa condição também está em xeque.

Na última segunda (2) Trump afirmou a jornalistas, sem dar detalhes, que o vizinho do sul deixaria de enviar petróleo para a ilha. De acordo com a agência de notícias Reuters, autoridades mexicanas estão avaliando como enviar combustível para Cuba para ajudar a suprir necessidades básicas como eletricidade e transporte sem represálias de Washington.

É difícil prever o que aconteceria com uma queda ainda maior nas importações, já que nem mesmo os que estão em regiões menos afetadas pelos apagões passam ilesos à crise. É o caso do padeiro Yoel Cruz, 45, que falou com a Folha por áudios em um aplicativo de mensagens devido à instabilidade da conexão.

Desempregado há anos –situação que ele atribui à sua postura combativa ao regime–, o morador do bairro de Lawton, em Havana, tenta dar aulas de panificação a domicílio para se sustentar. No entanto, nem isso está sendo possível nos últimos meses, ele conta.

“Como nunca há eletricidade e os ingredientes são muito caros, é um risco. Meus clientes estão preferindo cancelar as aulas. Isso me afeta muito”, afirma ele, que diz ter sido preso em 2022 por participar de protestos contra um apagão por uma falha no sistema geral do país.

Hoje, Cruz mora sozinho e não tem familiares próximos em Cuba –sua filha e sua neta estão nos EUA, assim como grande parte das centenas de milhares de seus conterrâneos que migraram nos últimos anos. “Estou totalmente sozinho, com exceção da comunicação diária que mantenho com a minha filha. É isso que me incentiva a continuar lutando”, diz ele.

Apesar da situação delicada, decretar o fim do regime antecipadamente desconsidera a resiliência da revolução, segundo Levy . “Os desafios são enormes, gigantescos; a situação econômica é extremamente difícil, mas o governo sempre demonstrou grande capacidade de gerir a escassez e os problemas em prol da narrativa patriótica, que lhe confere uma base que historicamente se mostrou disposta a fazer grandes sacrifícios”, afirma o pesquisador.

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