[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Em um setor marcado por alta rotatividade de funcionários, digitalização acelerada do balcão e maior pressão da indústria por dados de vendas, a Federação do Comércio Farmacêutico (Fecofar) lançou a Universidade Fecofar para formar e qualificar a mão de obra do setor. A federação reúne sete redes de farmácias com cerca de 3 mil lojas e faturamento de R$ 6 bilhões.
Em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS, o diretor-executivo da entidade, Willian Robles, afirmou que a criação da universidade surge em meio a um dos principais desafios do varejo farmacêutico: a formação e retenção de profissionais nas farmácias. A Universidade Fecofar é uma plataforma de cursos voltada a qualificar profissionais das redes associadas e aproximar o varejo das transformações tecnológicas e comerciais do mercado farmacêutico.
O setor vive um ciclo de expansão no país. O varejo farmacêutico brasileiro movimentou R$ 246 bilhões em 2025, avanço de 11,3% em relação a 2024, em um universo de cerca de 125 mil lojas e mais de 250 mil empregos diretos. Mas a rotatividade nas equipes de loja segue elevada. Segundo estimativas da federação, o turnover anual nas farmácias varia entre 30% e 40%, o que significa que uma parcela relevante das equipes é renovada a cada ano.
Para Robles, a capacitação profissional passou a ser uma das principais ferramentas para reduzir essa rotatividade, elevar o nível de atendimento nas lojas e preparar os profissionais para um varejo cada vez mais digital e integrado a diferentes canais de venda. “Reter talentos, capacitá-los e preparar pessoas vai ser a chave de sucesso para qualquer um”, disse.
A federação aposta na universidade como ferramenta para elevar o nível de qualificação da base do setor e preparar as equipes para mudanças no modelo de operação das farmácias. “O objetivo é levar conhecimento para todos, desde o balconista até ao dono da farmácia”, afirmou. Em funcionamento desde o segundo semestre do ano passado, a meta é somar 2 mil alunos ainda em 2026. Confira a entrevista.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o objetivo da Universidade Fecofar?
WILLIANS ROBLES – A universidade entrega cursos de pós– graduação e MBA, com subsídio de 50% da mensalidade, para que os farmacêuticos possam ter acesso a essa capacitação. Também temos os chamados cursos livres, disponibilizados pelos parceiros da indústria, em que levamos informações sobre produtos, precificação e outros detalhes operacionais.
Willian Robles, Fecofar
AGÊNCIA DC NEWS – Foca, então, tanto em quem já é graduado quanto os que não são.
WILLIANS ROBLES – Sim, abrangemos dois públicos: quem hoje tem a sua graduação, vai andar para o lado da pós-graduação, MBA, reconhecido pelo MEC. Quem não tem, pode acessar os cursos livres, nos quais disponibilizamos os conteúdos em parcerias com as indústrias. Dessa forma vamos levar para esse público conhecimento que a indústria hoje não consegue levar.
AGÊNCIA DC NEWS – São cursos regulares, quanto tempo duram?
WILLIANS ROBLES – Para o curso de pós-graduação, MBA, de seis meses até 18 meses, que é a exigência do MEC. Nos cursos livres, bastam 40, 50 minutos de atenção num vídeo ou PowerPoint. No final, o aluno vai responder a um questionário para ver se de fato absorveu o conteúdo. Os cursos livres, vou chamar assim, usam uma linguagem mais simples – é um tiro rápido. Já nos cursos de pós-graduação é necessário cumprir a grade curricular do MEC.
AGÊNCIA DC NEWS – Nesses primeiros meses desde a criação da universidade, quais objetivos já foram alcançados?
WILLIANS ROBLES – Nós já batemos mais de 1 mil inscritos [exatamente 1.056] na universidade. Para nós, é um número muito expressivo em tão pouco tempo. Agora temos como objetivo, em 2026, superar os 2 mil alunos na plataforma.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual o alcance da Fecofar para atingir esse objetivo?
WILLIANS ROBLES – Hoje temos algo em torno de 16 mil pessoas trabalhando em nossas 3 mil lojas. Nosso objetivo, claro, é alcançar a todos. Não queremos deixar ninguém de fora do ensino, do conhecimento. Mas a gente sabe que é um trabalho muito árduo e contínuo.
AGÊNCIA DC NEWS – E qual é o perfil desse aluno?
WILLIANS ROBLES – São sempre funcionários e ligados às farmácias associadas à Fecofar. Não tem pessoal de fora. Nesse momento, ainda não. O nosso foco é desenvolver os 16 mil profissionais que trabalham dentro das lojas que nós temos hoje nas sete redes federadas. Farmacêuticos, balconistas, perfumistas, operadores de caixa ou até mesmo o dono da farmácia. Esse é o nosso público a ser desenvolvido.
AGÊNCIA DC NEWS – Em termos de digitalização, competitividade e dados, qual é a lição?
WILLIANS ROBLES – A grande lição que fica de tudo isso, desse grande movimento, é levar dados para a indústria, para que ela tenha o conhecimento desses profissionais, pois no final do dia quem entrega a caixinha na mão do consumidor final são eles e essa conexão da indústria com o varejo é muito distante.
AGÊNCIA DC NEWS – Uma ponte entre indústria e o profissional da ponta, então?
WILLIANS ROBLES – Quem está trabalhando em cidades remotas ou mais distantes das metrópoles, não vai ter a visita de alguém da indústria. Pela plataforma [de ensino] esse funcionário passa a ter o contato com a indústria. Entendemos que uma plataforma robusta com tecnologia, informação e conhecimento, vai ligar a indústria ao varejo.
AGÊNCIA DC NEWS – E quanto ao preparo das equipes para o atendimento humanizado?
WILLIANS ROBLES – Um dos cursos que desenvolvemos foi o de atendimento para balconista, um curso de capacitação. Um perfumista ou um operador de caixa que iniciou a carreira dentro da farmácia, gostou, mas às vezes não têm condições de fazer a faculdade de farmácia, pode fazer o treinamento e se qualificar. Nosso treinamento fala de postura, como abordar, como fazer um pós-venda, entre outros temas.
AGÊNCIA DC NEWS – Entre os temas fala-se muito da omnicanalidade. Como ela está no varejo farmacêutico?
WILLIANS ROBLES – Hoje é essencial. Antigamente, você ficava atrás do balcão esperando o cliente entrar e o atendia. Esse ainda é um mecanismo muito usual, mas a tecnologia está aí. A Fecofar traz parcerias como o iFood, o Farmácias App, que são canais digitais. Nossas vendas também estão já muito qualificadas nesse sentido.
AGÊNCIA DC NEWS – O que também exige preparo dos profissionais do setor.
WILLIANS ROBLES – Precisa de uma preparação para isso, de um atendente preparado para trabalhar o omnicanal. As nossas farmácias precisam se qualificar para isso. Esse tema passa primeiro pelo dono, antes do atendente. E ainda existe, por incrível que pareça, donos de farmácia que resistem a isso. É um tema que a gente aborda bastante.