Fundo ligado a Vorcaro alterou regra de resgate na véspera de sua prisão

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O fundo Termópilas, principal acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, uma empresa com capital de R$ 2,6 bilhões ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, realizou uma assembleia um dia antes da prisão do dono do Master para tratar de temas ligados a retirada de recursos.

A assembleia aconteceu no dia 16 de novembro, um domingo, às 15h, e de forma remota. Não é possível saber, no entanto, se houve algum tipo de resgate de recursos do fundo.

Na noite do dia seguinte, em uma sequência de acontecimentos, surgiram as notícias de que a Fictor tinha feito proposta para comprar o Master, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e, em seguida, o Banco Central decidiu liquidar a instituição. O banqueiro foi solto 12 dias depois.

De acordo com a ata desta assembleia, arquivada no site da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), foi “dispensada a convocação em virtude da presença da totalidade dos cotistas do fundo”, ou seja, a reunião não foi marcada com antecedência.

Informações da CVM mostram que o Termópilas é controlado por um outro fundo de investimentos, que é seu único cotista. Não é possível saber quem é o beneficiário final.

A lista de deliberações descritas na ata da assembleia informa que, na reunião, se “aprovou ajuste nas matérias de competência da assembleia especial no que se refere a amortização ou resgate total, bem como quórum de aprovação”.

Na ocasião, houve uma reformulação no regulamento do fundo, adicionando detalhes sobre a amortização, que é um processo de pagamento de cotistas.

No entanto, não é possível verificar se houve algum movimento de resgate total e amortização nesse período, pois as demonstrações financeiras do Termópilas não foram atualizadas no site da CVM.

Os dados mais recentes disponíveis no site da CVM, de setembro de 2025, apontam um patrimônio líquido em torno de R$ 934 milhões no Termópilas.

Segundo informações recebidas pela CVM em abril de 2025, o Termópilas faz parte da carteira de um fundo chamado Astralo 95, com patrimônio líquido de R$ 15 bilhões naquela data. Os dados do Astralo 95 foram atualizados nesta sexta-feira (9), mostrando um patrimônio líquido de R$ 27 bilhões referente a dezembro de 2025, porém, por solicitação do administrador do fundo, a identificação dos ativos foi omitida para o público em geral, ou seja, não é mais possível ver os nomes dos fundos que fazem parte da carteira do Astralo 95 atualmente.

Procurada pela reportagem, a CVM disse que é permitido ao administrador do fundo ocultar a composição da carteira por até 90 dias, com possível prorrogação autorizada pelo órgão.

O Astralo 95 é um dos fundos identificados pelo Banco Central como suspeitos de fazerem parte do esquema de fraude capitaneado por Daniel Vorcaro e que ao mesmo tempo aparecem nas investigações que miram infiltração do PCC no mercado financeiro.

Embora não seja possível saber por meio de dados públicos quem são as pessoas físicas ligadas ao Termópilas, diversas informações disponíveis na Receita Federal apontam relações de Vorcaro com uma das empresas investidas pelo fundo, a Super Empreendimentos.

Até julho de 2024, um dos diretores da Super era Fabiano Zettel, casado com Natalia Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro. Ana Cláudia Queiroz de Paiva, sócia de Zettel, permanece como diretora da Super.

Ela também é diretora de outros negócios de Zettel, além de dividir telefone e endereço com empresas de Vorcaro, conforme mostrou reportagem publicada pela Folha em dezembro. De acordo com um comunicado enviado pela defesa de Vorcaro para os questionamentos de tal reportagem, Zettel é sócio da Super e Ana Claudia presta serviços a uma das empresas de Vorcaro. Ele diz se tratar de uma contratação dentro da normalidade.

A Super é também dona da casa de R$ 36 milhões em Brasília onde o banqueiro recebeu políticos como o senador Ciro Nogueira (PP) e o deputado Hugo Motta (Republicanos). Segundo a assessoria de Vorcaro, ele é apenas inquilino do imóvel.

A empresa Super entrou no noticiário do escândalo do banco Master porque em dezembro de 2024 doou um apartamento de quase R$ 4,4 milhões a uma mulher citada em operação policial de 2022 contra o tráfico de drogas. A defesa dela nega a acusação.

Nove meses antes de doá-lo, a Super comprou o apartamento da Viking, empresa da qual Daniel Vorcaro é sócio.

A reportagem procurou a Reag, apontada como administradora do Termópilas e do Astralo 95 no site da CVM, para questionar se foi feito algum resgate nos recursos do Termópilas após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco, mas ela respondeu, em nota, que “não interfere nos negócios de seus clientes”.

A Reag foi um dos alvos da Carbono Oculto —operação realizada em agosto, que mira a relação entre o setor de combustíveis, o PCC e empresas financeiras.

Procurada, a assessoria de Vorcaro não comentou. Ana Claudia Queiroz de Paiva, diretora da Super, também não respondeu às tentativas de contato feitas pela reportagem. Fabiano Zettel, ex-diretor, não se manifestou.

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