RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, movimentou 17,5 milhões de passageiros em 2025, segundo painel de dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
É o recorde para um ano na série histórica do órgão, que reúne estatísticas desde 2000. O fluxo teve alta de 23,5% em relação a 2024, quando o Galeão recebeu 14,2 milhões de viajantes.
A máxima anterior (16,9 milhões) havia sido verificada em 2014. Os números somam passageiros de rotas nacionais e internacionais com origem ou destino no terminal carioca.
Para analistas ouvidos pela Folha, o leilão tende a ter competição, com interesse além dos atuais concessionários privados.
O edital determina a saída da Infraero do negócio, o que é visto como potencial atrativo para o mercado. A estatal tem participação societária de 49% na concessão.
Os outros 51% estão divididos entre a Changi, de Singapura, e a gestora Vinci Compass, que comprou parte das ações da companhia estrangeira em anúncio ocorrido em agosto.
O Ministério de Portos e Aeroportos afirma que a disputa será aberta ao mercado e que, conforme acordo homologado pelo TCU (Tribunal de Contas da União), os atuais acionistas privados devem apresentar ao menos uma proposta no valor mínimo para participar do certame.
O valor mínimo, que deve ser pago à vista, é de R$ 932 milhões. Os vencedores também terão de desembolsar para a União uma contribuição variável anual equivalente a 20% do faturamento bruto da concessão até 2039. O edital prevê negociar 100% da operação.
“A modelagem agora é diferente. Não contempla a Infraero, e há um repasse de 20% do faturamento bruto. Isso é fundamental, porque não é mais uma outorga absurda que não é possível pagar”, afirma Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes.
“A gente tem de aguardar, mas acredito que certamente haverá interessados, porque é um ativo importantíssimo e tem potencial para resultados”, acrescenta.
Com o registro de 17,5 milhões de passageiros em 2025, o Galeão teve o terceiro maior fluxo do país, conforme o ranking da Anac. Ficou atrás dos paulistas Guarulhos (46,3 milhões) e Congonhas (24 milhões).
Inicialmente, o Galeão foi concedido à iniciativa privada em leilão em 2013, antes de a economia brasileira mergulhar em recessão.
Com o passar dos anos, o terminal passou por esvaziamento, intensificado na pandemia. O novo leilão é uma aposta do governo para reequilibrar o contrato do ponto de vista financeiro.
MINISTRO FALA EM 5 POSSÍVEIS PARTICIPANTES
Em entrevista na quarta (11), o ministro Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) disse que há “cinco possíveis participantes” do certame.
Ele citou Vinci Airports, Inframerica, Zurich e Aena, além da gestora Vinci Compass, que atua hoje no Galeão ao lado da Changi.
O governo fez uma apresentação a possíveis investidores (roadshow) no início deste mês. Após a programação, sem mencionar nomes, o Ministério de Portos e Aeroportos declarou que seis empresas participaram das reuniões.
À Folha a espanhola Aena, que opera Congonhas, afirmou que “está sempre atenta” às oportunidades de crescimento e de novos investimentos e que “avalia criteriosamente todas as possibilidades”.
A suíça Zurich, à frente de terminais em cidades como Florianópolis e Vitória, disse que não comentaria. A Inframerica, que administra o aeroporto de Brasília, também afirmou que não se manifestaria.
A francesa Vinci Airports, presente em locais como Salvador e Manaus, não respondeu.
O economista Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, prevê pelo mais um ou dois grupos dando lances na disputa pelo Galeão, além dos sócios privados atuais. Para ele, o desfecho do certame será surpreendente caso não haja competição.
“Há um grau de interesse bom, não sei se é espetacular.”
Segundo o especialista, além da demanda em alta no aeroporto carioca, os termos previstos para o leilão de março estão melhor definidos do que em processos antigos do setor.
Ele vê a saída da Infraero como estímulo para a concorrência, mas sinaliza preocupação com um ponto. De acordo com Frischtak, não há segurança suficiente de que as restrições a voos no Santos Dumont permanecerão no futuro, em caso de mudança de diretrizes governamentais.
Na visão do economista, essa medida teve importância para estimular o Galeão, assim como o crescimento da economia brasileira e o desembarque de turistas em meio a grandes eventos no Rio.
As primeiras restrições a operações no Santos Dumont entraram em vigor em outubro de 2023, após pressão de empresários e políticos locais.
A medida buscou conter um inchaço do terminal e, assim, direcionar mais voos para o Galeão, que vinha de esvaziamento.
O debate sobre o assunto voltou a esquentar entre o final de 2025 e o início de 2026. Após queixas do prefeito Eduardo Paes (PSD), defensor das restrições, o governo federal revogou neste mês uma decisão que abria margem para aumento de passageiros no Santos Dumont.
Operado pela Infraero, o terminal recebeu 6 milhões de viajantes em 2025, número similar ao de 2024, segundo a Anac. O patamar é inferior aos fluxos de 2023 (11,2 milhões) e 2022 (9,9 milhões), antes das restrições. O Santos Dumont só opera voos nacionais.
Em nota, a concessionária do Galeão disse que sempre trabalhou pela ampliação de rotas e atração de companhias aéreas.
“A coordenação [com o Santos Dumont] permitiu acelerar esse processo, fortalecendo a conectividade e integração das malhas doméstica e internacional e impulsionando a movimentação de passageiros e cargas”, acrescentou a concessionária, que confirma a participação de Changi e Vinci Compass no leilão de março.
A capacidade do Galeão é calculada em 37 milhões de viajantes por ano. Ou seja, apesar do crescimento das operações, o número movimentado em 2025 (17,5 milhões) ainda está distante.
Para Marcus Quintella, da FGV Transportes, as restrições a voos no Santos Dumont, “corretas ou não”, explicam parte do avanço do Galeão. Ele também cita o desembarque de turistas e a recuperação do setor aéreo no mundo após a pandemia.