[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro (0,33%) veio praticamente em linha com as projeções de mercado (0,32%). Com o resultado, o indicador oficial de inflação no país subiu a 4,44%, mais próximo do teto da meta. O detalhamento dos dados do IBGE não altera a expectativa de redução da taxa de juros em março, na segunda reunião deste ano do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas analistas afirmam que o quadro ainda inspira atenção. “A persistência da inflação de serviços sugere que a demanda ainda não está completamente arrefecida”, afirmou Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). “Isso limita uma leitura mais confortável do cenário inflacionário.”
Com a inflação ainda “sujeita a ruídos”, ele indica redução de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, o que levaria a Selic a 14,75% ao ano. “A probabilidade de corte de 0,50 ponto diminui caso os núcleos sigam pressionados”, afirmou. Assim, para o economista, o resultado de janeiro do IPCA “reduz o grau de conforto” do Banco Central e justifica postura cautelosa. “Com flexibilização gradual e dependente dos dados, diante de um processo de desinflação ainda incompleto.”
Já Luiz Otávio Leal, economista da G5 Partners, aposta em corte de meio ponto em março. Ele acredita que a situação deve se inverter em relação a janeiro, com aceleração mensal e desaceleração no acumulado em 12 meses. “Essa última, inclusive, deve ser bastante intensa”, afirmou. Leal estima IPCA de 0,50% em fevereiro (ante 1,31% em 2025), puxado por mensalidades escolares, levando a soma a 3,63%, no menor nível desde junho de 2023. Para ele, esse nível – com variação de 3,46% a 3,64% – pelo menos até julho. “O BC poderia aproveitar essa ‘barriga’ da inflação no primeiro semestre para acelerar os cortes de juros.”
ALTOS E BAIXOS – No caso do IPCA de janeiro, ele observa que itens como alimentação no domicílio (de +0,14% para +0,10%) e o grupo Vestuário (de +0,45% para -0,25%) tiveram desaceleração, enquanto Habitação (-0,11%, ante -0,33% no mês anterior) e Saúde (+0,70%) aceleraram. “Mas nenhum grupo refletiu de forma tão marcante esse ‘jogo’ de compensações, como o de Transportes”, disse Leal. O índice geral do grupo passou de 0,74% para 0,60%, mas o item ônibus urbano foi de -2,63% para +5,14% e a gasolina, de +0,18% para +2,06%. No sentido contrário, passagens aéreas foram de +12,61% para -8,90% e transporte por aplicativo, de +13,79% para -17,23%.
O grupo Alimentação e Bebidas desacelerou de 0,27%, em dezembro, para 0,23%. O IBGE destaca queda de produtos como leite longa vida (-5,59%) e ovo de galinha (-4,48%). Entre as altas, tomate (20,52%) e carnes (0,84%) – o contrafilé subiu 1,86% e a alcatra, 1,61%. A alimentação fora do domicílio foi de 0,60% para 0,55%, com comportamentos diferentes: a refeição subiu de 0,23% para 0,66% e o lanche desacelerou, de 1,50% para 0,27%. No grupo Habitação (-0,11%), o principal impacto veio da energia elétrica residencial (-2,73% e impacto de -0,02 ponto) – a bandeira passou de amarela para verde (sem cobrança adicional).
Na visão do economista Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o IPCA trouxe “leitura razoavelmente benigna”, embora os serviços continuem pressionados. Mas ele observa desaceleração desse componente da inflação, “sugerindo menor força da demanda agregada sobre o nível de preços e reforçando o processo gradual de desinflação em curso”. Além disso, acrescenta, a valorização recente do real ajuda a aliviar preços mais sensíveis ao câmbio, “contribuindo para um quadro inflacionário mais favorável”. Shahini disse ainda que o Focus, boletim do BC, trouxe novo ajuste nas projeções de inflação deste ano (3,99% – estava em 4,06% há quatro semanas). Por isso, ele também crava corte de meio ponto na Selic em março. “Somados, esses elementos dão suporte à expectativa.”
A analista de Macroeconomia Sara Paixão, da InvestSmartXP, disse que apesar de o IPCA ficar próximo das estimativas ainda há “pressão” no núcleo e em serviços subjacentes, que incluem itens como comércio e alimentação. Além disso, a difusão avançou de 60% para 64%, “indicando que o avanço nos preços foi disseminado por um grupo maior de produtos”. Segundo ela, o mercado segue precificando corte de meio ponto na Selic no mês que vem, “mas houve redução na probabilidade”.