Governo abre mão de direito sobre fatia da Eletronuclear, e operação entre Axia e J&F poderá ser concluída

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O governo decidiu não exercer o direito de preferência sobre as ações da Eletronuclear que foram negociadas pela Axia (ex-Eletrobras) ao grupo J&F, de acordo com quatro pessoas com conhecimento sobre o assunto. Com isso, a operação entre as duas empresas privadas ganha sinal verde para ser concluída.

O acordo de acionistas da Eletronuclear dava ao governo, por meio da estatal ENBpar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), o direito de comprar a fatia negociada se assim preferisse. O prazo trabalhado pelo Executivo era 13 de fevereiro de 2026, mas o entendimento foi para não exercer a compra.

A Axia assinou contrato com a J&F em 14 de outubro de 2025 por R$ 535 milhões. O acordo prevê que o grupo dos irmãos Batista assuma uma série de compromissos, como a integralização das debêntures de R$ 2,4 bilhões à Eletronuclear.

“Com a conclusão da venda, nós estaremos recebendo R$ 535 milhões pela participação, mas mais do que isso, nós estaremos liberando as garantias, todas assumidas por nós ao longo dos anos em favor da Eletronuclear, passando a ser o garantidor a J&F, assim como as debêntures que nós nos comprometemos a colocar em Eletronuclear para a conclusão da revitalização de Angra 1, no montante de R$ 2,4 bilhões”, afirmou no fim do ano a investidores Eduardo Haiama, diretor financeiro da Axia.

As debêntures podem dar um alívio temporário à Eletronuclear. O presidente da estatal, Alexandre Caporal, afirmou neste mês ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha de S.Paulo, que a empresa está próxima de um colapso e que pode ficar sem recursos para operar as duas unidades em funcionamento hoje -Angra 1 e Angra 2.

O problema central da empresa é as obras de Angra 3, que se arrastam há cerca de 40 anos. Mesmo paralisadas desde a Operação Lava Jato, elas seguem consumindo R$ 1 bilhão ao ano (sendo aproximadamente 80% do montante ligado a dívidas com bancos e 20% a custos de manutenção de equipamentos).

“Essa inação está sendo pesada para a empresa. Nós não temos fonte de recurso para pagar esse R$ 1 bilhão, e isso pode gerar o colapso, a descontinuidade operacional de Angra 1 e Angra 2”, disse.

Segundo ele, as dificuldades financeiras da empresa podem gerar uma crise análoga àquela vivenciada pelos Correios -que, mesmo após um empréstimo de R$ 12 bilhões, pode precisar de um aporte adicional de até R$ 8 bilhões do Tesouro Nacional.

O governo ainda não decidiu se vai retomar as obras da usina de Angra 3. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, insistiu neste mês para que o ministro Fernando Haddad (Fazenda) adote as medidas necessárias para viabilizar a retomada e a conclusão da usina.

Os integrantes da equipe econômica vinham mostrando resistências sobre o empreendimento. Mas, conforme mostrou a Folha de S.Paulo, a pasta agora demonstra estar inclinada a concordar com sua continuidade desde que haja um esforço para reduzir a tarifa de energia, projetada entre R$ 778,86 e R$ 817,27 por MWh.

O valor, indicado em estudo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), é considerado elevado pela Fazenda e pode pressionar a conta de luz dos consumidores no futuro. Em um dos mais recentes leilões realizados pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o preço da energia nova a ser gerada por usinas térmicas (fonte comparável à nuclear) ficou em R$ 315 por MWh.

Voltar ao topo