Groenlândia ofusca escalada militar dos EUA contra o Irã

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Enquanto choca o mundo com sua campanha para tomar a Groenlândia da Dinamarca, Donald Trump silenciosamente desloca toda sorte de ativos militares no que se desenha como a preparação para um ataque contra o Irã.

Só na noite desta quarta-feira (20) e madrugada de quinta (21), dez aviões de reabastecimento aéreo KC-135 voaram dos EUA para a Europa, rumo a bases no Oriente Médio. Desde a semana passada, outros 13 já haviam sido deslocados, se somando à dúzia que fica permanentemente em Al-Udeid, no Qatar.

Os voos são monitorados por sites de rastreio de aeronaves. Nesta semana, já haviam sido enviados pelo menos 12 aviões de ataque F-15E para a base de Muwaffaq, na Jordânia. Esses caças são peças vitais em um ataque, lançando suas armas depois de uma barragem inicial com mísseis de cruzeiro Tomahawk.

Para tanto, os aviões precisam ser apoiados por aeronaves como o KC-135, dado que não têm alcance para ir e voltar ao Irã de suas bases plenamente carregados. Eles também são vitais para um eventual uso de bombardeiros de longa distância B-2, B-1B e B-52. Além dos reabastecedores, foram enviados pelo menos 15 cargueiros estratégicos C-17 para o Oriente Médio.

Provavelmente há outros recursos mobilizados. O Comando Central das Forças Armadas dos EUA, por exemplo, divulgou uma foto da chegada de um F-15E a uma base não revelada na quarta. É possível ver a silhueta de um avião de ataque ao solo A-10 na pista.

Na região, os EUA têm 8 bases permanentes e um número flutuante de instalações militares, usualmente na casa de 12. Elas precisam ser defendidas de uma retaliação iraniana, e segundo o Wall Street Journal, sistemas de defesa de médio alcance Patriot e de alta altitude Thaad já estão sendo embarcados.

A convergência de forças em torno do Irã ainda conta com a chegada até o fim da semana do grupo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, que estava no mar do Sul da China e na quarta desligou seu sistema de identificação automática, sumindo dos sites de rastreamento de navios.

O grupo, que tem um cruzador, três destróieres e um submarino de escolta, havia acabado de entrar na baía de Bengala, o que sugere mais três a cinco dias de navegação até uma posição de ataque. No Atlântico, após alguns dias em manobras, o USS George H. W. Bush também desligou seu sistema de localização.

O navio ruma presumivelmente para o Mediterrâneo, onde pode chegar na semana que vem e apoiar uma ação pelo flanco oeste, na costa de Israel. A ausência de grupos de porta-aviões nas cercanias do Irã foi vista como um dos motivos para que Trump recuasse do que parecia um ataque iminente à teocracia, na quarta passada (14).

Uma ação pontual é plenamente possível com bombardeiros estratégicos de longo alcance e mísseis, mas não uma campanha sustentada que inclua ataques iniciais, ondas subsequentes e necessidade de proteção mais ampla das bases dos EUA.

Mesmo no ataque único feito pelos americanos ao programa nuclear iraniano, durante a guerra entre a teocracia e Israel em junho passado, ocorreu com o apoio de três grupos de porta-aviões.

A ação em si foi feita por bombardeiros furtivos B-2 saídos dos EUA, e a crise acabou após uma retaliação coreografada com poucos mísseis e aviso prévio a Al-Udeid.

Não se sabe o que ocorrerá agora, claro. O Irã cancelou na quarta todas as 13 notificações de fechamento de espaço aéreo para treino de defesa até o dia 31, mas mantém seu estado de alerta militar.

Trump havia dito que ajudaria os manifestantes que protestam, desde o dia 28 de dezembro, no Irã. Eles foram às ruas devido à crise econômica, mas logo os atos se tornaram contra o regime no poder desde 1979, antípoda dos EUA.

Na semana passada, o americano disse que tinha recebido informações de que não haveria execuções de manifestantes. Na quarta desta semana, ele disse em discurso que foram evitadas 387 enforcamentos, restando saber de onde tirou o número. Os protestos continuam, menores e abafados pelo apagão da internet no país.

Seja como for, dois movimentos se seguiram à aparente calma: a escalada de forças no Oriente Médio e a estridência em torno da Groenlândia. Se a crise com seus aliados europeus é uma cortina de fumaça ou para valer, é incerto, mas o acúmulo de recursos para um eventual ataque ao Irã é claro.

O mesmo ocorreu durante o segundo semestre de 2025 no Caribe, culminando na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro no dia 3 passado, ainda que os cenários sejam muito diferentes.

Há outros aspectos. Israel quer o fim da teocracia, que defende a extinção do Estado judeu, mas pediu para que Trump adiasse o ataque. Segundo relatos na imprensa israelense, um motivo foi o temor de haver buracos em sua defesa aérea, bastante testada na guerra com o Irã.

Segundo o jornal Yediot Ahronot, contudo, o motivo é outro. O governo de Binyamin Netanyahu advertiu, diz a publicação, Trump de que uma ação de decapitação do regime não seria suficiente para acabar com a teocracia. Isso só poderia ser obtido com um ataque de grande escala, o que tem outras implicações.

Além disso, parece ter contado por ora a pressão dos aliados árabes dos EUA, rivais do Irã, que temem o impacto do conflito no mercado de petróleo e gás. Um quinto da produção dessas commodities passa pelo estreito de Hormuz, cuja margem norte é controlada pelos iranianos.

Com efeito, na quarta um avião de patrulha naval americano P-8 fez um pouco usual voo de reconhecimento pela área do gargalo, o que sugere o mapeamento das capacidades iranianas no local.

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