[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Ainda que o resultado do PIB em 2025 (+2,3%) não tenha surpreendido o mercado, o que está por vir para o Brasil em 2026 pode guardar algumas surpresas. E elas não são necessariamente boas. Com a escalada da tensão global com conflitos na Europa e Oriente Médio, a incerteza sobre a atividade econômica – que já vinha em arrefecida – continua. Pelo menos é a avaliação de Ulisses Ruiz de Gamboa, do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (IEGV-ACSP). Ele projeta alta de 1,8% para o PIB de 2026, o que representaria o segundo ano seguido de desaceleração, após os 3,4% de 2024 e os 2,3% de 2025 – o resultado mais fraco desde a pandemia. Sobre o resultado doméstico da atividade brasileira, Ruiz de Gamboa chama a atenção para a perda de ritmo no consumo das famílias, que cresceu 1,3% no ano passado, ante 5,1% em 2024.
Para o IBGE, o dado mais fraco do consumo se deve, principalmente, aos “efeitos adversos da política monetária contracionista”. O alento, no entanto, se deu em fatores como mercado de trabalho, aumento do crédito e programas de transferência de renda que, apesar de importantes, não foram o suficiente para sustentar a demanda no ritmo de 2024. Segundo Gamboa, a forte desaceleração do consumo se deu também pelo alto endividamento das famílias. Sob a ótica da demanda, disse ele, “esse fator é o carro-chefe da atividade econômica”. Segundo o IBGE, o PIB per capita subiu 1,9% em 2025, após incremento de 3% um ano antes.
Outro dado preocupante, segundo Gamboa, é a taxa de investimento (16,8% do PIB). “Não variou praticamente nada [foi de 16,9% em 2024], mas é baixíssima”, afirmou. “Isso vai em linha com a queda da produção de bens de capital.” Na indústria, o PIB cresceu 1,4%, mas essa alta se deve ao setor extrativo (petróleo e gás): 8,6%. A indústria de transformação teve variação negativa (-0,2%). Nos serviços (+1,8%), todas as atividades cresceram em 2025. Mas a maior elevação foi da agropecuária (+11,7%). Efeito, segundo o IBGE, “do crescimento da produção e da produtividade”. As culturas do milho e da soja tiveram produções recordes no ano passado – a produção subiu 23,6% e 14,6%, respectivamente. O instituto destaca também a “contribuição positiva” da pecuária.

TARIFAÇO – Para Claudio Considera, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), o PIB de 2025 foi “razoável”, com crescimento no primeiro semestre – “colheita das safras” – e redução de ritmo no segundo. “Me parece um resultado razoável. Frente, principalmente, ao tarifaço, que incomodou um pouco”, afirmou. Ele também apontou o ritmo menor do consumo das famílias: “Vem caindo desde o tarifaço”. Como pontos positivos, Considera citou o avanço das exportações de bens e serviços (+6,2%) e da renda per capita (+1,9%, para R$ 59,7 mil). Os destaques das exportações foram petróleo, veículos e agropecuária. Do lado das importações (+4,5%), máquinas&equipamentos e produtos químicos.
“O que assusta é a questão da guerra, que parece que vai se prolongar”, disse o pesquisador do FGV Ibre, sobre o conflito deflagrado no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Isso pode levar, internamente, a um aumento no preço do petróleo, com efeito sobre a inflação. “E não dá para fazer como no passado, quando a Petrobras engolia parte do aumento.” Ele espera ainda que isso não adie o ciclo de corte de juros por parte do Comitê de Política Monetária (Copom). Se por um lado a Selic ajudou a controlar a inflação, por outro contribuiu para a redução da atividade econômica.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, embora o crescimento em 2025 seja positivo, “o encerramento do ano aponta para uma absorção doméstica privada mais fragilizada”, afirmou. Segundo ele, a “fraqueza” na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, indicador de investimento) e no consumo “sugere que a demanda agregada entra em 2026 com menos fôlego do que o antecipado”. Por isso, em cenário que ele chama de “maior sensibilidade aos juros altos”, a Genial projeta crescimento de 2,1% neste ano, com viés de baixa. “Monitorando de perto como essa desaceleração continuará auxiliando na convergência da inflação.”