Guerra vai gerar efeito rebote sobre nova geração que se rebelava no Irã, diz professora

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã pode levar ao efeito político oposto ao pretendido pelo presidente americano, Donald Trump, segundo a socióloga iraniana Valentine Moghadam. A professora da Universidade Northeastern, em Boston, afirmou à Folha que a ofensiva militar corre o risco de transformar em antiamericanos justamente os jovens que, há poucos anos, se rebelaram contra o próprio regime iraniano.

“Agora eles veem por que seus pais e avós estavam certos de se opor aos EUA e ao imperialismo e expansionismo. Essa geração continuará sendo anti-israelense e anti-americana por muito tempo, incluindo todas aquelas jovens mulheres que estavam se rebelando contra este Estado islâmico”, diz.

Nascida em Teerã, Moghadam deixou o Irã antes da Revolução Islâmica de 1979 para estudar no Canadá e, depois, nos EUA. Especializada em política do Oriente Médio e questões de gênero e desenvolvimento, produziu trabalhos críticos à restrição de direitos das mulheres no regime.

Para ela, a intervenção militar externa sabota as possibilidades de transição do regime teocrático. “A maioria das mulheres iranianas, incluindo eu mesma, gostaria de uma forma de governo mais secular e democrática”, afirma. “Isso não é equivalente a uma invasão por qualquer potência externa.”

A professora também critica o que chama de oportunidades perdidas de reaproximação entre o Irã e os Estados Unidos, incluindo o acordo nuclear assinado em 2015 do qual Trump retirou os americanos durante seu primeiro mandato.

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*Folha – A ação militar dos Estados Unidos tem implicações de gênero?Ela afeta de formas específicas as mulheres iranianas?*

*Valentine Moghadam -* Sim, as implicações de gênero são bastante reveladoras. Está claro que nem o regime israelense nem o americano estão preocupados com a forma como seus bombardeios afetarão a saúde, o bem-estar ou os direitos humanos de mulheres e crianças. É por isso que bombardearam escolas, hospitais e moradias e até os depósitos de petróleo que poluíram o ar e a água. Esses são crimes de guerra. Essas ações têm como objetivo aterrorizar a população para que ela se volte contra o regime islâmico.

Mas o que elas revelam é a extensão do militarismo masculinista que está na raiz das campanhas contra o Irã. E as mulheres do Irã, que tiveram que lidar com suas próprias formas locais de masculinidade tóxica, agora podem ver a verdadeira face das chamadas democracias de Israel e dos EUA.

*Folha – A sra. pode explicar melhor o que chama de “militarismo masculinista”?*

*Valentine Moghadam -* Guerra, gastos militares, militarismo são formas de masculinidade. Nem todas as masculinidades são tóxicas, mas essa em particular certamente é. É uma expressão de masculinidade na medida em que essas guerras são ofensivas contra outros povos, planejadas e conduzidas por homens. Líderes homens, políticos homens e, infelizmente, soldados homens.

Veio-me à mente a figura de Donald Trump, associada a uma masculinidade que pode ser chamada de tóxica –a associação com Jeffrey Epstein, por exemplo. O fato de ser ele a conduzir essa operação amplifica o “militarismo masculinista”?

Os EUA têm uma longa história de militarismo e ação militar desde sua própria fundação. Quero dizer, lembre-se de que os EUA foram fundados com apenas 13 colônias e depois se expandiram para 50 e alguns territórios.

Trump é apenas a mais recente manifestação dessa longa linha na história do expansionismo e militarismo americanos. Mas ele é um exemplo especialmente grosseiro de um líder político que nem consegue manter suas justificativas e histórias coerentes. [O objetivo da guerra] são recursos? Alguns dias é, e alguns dias não é. É construir a paz? Alguns dias sim, alguns dias não. É apoiar a população iraniana? Então ele é apenas o mais recente em uma linha, mas o exemplo mais grosseiro de um presidente americano muito agressivo e egocêntrico.

*Folha – Um discurso prevalente nas redes sociais de apoio à guerra tem sido um de libertação das mulheres. Esse mesmo discurso foi comum em outras intervenções militares, como a do Afeganistão. As iranianas podem se beneficiar dessa ação dos EUA e de Israel?*

*Valentine Moghadam -* Absolutamente não. A destruição em massa da infraestrutura de um país, incluindo hospitais e escolas femininas, e as mortes que a acompanham, quando isso beneficiou alguém? De que forma poderia ajudar a promover a igualdade e os direitos das mulheres?

O resultado das recentes campanhas dos israelenses e americanos é exatamente o oposto. Essa geração mais jovem, que se rebelou contra o governo durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade –mulheres e homens igualmente– poderia ter algum tipo de admiração pela cultura e pela democracia americana. Agora eles veem por que seus pais e avós estavam certos de se opor aos EUA e ao imperialismo e expansionismo.

E essa geração mais jovem continuará anti-israelense e anti-americana por muito tempo, incluindo todas aquelas jovens mulheres que estavam se rebelando contra o Estado islâmico.

*Folha – Os ataques criam uma divisão entre a diáspora iraniana e os iranianos que ainda estão no país? Porque a reação dos exilados tem sido bastante positiva em relação à guerra.*

*Valentine Moghadam -* Sim. Esse é um pequeno grupo de pessoas que eu simplesmente acho muito, muito mal orientadas.

Elas se apegam a certas ilusões e delírios monarquistas, à ideia de que uma monarquia poderia ser revivida no Irã. Lamento muito que haja iranianos que estão esperando por uma mudança de regime através de guerra, bombardeios e destruição de infraestrutura e vidas. É muito, muito lamentável.

*Folha – Nas fotos de manifestações de luto pela morte do líder supremo, Ali Khamenei, havia muitas mulheres. O quão difundido é entre as mulheres iranianas o desejo de mudança de regime?*

*Valentine Moghadam -* Primeiro precisamos entender o que queremos dizer com mudança de regime. Para a grande maioria dos iranianos, isso não é equivalente a uma invasão por qualquer potência externa.

No entanto, a maioria das mulheres iranianas, incluindo eu mesma, gostaria de uma forma de governo mais secular e democrática, que, aliás, era totalmente possível antes dos bombardeios israelenses e americanos que começaram em junho de 2025. Depois do protesto Mulher, Vida, Liberdade, o governo fez uma grande concessão ao permitir que mulheres e meninas aparecessem em público sem hijab.

Quero mencionar outras oportunidades perdidas para uma transição mais genuína que poderia ter ocorrido no Irã. A primeira foi depois do 11 de Setembro. No Irã, o presidente emitiu declarações de solidariedade e apoio aos americanos. Houve grandes manifestações em Teerã onde as pessoas seguravam velas em simpatia e apoio.

Qual foi a resposta americana, ou pelo menos a resposta de [George W.] Bush? “O Irã faz parte do eixo do mal.” Essa era uma oportunidade de amizade, de normalização, de cooperação que foi completamente minada por Bush.

Outra oportunidade perdida foi o acordo nuclear iraniano. O Plano de Ação Conjunto Abrangente foi assinado em 2015. Novamente, no Irã houve muita celebração, até um concerto em Teerã com homens e mulheres se apresentando juntos, o que era muito incomum. Três anos após a conclusão do acordo nuclear, Trump se opõe, retira os Estados Unidos dele, e os europeus o seguem. O que eles fizeram foi fortalecer a linha-dura no Irã.

Se essa é a ideia deles de mudança de regime, sai pela culatra. Tenho certeza de que a grande maioria dos iranianos está horrorizada com os ataques.

*Folha – Na eleição presidencial de 2024, Masoud Pezeshkian, um reformista, saiu vencedor depois de um ciclo de linhas-duras. A sra. entende que isso indicava uma possibilidade de abertura política?*

*Valentine Moghadam -* Isso é o infeliz e trágico. Há esses ciclos eleitorais ao longo da história da República Islâmica, e eles coincidem com pressões de fora. Sempre que há uma pressão dos americanos ou israelenses, os linha-dura são fortalecidos.

Com as eleições presidenciais mais recentes, um reformista voltou ao poder. E a ideia era que esta era uma oportunidade de responder às demandas do movimento Mulher, Vida, Liberdade e às daquelas organizações da sociedade civil que vinham emitindo declarações por mudança no Irã.

Ajudei a traduzir algumas dessas declarações para o inglês para um público internacional mais amplo. E elas eram muito comoventes e progressistas. Essa foi outra oportunidade perdida, tínhamos a sociedade civil emitindo orientações para o Estado, um novo presidente reformista. Ele é de dois dos grupos étnicos minoritários, azeri e curdo, é pai de filhas e disse que não as forçaria a fazer nada que elas não quisessem. É um homem de quem os iranianos poderiam, talvez, ter orgulho.

Mas então o que os americanos e israelenses fazem? Eles bombardearam em junho de 2025. E só vai de mal a pior. Parece que há um esforço constante para sabotar qualquer uma dessas perspectivas e oportunidades de mudança social progressista, de uma transição pacífica para uma democracia.

A grande maioria dos iranianos é muçulmana, mas quer a separação entre lei religiosa e lei civil. Querem se parecer com o Marrocos, a Turquia. Mas os americanos e israelenses parecem determinados a destruir quaisquer perspectivas de mudança gerada domesticamente.

*Folha – Uma das justificativas para a ação, da parte de Trump, é o fato de protestos em janeiro terem terminado com milhares de mortos pela repressão do Estado iraniano.*

*Valentine Moghadam -* Nos Estados Unidos, quando há protestos e pessoas são mortas, não há intervenção externa ou interferência. Não digo isso para eximir as entidades estatais da responsabilidade pela violência, de forma alguma, mas para fornecer algum contexto para o que aconteceu em janeiro. Isso foi usado como desculpa para os israelenses e americanos que sempre quiseram destruir aquele regime e então tomar seus recursos e sua riqueza petrolífera.

*Folha – O que a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo significa para o Irã e mais especificamente para as mulheres iranianas?*

*Valentine Moghadam -* Precisamos esperar para ver como a guerra atual prossegue e se ela pode terminar em breve. É de conhecimento geral que a legitimidade do governo do líder supremo vinha sendo questionada havia bastante tempo.

Após o protesto Mulher, Vida, Liberdade, várias organizações da sociedade civil, incluindo grupos de mulheres, emitiram declarações pedindo um referendo sobre o sistema de governança no Irã, com vistas a uma transição pacífica para um Estado mais democrático.

Infelizmente, as ações criminosas dos israelenses e americanos minaram esse tipo de transição. Não acho que sabemos muito sobre Mojtaba Khamenei, e temos de esperar para ver se o Irã terá a oportunidade de mudar seu sistema de governança de dentro e pelo próprio povo iraniano.

*Raio-X | Valentine Moghadam, 73*

Nascida em Teerã em 1952, é professora de sociologia e relações internacionais na Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. Doutora em sociologia pela American University, em Washington, especializou-se em gênero, desenvolvimento e política no Oriente Médio.

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