[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O mercado brasileiro de mercadinhos autônomos deve se mover em três ondas: a primeira, nascida no pós-pandemia, foi marcada pela expansão pulverizada e milhares de pequenos operadores; a segunda, em que o setor começa a entrar agora, é de consolidação gradual, com casos de fusões e aquisições pontuais. A última etapa se dará quando os grandes players começarem a comprar as companhias menores e se tornarem controladores do mercado. A leitura é de Guilherme de Oliveira, sócio da Minha Quitandinha, que vê o segmento caminhar para um ambiente em que apenas empresas mais estruturadas terão escala para competir no futuro.
A trajetória da empresa segue as três ondas. Nasceu no bojo da pandemia, anunciou uma fusão com a Onni no ano passado e agora trabalha para atingir 1 mil unidades e brigar pelo topo de um setor que, segundo ele, soma 25 mil unidades, mas tem potencial de chegar a 100 mil nos próximos cinco anos. “As últimas 30 mil ou 40 mil lojas [no ciclo de consolidação], já vão ser inauguradas por grandes players”, afirma.
Para estar pronta, a empresa tem planos ambiciosos. Este ano a meta é que o faturamento cresça 70% e atinja R$ 170 milhões. O número de lojas, segundo Oliveira, deve avançar entre 20% e 25%, com foco na expansão em pontos que vão além da tradicional operação em condomínios residenciais e comerciais. Atualmente, segundo o executivo, que é sócio-fundador da Minha Quitandinha, já são 95 operações dentro de empresas. Entre as novas lojas, as maiores estão na petroquímica Braskem e na fabricante de pneus Cantu.
No ano passado, a empresa também lançou o serviço dentro do universo acadêmico, com a inauguração no Centro Universitário Estácio Campo Grande, na capital homônima (MS). “Estamos entendendo melhor o comportamento de compra”, ele disse, “é um consumidor diferente.” Hotéis, clubes e locais com alto fluxo de pessoas estão no radar do time de novos negócios da empresa.
O mercado de conveniência, que inclui quiosques, minimercados e lojas autônomas – sem atendentes e que ficam geralmente em condomínios –, cresceu de US$ 883,3 bilhões (R$ 4,6 trilhões, na cotação atual) para US$ 957,1 bilhões (R$ 5 trilhões) em 2025. Até 2029, a tendência é chegar a US$ 1,3 trilhão (R$ 7 trilhões), a uma taxa de crescimento anual de 9%, de acordo com o Relatório Global de Mercados de Conveniência 2025, publicado em dezembro pela The Business Research Company, uma consultoria com sede em Londres.
Oliveira disse acreditar que, apesar de tecnologicamente estar atrás da China e os EUA, o mercado de conveniência no Brasil cresce em um ritmo mais rápido. “Esse modelo de condomínio é algo que cresceu aqui primeiro, e estamos levando isso para fora”, disse ele. Segundo ele, a percepção atual, debatida no último Retail’s Big Show, da Federação Nacional do Varejo (NRF, na sigla em inglês), em Nova York, é que há necessidade de investimento em tecnologia no processo de compra, segurança e meios de pagamento como parte do avanço natural do segmento. “Acho que esse é o passo que a gente quer dar.” Confira a entrevista:
AGÊNCIA DC NEWS – Como você avalia o mercado de lojas autônomas?
GUILHERME DE OLIVEIRA – No Brasil, apesar de tecnologicamente estar atrás da China e dos Estados Unidos, o modelo de mercado autônomo e de conveniência cresce numa velocidade até mais rápida do que lá fora. Esse modelo de mercado em condomínio é algo que cresceu aqui no Brasil primeiro, e estamos levando isso para fora.
AGÊNCIA DC NEWS – A que você credita esse ritmo de crescimento?
GUILHERME DE OLIVEIRA – É um negócio que só vai crescer porque não é modinha, né? Estamos levando produtos do dia a dia, que você compra, todo mundo compra – um snack à tarde, uma refeição não congelada. É algo que só vai crescer e vai para mais lugares. A nossa ideia é ir para outros lugares agora, onde as pessoas estão, e não ser só em prédios.
AGÊNCIA DC NEWS – O que você destacaria como tendências desse mercado agora?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Uma coisa que estamos vendo mudar nos últimos anos é um pouco da mudança nos hábitos de consumo das pessoas. A bebida alcoólica era o nosso produto número um e não é mais. Por quatro anos, a bebida alcoólica foi o principal item, mas o o refrigerante passou. Não que seja mais saudável, mas vemos uma tendência de menos álcool.
AGÊNCIA DC NEWS – Saindo dos condomínios você acredita que os hábitos se mantenham?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Vamos ter que entender melhor o comportamento de compra fora dos condomínios. Em hospital, hotéis, no clube, locais que têm convívio social. Devem ter comportamento de compra diferente.
AGÊNCIA DC NEWS – Em que lugares mais?
GUILHERME DE OLIVEIRA – No ano passado, em universidades, deu supercerto – a primeira foi na Estácio (de Sá, no Rio de Janeiro). Também estamos abrindo bastante em empresas. Agora queremos testar em hospitais, clubes e associações. As maiores que já temos estão na Braskem e na Cantu Pneus.
AGÊNCIA DC NEWS – Quantos contratos já há fechados?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Muita coisa vai acontecer em 2026, mas já temos 45 lojas contratadas. O time fecha em torno de 20 a 25 contratos por mês. Fecha o contrato e no mês seguinte, instala.
AGÊNCIA DC NEWS – Um crescimento agressivo para uma empresa tão jovem, não?
GUILHERME DE OLIVEIRA – A empresa começou em 2020 no meio da pandemia. É um produto que cresceu muito naquele período, o mercado autônomo. Estava todo mundo em casa, de home office, e o produto cresceu por causa disso.
AGÊNCIA DC NEWS – E depois da pandemia?
GUILHERME DE OLIVEIRA –A empresa vem dobrando de tamanho ano após ano – óbvio que quando você é pequeno isso é muito mais fácil. Vai chegar um momento em que isso não será mais possível.
AGÊNCIA DC NEWS – Chegou esse momento?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Estamos chegando nisso.
AGÊNCIA DC NEWS – Como está o mercado atualmente?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Na última NRF em Nova York, um estudo brasileiro sobre o mercado de conveniência autônoma disse que se deve chegar a 100 mil lojas. Estamos em torno de 25 mil hoje, numa primeira onda, em que é um mercado ainda superpulverizado, com muitos players pequenos, abrindo pequenas redes em cidades pequenas. Esse mercado vai se consolidando para grandes players até chegar nas 100 mil lojas. Então, é um mercado que cresceu muito, mas ainda tem muito para crescer.
AGÊNCIA DC NEWS – É um momento de consolidação?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Vai começar a consolidação. Ainda não é a fase final.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais fases teremos?
GUILHERME DE OLIVEIRA – O que a gente conversou é que vão ter três trends. A primeira vai chegar em mais ou menos umas 30 mil lojas superpulverizadas. A segunda [outras 430 mil lojas] já vai dar uma miniconsolidada. E as últimas 30 mil ou 40 mil lojas já vão ser de grandes players. Estão surgindo no mercado esses grandes players. A empresa mais antiga (market4you) tem seis vezes o nosso tamanho.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o momento da Minha Quitandinha?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Não queremos ser a maior no sentido de número de lojas. Nós queremos ser a mais sólida. Sendo uma franquia, temos que nos preocupar com o franqueado, se ele está ganhando dinheiro, não está fechando loja, sempre tivemos uma pegada um pouco mais pé no chão, em vez de abrir loja em qualquer canto. Se nos tornarmos o maior, vai ser por qualidade – preferimos entregar um serviço melhor. O momento de consolidação vai acontecer, nós mesmos acabamos de fazer uma fusão no final do ano e estamos num momento de integração dessa fusão.
AGÊNCIA DC NEWS – Com a Omni?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Sim. Era uma concorrente nossa. Eles tinham 300 e poucas lojas. Assumimos essas 300 e poucas lojas. E estamos nesse processo de integração dos times, lojas e franqueados. Num segundo momento, talvez no segundo semestre deste ano, a consolidação seja algo que queiramos fazer.
AGÊNCIA DC NEWS – O que mudou com a fusão, além de aumentar o número de lojas?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Eles eram basicamente uma empresa de tecnologia que também começou a abrir lojas. Nós éramos concorrentes, agora nós cuidamos das lojas e eles, da tecnologia. Eles viraram nosso fornecedor de tecnologia. Somos donos da tecnologia, mas eles prestam serviço de manutenção e desenvolvimento, e a gente toca as lojas. Basicamente, os sócios podem focar cada um na sua área.
AGÊNCIA DC NEWS – Em termos de tecnologia, quais são as mais importantes?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Frente de caixa e gestão de estoque do franqueado. Frente de caixa tem que funcionar, tem que estar sempre funcionando e permitir uma compra fácil. Não tem funcionário, diferentemente do supermercado, em que a pessoa vai no self check out e se ele tiver algum problema, ele chama, levanta a mão, procura alguém perto. No nosso caso a compra precisa funcionar, ser fluida e rápida. É um totem ou aplicativo. Tem essa redundância. Se um dos dois parar de funcionar, você tem a redundância, mas a compra mais fluída é pelo totem. É um totem supersimples, menor, não é um negócio que fica pedindo o CPF. Já a gestão do estoque, o franqueado faz isso de casa. Quanto ele está vendendo, o que não está na margem, o que tem que repor de produto, isso tudo. Nós queremos colocar mais inteligência nessa gestão de estoque.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual deve ser o investimento que vocês vão fazer este ano?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Ajudar o franqueado a comprar melhor e gerir melhor o estoque. Colocar inteligência artificial para ajudar a gerir melhor o estoque, saber o que comprar, quando comprar, quanto comprar – para não ter perda e não ficar com estoque a mais, nem a menos. Acho que esse é o passo que a gente quer dar.
AGÊNCIA DC NEWS – Quanto é o investimento inicial e quanto está faturando cada um?
GUILHERME DE OLIVEIRA – A taxa inicial de franquia é R$ 25 mil. Ele pode abrir quantas lojas quiser. A ideia é que a pessoa tenha mais de uma loja. Para abrir uma loja, ele vai gastar mais ou menos, com o estoque inicial, uns R$ 30 mil. Então, o investimento inicial da primeira loja é de R$ 50 mil a R$ 60 mil. Na segunda loja, ele já não paga mais a taxa de franquia. O faturamento médio das lojas está em torno de R$ 20 mil. Com margem líquida entre 15% e 25%.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é a vantagem de ter uma loja autônoma em vez de ter um mercadinho comum?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Os dois maiores custos de um varejo são pessoas e o aluguel. Isso faz com que essa margem, de 15% a 25%, seja muito mais alta numa loja autônoma, porque o franqueado não tem esses dois maiores custos, do que seria no varejo comum. Ele consegue fazer a gestão da loja de casa. Precisa visitar a loja a cada dois ou três dias, para limpar, repor o produto, enfim, arrumar alguma coisa. Então ele consegue gerir cinco, seis lojas sozinho, e a partir disso, precisa de um funcionário. Se ele tivesse loja física, precisaria de três, quatro funcionários para uma loja. É um investimento que traz retorno mais rápido. Ele investe menos para ter retorno mais rápido e consegue ter mais lojas. Não precisa estar na loja das 9h às 18h.
AGÊNCIA DC NEWS – E na questão do preço, como é a concorrência?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Ficamos entre uma loja de conveniência e o mercado. Mais ou menos próximo do mercado de bairro. O supermercado vai ser uma conveniência muito mais cara. A gente fica no preço do mercado de bairro, daquele mercado de esquina. Consegue ter preços competitivos porque também não temos esses dois maiores custos, aluguel e pessoas. A ideia não é que a pessoa faça compras do mês lá ou compras grandes. É ser uma conveniência.
AGÊNCIA DC NEWS – E a segurança, como é garantida?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Temos um sistema de trava próprio que atua na porta da loja. A pessoa entra entra na loja e a partir desse momento eu sei quem entrou. E meu sistema avisa se alguém entrar na loja e não fizer uma compra. Para entrar na loja, você precisa estar cadastrado – não entra sem cadastro. Isso é uma opção do franqueado, colocar a trava. Metade das lojas tem trava, metade não tem. Tem câmera, óbvio, mas não tem trava.
AGÊNCIA DC NEWS – Inteligência artificial ajudaria?
GUILHERME DE OLIVEIRA – Estamos testando um sistema de monitoramento com inteligência artificial, mas eles ainda não estão valendo a pena porque são caros demais, mais do que a perda. O roubo não é algo que impacta a nossa vida hoje, não é algo que tira o nosso sono. Hoje, em torno de 1,5% da receita de cada loja é perdida. Então não é algo que tira o nosso sono.