SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Imagine entrar no quarto do hotel e ser recepcionado pela mensagem “O minibar é por nossa conta”. No Wood Hotel, em Gramado (RS) , o hóspede que consome os biscoitos caseiros assinados pela chefe Roberta Sudbrack, as balas artesanais e as bebidas da geladeira, incluindo cerveja, suco, refrigerante e água, não desembolsa um tostão além da diária, a partir de R$ 900 para o casal.
Rafael Peccin, diretor de marketing do grupo Casa Hotéis, que engloba o Wood, garante que o investimento compensa. “O consumo do frigobar nunca foi expressivo em nossos hotéis e incluir os itens na diária vira conforto para o cliente, além de facilitar nosso controle da operação.”
Peccin não está sozinho. É crescente o número de hotéis, de diferentes perfis e padrões, empenhados em fazer o hóspede esquecer aquela incômoda sensação de fazer o check-in e ouvir o click do taxímetro sendo acionado.
Vários começam pelo frigobar, um dos principais alvos de avaliações negativas em função dos preços abusivos -nesse caso, o conteúdo costuma ser reduzido, sem miniaturas de bebidas alcoólicas.
Nas dois hotéis Pullman de São Paulo, na Vila Olímpia e em Moema, que somam 521 quartos, as diárias de casal a partir de R$ 1.970 dão acesso livre à geladeira com refrigerantes, águas e sucos.
No extremo oposto em termos de tamanho, o recém-inaugurado Íz Hotel Conceito, em Goiânia (GO) , tem apenas três suítes e adotou a mesma prática: águas com e sem gás, bebida achocolatada, sorvetes e petiscos estão incluídos na diária, a partir de R$ 2.500.
Empreendimento recente do grupo Emiliano, o V3rso, no bairro Jardim Paulista, em São Paulo (a partir de R$ 1.790), não só liberou o minibar como personalizou a experiência -no ato da reserva, o hóspede preenche um questionário e indica preferências.
Mas os mimos gratuitos não se limitam ao frigobar. Dentro e fora do Brasil, hoteleiros estão oferecendo presentes e experiências que reforçam a identidade do empreendimento, apresentam a cultura do lugar onde ele está inserido e ajudam a reforçar o vínculo com o hóspede.
A prática começa com os kits de boas-vindas. Pode ser o vinho e a cesta de frutas que recepcionam os hóspedes do Emiliano São Paulo; os chinelos e a bolsa de praia entregues a quem faz o check-in na Pousada Capim Santo, em Trancoso (BA); ou a garrafa de vinho do Porto que recepciona a clientela do Tivoli Kopke Porto Gaia, no Porto, norte de Portugal.
Itens de produção artesanal local estão em alta. No LK Design, em Florianópolis (SC), um bilhete de boas-vindas escrito à mão acompanha peças decorativas do folclore catarinense e outros itens escolhidos conforme o perfil do hóspede -pode ser um livro sobre restaurantes da ilha, eleita Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, ou um porta-copos de renda de bilro.
Comidinhas também têm grande apelo. Em Maceió , o Sais Beach Living Hotel brinda quem chega com cocada de capim-limão e flor de sal dentro de cesta produzida pelas artesãs da associação Mulheres de Fibra, de Maragogi. Em Paris, o Mandarin Oriental Lutetia apresenta a pâtisserie francesa aos hóspedes, ao presenteá-los com esculturas de chocolate que representam a capital francesa.
Os paparicos podem se estender por todo o período de hospedagem. Quem se instala em uma das espreguiçadeiras à beira da piscina do Carmel Taíba Exclusive Resort, no Ceará , é brindado com coquetel frozen, espetinho de frutas e toalhinha gelada, pode pedir que limpem seus óculos e usar protetor solar para corpo, rosto e cabelo oferecidos pelo hotel.
Vivências que tradicionalmente eram cobradas à parte também entram no pacote de gentilezas. No carioca Sheraton Grand Rio, não se paga nada a mais para participar das aulas de ioga ou de culinária, nem para usar o serviço de transporte para pontos estratégicos da parte mais central do Leblon, bairro que abriga o hotel.
No interior de São Paulo, as três unidades do Clara Resorts incluem nas diárias atividades esportivas e de aventura, aulas de culinária ou de drinques, harmonizações de queijos e vinhos e oficinas de artes. A adesão é alta: 75% dos hóspedes participam de, pelo menos, uma das atividades durante a estadia.
As diárias, a partir de R$ 1.433, dão direito a pensão completa, mas fogem do padrão ao permitir acesso livre a máquinas de café Starbucks e máquinas de sorvete durante as refeições. Nas suítes, há cafeteiras com cápsulas liberadas.
Segundo a presidente do grupo Clara Resorts, Taiza Krueder, pós-graduada em gestão hoteleira e de restaurantes pela Ferrandi Paris, os mimos embutidos nas diárias fazem com que a clientela se sinta à vontade.
“A pessoa pode usufruir do sem a sensação de estar tomando uma decisão de consumo a todo momento, sem pensar quanto aquilo custaria a mais. Um resort é um ambiente para relaxar”, defende.
Nas aulas do curso de turismo e hospitalidade da universidade Anhembi-Morumbi, o professor Alan Guizi ensina que hotelaria e hospitalidade são conceitos diferentes. “Os hotéis estão dando um passo em direção à hospitalidade de verdade, um fenômeno baseado em acolhimento”, afirma.
Para o hóspede, ele acredita, a maior vantagem é saber de antemão quanto vai pagar no check-out, sem surpresas. “Assim, ele tem certeza de quanto pode gastar no restante da viagem”, diz.
Para os hoteleiros, os benefícios vêm na forma de recorrência e boas avaliações em redes sociais e sites como o Tripadvisor.
Embora a prática tenha nascido nos hotéis de alto padrão, ele acredita que estabelecimentos mais simples vão acabar seguindo a tendência.
“São cada vez mais comuns os posts alertando sobre golpes nas pequenas cobranças efetuadas pelos hotéis, e eles estão entendendo que isso não é um bom negócio. Por outro lado, um hóspede feliz conta sua experiência e recomenda o hotel”, diz Guizi.