Inadimplência fica estável em SP, mas dados do BC e IBGE indicam dívida longa e renda ainda pressionada

Uma image de notas de 20 reais
Em janeiro, atraso médio é de 64 dias e 27,5% da renda comprometida com dívidas, diz Fecomercio
(IA/Freepik)
  • Banco Central mostra crédito PF elevado e prazos longos, enquanto IBGE indica renda avançando sem aliviar serviço da dívida
  • Pesquisa da FecomercioSP aponta atraso médio maior e renda comprometida, com núcleo de famílias sem capacidade de pagamento
Por Pedro Jansen

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A inadimplência atinge 19,9% das famílias paulistanas em janeiro, enquanto o endividamento alcança 68,9% dos lares, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da FecomercioSP. O levantamento mostra atraso médio de 64 dias e 27,5% da renda comprometida com dívidas. O número de famílias endividadas supera 3 milhões, das quais cerca de 892 mil têm contas em atraso, de acordo com a entidade. Os indicadores apontam estabilidade frente aos meses anteriores, mas mantêm patamar elevado de obrigações financeiras, restringindo espaço para consumo e amortização de débitos no início de 2026.

No sistema financeiro, as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central do Brasil mostram que o estoque de crédito às pessoas físicas permanece em nível elevado, com expansão concentrada em modalidades de prazo longo. O crédito direcionado, que inclui o financiamento imobiliário, ganha participação relativa, enquanto linhas rotativas e de curto prazo perdem peso no total. O indicador de endividamento das famílias, divulgado pelo Sistema Financeiro Nacional, segue próximo dos maiores níveis da série histórica, refletindo comprometimento relevante da renda com o serviço da dívida. As séries de Inadimplência do Crédito Livre para Pessoas Físicas, também nas Estatísticas de Crédito do BC, permanecem acima do padrão observado antes da pandemia.

O alongamento dos prazos das operações, também observado pelo Banco Central, reduz o valor das parcelas mensais, mas amplia o tempo de vínculo das famílias com contratos financeiros. Esse movimento suaviza picos de atraso no curto prazo, ao mesmo tempo em que mantém rigidez do orçamento por período prolongado. Com parcelas diluídas, o ajuste ocorre via horizonte mais longo, e não por redução expressiva do estoque de dívida. O resultado é cenário de menor volatilidade dos indicadores de inadimplência, porém com persistência do comprometimento da renda, conforme os dados oficiais do BC.

No mercado de trabalho, a PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, indica avanço da ocupação e crescimento da massa de rendimentos. O ganho real de renda, porém, ocorre de forma gradual. Parte desse aumento é absorvida por prestações já contratadas, o que limita o alívio efetivo no orçamento das famílias endividadas. O patamar de 27,5% de renda comprometida observado na capital paulista, segundo a PEIC da FecomercioSP, é compatível com o quadro nacional de pressão do serviço da dívida apontado pelas séries de comprometimento de renda divulgadas pelo Banco Central

A composição das dívidas também se altera. O cartão de crédito segue como principal modalidade entre famílias endividadas, mas sua participação recua na comparação anual. Em sentido oposto, o financiamento imobiliário se aproxima do maior nível da série histórica, alcançando 16,8% das famílias endividadas na capital, segundo a PEIC da FecomercioSP. O deslocamento para contratos de longo prazo reduz risco de explosões imediatas de inadimplência, mas aumenta a rigidez das despesas fixas. Compromissos imobiliários, em geral indexados e de longa duração, diminuem a capacidade de ajuste rápido diante de perda de renda ou elevação de gastos essenciais, prolongando o período necessário para recompor a situação financeira.

Outro sinal de cautela aparece na demanda por novo crédito. A intenção de contratar empréstimo ou financiamento nos próximos meses recua para 10,6%, ante 11,4% no período anterior, segundo a PEIC da FecomercioSP. Entre os que planejam crédito, 83,5% indicam destinar recursos ao consumo e 11,9% ao pagamento de dívidas, sinalizando que a maior parte do crédito buscado ainda não se dirige à reorganização financeira. A combinação entre crédito elevado no sistema, renda que cresce de forma gradual e dívidas mais longas sustenta quadro de estabilização dos atrasos, porém sem melhora estrutural expressiva do balanço das famílias no começo de 2026.

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