SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com o destaque da cadeia de minerais críticos nas discussões políticas, o interesse popular por esse segmento cresceu nos últimos meses. Agora, até corretoras de investimentos passaram a oferecer produtos ligados ao setor para investidores brasileiros, inclusive aqueles não qualificados.
Analistas ouvidos pela reportagem, no entanto, apontam para os riscos dessas operações, que estão sujeitas à volatilidade da economia global.
A forma mais fácil para um investidor brasileiro não qualificado com patrimônio investido inferior a R$ 1 milhão aplicar recursos na cadeia de minerais críticos é por meio de certificados listados na B3, a Bolsa de Valores do Brasil, que representam ações de mercados estrangeiros. Há hoje BDRs (como são chamados esses certificados) que acompanham a variação de fundos americanos especializados no setor de mineração.
Na prática, ao comprar um BDR do tipo na B3, o investidor brasileiro passa a estar exposto aos chamados ETFs, sigla para fundos temáticos listados na Bolsa, bastante comuns no mercado americano. Nos EUA, há uma série desses fundos que se especializaram em comprar apenas ativos ligados à mineração, e alguns apresentam variação de cerca de 100% nos últimos 12 meses.
Um exemplo é o Bura39, um BDR que representa papéis de um fundo americano especializado em comprar ações de empresas da cadeia do urânio.
Em meio ao aumento da procura por esse mineral associado à geração de energia nuclear, o certificado valorizou mais de 95% nos últimos 12 meses. O papel foi criado pela Global X, uma das principais gestoras do mundo especializadas em fundos temáticos.
Outros produtos geridos por ela no Brasil são o BCPX39, especializado na compra de ações de empresas de cobre, um mineral essencial para todo o sistema elétrico, e o BLBT39, ligado à cadeia de lítio e baterias. Esses certificados valorizaram 77% e 65%, respectivamente, nos últimos 12 meses.
Apesar da valorização, no entanto, analistas apontam que o investidor que optar por comprar esses papéis deve estar ciente dos riscos envolvidos na operação.
“Hoje há um movimento de transição energética e descarbonização, então, olhando isoladamente esse aspecto, há sim um grande potencial de valorização. Mas há outros fatores importantes, como as tensões geopolíticas, que fazem com que haja uma volatilidade enorme nesse mercado”, afirma Eduardo Cardoso, sócio da gestora Ore Investment. “Portanto, há de ter muito cuidado e cautela quando se decide seguir por esse caminho.”
O lítio é um bom exemplo da volatilidade mencionada por Cardoso. Desde 2022, o preço do mineral já caiu cerca de 90% devido a um ritmo menos acelerado da transição energética do que os analistas esperavam. A queda do preço reflete nas ações das empresas do setor, que consequentemente afetam os fundos que compram esses papéis. A mesma volatilidade é comum no mercado de outros minerais críticos, como níquel e cobalto.
De acordo com Leonardo Laport, chefe de Equities Global para a América Latina no banco Jefferies, é possível também investir diretamente nos ETFs americanos, sem necessariamente comprar um BDR. Nesse caso, investidores brasileiros podem adquiri-los por meio de corretoras que permitem a compra de ações no mercado financeiro americano algo comum entre as mais populares do Brasil, como XP, BTG, Inter e Avenue Itaú.
A estratégia pode ser boa para aqueles investidores que buscam maior diversificação dos papéis, já que as Bolsas americanas contam com mais opções de fundos. Por outro lado, ao investir diretamente em dólar o investidor deve considerar também o câmbio ao medir a valorização do ativo. Além disso, as receitas com a venda desses ativos também estão sujeitas ao Imposto de Renda.
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CONHEÇA 8 MINERAIS CRÍTICOS
Terras raras
Níquel
Lítio
Cobalto
Nióbio
Cobre
Manganês
Grafite
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Entre os ETFs ligados ao setor conhecidos no mercado americano estão o Remx, gerido pela gigante VanEck, e o Eart, da Global X. Ambos focam a gestão de ativos ligados a terras raras e outros minerais críticos e tiveram valorização nos últimos 12 meses de 124% e 104%, respectivamente.
“Se a ideia é acessar setores específicos, os ETFs são uma ferramenta eficiente, porque permitem diversificar o investimento entre várias empresas”, afirma Laport. “Por outro lado, alguns desses segmentos são naturalmente mais expostos a ciclos de preços, mudanças no cenário macro e tensões geopolíticas, o que pode resultar em maior volatilidade”, acrescenta.
AÇÕES
Além de fundos, os brasileiros interessados em investir na cadeia de minerais críticos podem comprar diretamente ações de empresas do setor.
A Vale, por exemplo, é uma das principais empresas listadas na B3 e viu suas ações valorizarem 46% nos últimos 12 meses. Mas, apesar de a mineradora também extrair níquel e cobre, seus papéis estão mais ligados ao preço do minério de ferro, que não é considerado um mineral crítico.
Cardoso, da Ore Investment, lembra que o investidor brasileiro também pode optar por comprar BDRs de ações de mineradoras listadas fora do país. Um exemplo são os certificados da Sigma Lithium, a maior mineradora de lítio com operação no Brasil. A empresa está listada na Bolsa de Toronto e na Nasdaq, mas tem certificados na B3 eles desvalorizaram 4,35% nos últimos 12 meses.
Outras companhias de minerais críticos com certificados na B3 são MP Materials (valorização de 124,34% nos últimos 12 meses), Albemarle (110,8%), Rio Tinto (31,32%) e Brasil Potássio (143,53%).