Irã enfrenta desgaste do projeto criado por Khomeini

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 1979, 98,2% dos iranianos foram às urnas para dizer “sim” a um novo modelo de vida, votando pela transição de uma monarquia secular para a primeira teocracia islâmica do mundo moderno. Em 2026, o eco desse referendo é abafado pelos gritos de protestos internos e da comunidade internacional.

O regime que nasceu como um projeto de libertação nacional com a Revolução Iraniana enfrenta sua maior crise de legitimidade desde a morte de Mahsa Amini, em 2022, e a sombra do aiatolá Ruhollah Khomeini é uma constante sobre esse processo de ruptura.

Nascido em 1902, Khomeini construiu seu nome no islamismo xiita —onde se tornou um aiatolá, título dado aos líderes do mais alto escalão na religião, nos anos 1950— e na oposição ferrenha ao reinado do xá Mohamed Reza Pahlavi. O xá —título do monarca soberano do Ir㗠tinha uma alta rejeição popular. Seu governo pautava o desenvolvimento do Irã, ao passo em que usava a repressão do serviço de inteligência e segurança internapara controlar opositores.

“O xá pensava no seu projeto de Estado iraniano como um ‘Make Iran Great Again’, incentivado pelo boom do petróleo em meados de 1973 para modernizar o Irã”, afirma Paulo Botta, professor da PUC Argentina e diretor do centro latino-americano do think tank Trends Research. “Para isso, aproximou o país do Ocidente e se separou da religião, o que não agradou em nada os clérigos.”

Para Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, o Irã não era apenas um parceiro, mas a peça-chave dos Estados Unidos no Oriente Médio, com quem Washington tinha a maior aliança petrolífera e militar. “Essa ocidentalização era tamanha que a própria rainha do Irã [a esposa do xá, Farah Pahlavi] aparecia em fotos de maiô em iates, um padrão europeu impensável para os dias de hoje”, diz.

Exilado em 1964, Khomeini se tornou relevante no Iraque. Em 1977, ele culpou o xá pelo assassinato de seu filho mais velho foi morto e conquistou o apoio de grupos de esquerda, clérigos moderados e comerciantes contra o reinado. Para Botta, naquele momento não havia mais ninguém tão apto para assumir o poder do país quanto Khomeini.

Embora o levante tenha demorado a acontecer, Khomeini passou seu tempo de exílio operando uma rede de propaganda clandestina, onde gravava sermões em fitas cassete que circulavam clandestinamente por mesquitas iranianas, mantendo o sentimento de revolta vivo enquanto angariava apoiadores.

Quatorze anos depois —com a pressão do xá sobre o então vice-presidente iraquiano Saddam Hussein—, o aiatolá partiu para a França, onde vendeu ao Ocidente a imagem de um líder pacífico e sem intenções de assumir cargos políticos. Daí em diante, sua legitimidade cresceu conforme o aparato repressivo de Pahlavi derretia.

“O xá caiu quando a polícia e as Forças Armadas se recusaram a continuar seguindo suas ordens de reprimir o povo”, diz Rudzit. Sem seus soldados, o monarca não tinha mais poder. Pahlavi então fugiu do Irã com sua família em 1979, buscando asilo no Egito e deixando o caminho livre para a volta de Khomeini.

Não se esperava, contudo, que o aiatolá romperia com os ideais que cultivava no exílio. Ao chegar no Irã, ele formou um governo provisório que perdurou até a aprovação da República Islâmica, onde consolidou a traição aos movimentos que o apoiaram e mudou a forma da sociedade iraniana.

Essa estratégia foi considerada um golpe planejado. “Toda vez que Khomeini recebia a imprensa ocidental, ele dizia que apoiava um Estado liberal. Só que, quando toma o poder, ele implementa uma teocracia. Foi um golpe na parte da sociedade que queria derrubar o xá para ter liberdades constitucionais”, afirma Rudzit.

Khomeini se estabeleceu, portanto, como uma figura folclórica de poder, que se exprime também nos líderes que o sucederam. “Sua persona era a de um líder inabalável, que ninguém poderia combater. Apesar de seu sucessor [Ali Khamenei] ter construído sua reputação do zero, o posto do líder supremo sempre remeterá ao primeiro aiatolá”, diz Botta.

Mesmo antes dos ataques de EUA e Israel que levaram à morte de Khamenei, o regime iraniano convivia com crises econômicas e a intensificação de protestos, liderados em especial pelos jovens. Agora, o sistema enfrenta está em xeque: a ascensão de nomes como Mojtaba Khamenei, filho do líder morto, se dará pela fé nos ideais de 1979 ou apenas pela força bruta da estrutura que restou?

Para Botta, pouco deve mudar. “O governo iraniano sabe controlar insurreições, pois aqueles que fazem parte dele hoje já participaram de uma”, diz.

O desafio agora é saber se a estrutura montada por Khomeini consegue sobreviver a uma população que, em sua maioria, já não partilha do ímpeto que fundou a República Islâmica.

“Mais da metade da população iraniana hoje é formada por pessoas que não viveram a revolução. Para eles, o fervor religioso de 1979 não tem a mesma importância”, afirma Rudzit.

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