[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O ano de 2026 “não terá grande alívio para empresas e para o consumidor final”, mesmo com a perspectiva de início de um ciclo de corte na taxa básica de juros (Selic) em março. Para o professor da FGV Ricardo Meirelles de Faria, além de os efeitos demorarem a aparecer, o provável ajuste a partir do mês que vem irá apenas “compensar” a recente desaceleração inflacionária. “Haverá um ajuste marginal, mas o juro real alto vai continuar”, afirmou Faria, que é também economista-chefe da Linus Galena. A consultoria se classificou em duas categorias (Câmbio e IPCA Administrados) no ranking anual do Focus Top 5, divulgado na semana passada pelo Banco Central. A edição mais recente do Indicador de Tendência de Consumo e Varejo, da FGV, aponta vendas do comércio em menor ritmo neste ano.
No relatório divulgado em dezembro, a projeção para o crescimento do varejo restrito é de 1,1% em 2025 (a anterior era de 1,2%) e de 0,5% em 2026 (0,7%). “Pessimista perto do mercado”, disse Faria. Para o PIB, 2,1% e 2,4%, respectivamente. Se a projeção para as vendas de 2026 se confirmar, será o resultado mais fraco desde 2016. Os dados anuais da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) serão divulgados pelo IBGE na próxima sexta-feira (13). Já o resultado final do PIB 2025 sairá daqui a um mês, no dia 3 de março. Em 2024, o PIB cresceu 3,4% e as vendas no varejo, 4,7% (maior alta da PMC desde 2012).
“O endividamento das famílias continua alto, o crédito continua caro”, afirmou o economista. “Temos uma taxa de câmbio mais apreciada, que ajuda no poder de compra, mas não faz tanta diferença.” Ele observa que a política monetária está fazendo efeito contra a inflação. A Selic foi a 15%/ano em junho. Naquele mês, o IPCA acumulado em 12 meses somava 5,35%. Em dezembro, resultado mais recente, passou a 4,26%. “O ajuste que vai começar em março só compensa essa queda da inflação.” Ou seja, por essa ponderação a Selic iria de 15% para 14%. Segundo Faria, a inflação deste ano ficará em torno de 4% – projeção em linha com o mais recente Boletim Focus, do BC (3,99%).
CONSUMO – Em relação ao varejo, o economista vê “famílias focadas no consumo de bens essenciais”, como alimentos e remédios, e menos voltadas para itens de maior valor. “Elas sentem o efeito do crédito alto e estão tentando reduzir seu endividamento”, afirmou. Assim, para o setor que inclui hiper&supermercados, além de produtos alimentícios, a estimativa é de variação de 0,5% em 2025 (refletindo a inflação dos alimentos, agora em ritmo menor) e 1,4% neste ano (+4,6% em 2024). Para tecidos&vestuário, +1,2% e -4,9%, respectivamente (+2,8%). Para móveis&eletrodomésticos, +2,8% e -2,1% (+4,2%). Já as vendas de artigos farmacêuticos devem continuar em alta (+3,4% e +4,3%), embora com desaceleração (+14,2% em 2024). A próxima edição do relatório, já refletindo os resultados completos de 2025, será publicada em março.
Será também o mês do esperado início do ciclo de corte de juros, como sinalizou o próprio Comitê de Política Monetária (Copom) na ata da reunião mais recente, realizada em 27 e 28 de janeiro. O colegiado afirmou no documento que “julgou adequado sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa de juros em sua próxima reunião”, marcada para 17 e 18 de março.
Segundo o Copom, “a condução cautelosa da política monetária tem contribuído para se observar ganhos desinflacionários”. Mas, ao mesmo tempo, o comitê sustenta a necessidade de manter os juros “em níveis restritivos”. O objetivo é consolidar não apenas a desinflação, “como também a ancoragem das expectativas à meta”. O centro da meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual. Segundo o Copom, alguns fatores que pressiona preços mostram resiliência – em especial o “dinamismo ainda observado no mercado de trabalho”.