SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em um novo movimento no tabuleiro da guerra do delivery, a Keeta, braço internacional do gigante chinês Meituan, anunciou o adiamento do início de suas operações na cidade do Rio de Janeiro, antes marcado para a próxima semana.
Foi cancelado um evento de lançamento marcado para esta quinta-feira (26), com presença de representantes da prefeitura. A empresa ainda não anunciou uma nova data de chegada à capital fluminense.
Em entrevista à reportagem, o CEO da empresa, o chinês Tony Qiu, culpou os contratos de exclusividade firmados entre restaurantes e os concorrentes iFood e 99Food. “O cenário é ainda pior do que havíamos projetado, e pior do que encontramos em São Paulo”, disse o executivo. A Keeta começou a operar, no fim do ano passado, em Santos e depois expandiu seus negócios para a capital paulista.
“Das cerca de 800 grandes redes de restaurantes que nós identificamos no Rio de Janeiro, mais de 400 estão presas a essas cláusulas, o que dificulta muito o nosso trabalho e compromete nossa equipe”, afirmou Qiu.
O iFood, que detém cerca de 80% do mercado brasileiro de delivery de alimentos, enfrenta restrições a esses contratos impostas em um acordo firmado com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), a autoridade responsável por manter a competitividade no Brasil. Há limitações em relação a volume de receita, número de lojas exclusivas em uma mesma cidade e tamanho das redes com que a plataforma pode firmar contratos deste tipo.
Procurado pela reportagem, o iFood afirmou que é incorreto afirmar que o mercado de delivery carioca esteja fechado à concorrência. “Nos causa estranheza que os contratos de exclusividade estejam impactando uma determinada plataforma, sem atingir outros concorrentes que seguem investindo na cidade e expandindo suas operações”, disse o aplicativo em nota.
Questionada por email e WhatsApp, a 99Food não se pronunciou até a publicação da reportagem.
A Keeta já questionou os contratos de exclusividade da 99Food no Cade. Na ocasião, o órgão concorrencial avaliou que as cláusulas eram compatíveis com as condições que impôs ao iFood e não interveio.
Em petição enviada ao conselho em janeiro, a 99Food afirmou que esses acordos são “legais, temporários e aplicados a uma parcela limitada de restaurantes”.
Segundo Qiu, a Keeta mantém diálogo constante com o Cade sobre “problemas de concorrência desleal” que identifica e levará os dados sobre a atual situação do mercado carioca. “Nós esperamos uma resposta das autoridades, antes de avaliar cenários de judicialização.”
Ainda de acordo com Qiu, o Brasil tem o pior cenário de competição que a empresa, atuante também em Hong Kong e na Arábia Saudita, além do mercado chinês, já encontrou. “Na China e em Dubai, esses contratos de exclusividade são proibidos. Em Hong Kong, pode, mas há um limite.”
Quando a Keeta começou a operar no país, no último mês de outubro, a empresa se comprometeu a investir R$ 5,6 bilhões no Brasil ao longo de cinco anos e a trazer a tecnologia da Meituan, a principal empresa do setor na China. “Vemos muito potencial de consumo no Brasil e planejamos manter nosso compromisso”, afirmou Qiu.
Desde que começou a operar em São Paulo, o aplicativo chinês foi baixado mais de 2,8 milhões de vezes e a base de restaurantes subiu 37%, de acordo com dados divulgados pela empresa. “Os resultados estão em linha com a nossa meta”, disse o executivo.