Laura Bumachar, da Dias Carneiro Advogados: "Após recorde, RJs no varejo só deverão encolher em 2027"

Uma image de notas de 20 reais
Segundo a advogada, um terço das empresas que entram em recuperação judicial se recuperam
(Dvulgação)
  • Recuperações judiciais no varejo sobem 19% em um ano e atingem maior patamar recente, pressionadas por juros elevados
  • Pico das RJs em 2025 reflete juros altos, e melhora do varejo depende de alívio monetário a partir de 2027, diz advogada
Por Bruno Cirillo

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O número de empresas do varejo em recuperação judicial no Brasil cresceu 18,9% em um ano, passando de 913 no terceiro trimestre de 2024 para 1.086 no terceiro trimestre de 2025, segundo o Índice de Recuperação Judicial (IRJ-RGF) – o maior patamar recente do indicador. Para a advogada especialista em reestruturação empresarial Laura Bumachar, sócia do Dias Carneiro Advogados, o avanço reflete o impacto dos juros elevados e pode marcar o auge do ciclo de deterioração. “É um ano recorde por causa dos juros. Quem consegue pagar?”, afirma. Segundo ela, o alívio depende diretamente da política monetária, e um cenário de redução significativa no número absoluto fica só para 2027: “Esses juros realmente precisam baixar para que o empresário possa ter um fôlego e pagar as suas dívidas”.

O impacto não é homogêneo entre os segmentos. O maior volume absoluto de empresas em recuperação está no varejo de combustíveis (134 casos, ou 3,33 empresas em RJ a cada mil ativas), seguido por supermercados, com 74 (4,59 a cada mil), e vestuário e acessórios, com 59 (1,49 a cada mil). Proporcionalmente, porém, a pressão é mais intensa em nichos como o atacado de defensivos agrícolas, adubos e fertilizantes (8,93 a cada mil) e o atacado de medicamentos (7,91), além do varejo de automóveis novos (5,72) e do atacado de produtos alimentícios em geral (5,40). Setores ligados à cadeia automotiva também figuram entre os mais pressionados, enquanto áreas mais pulverizadas, como minimercados e varejo de calçados, apresentam índices menores.

Para os varejistas que estão entrando em processo de recuperação judicial, Bumachar diz que o importante é ter disponibilidade de caixa suficiente para enfrentar um processo “caro, sofrido e demorado”. Quem tem que ter mais cautela ainda, segundo ela, são os credores. A tendência, no decorrer de uma RJ, é que o crédito fique ainda mais restrito. “Se não tem condição, o ideal é pedir falência e não ficar em RJ, perdendo tempo e gastando dinheiro.” Há 30 anos trabalhando no segmento, Bumachar destaca que nunca viu um cenário parecido com o atual, que se agravou nos últimos três anos. Do total de pedidos de RJs, cerca de um terço das empresas consegue se recuperar. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você avalia o atual cenário de recuperações judiciais, especificamente no varejo? 
LAURA BUMACHAR – Em 2025, cresceu bastante. Teve recorde de processos de recuperação judicial. Ano passado acho que o varejo saiu na frente, se não me engano, ou o setor de serviços. No ano passado, se eu não me engano, é o agronegócio, mas o varejo continua sofrendo bastante com esses juros altíssimos. Também com a inadimplência no final das contas. Porque uma coisa leva a outra. É bastante processo de recuperação judicial. Não só o varejo está sofrendo bastante como também o setor de serviços e o agronegócio. 

AGÊNCIA DC NEWS – Dá para dizer que o varejo em 2025 foi o setor com mais recuperação judicial? 
LAURA BUMACHAR – O que mais teve recuperação judicial no ano passado foi o agronegócio. Os dados são preliminares, mas também não é tanto assim à frente. 

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é a primeira cautela que o varejista tem que ter quando ele vê que a empresa dele vai realmente entrar em recuperação judicial?
LAURA BUMACHAR – Quem tem que ter cautela são os credores. O varejista, acho que a coisa principal é entrar em recuperação judicial com caixa. Porque o crédito fica ainda mais restrito depois que você faz a recuperação judicial. O crédito já está restrito, e depois que você pede a recuperação judicial, ele fica mais restrito ainda. O meu principal conselho para o varejista é que ele entre com um processo de recuperação judicial ou com caixa porque é um processo caro, sofrido, demorado e o acesso ao crédito vai ficar bem menor. 

AGÊNCIA DC NEWS – Às vezes é melhor pedir falência? 
LAURA BUMACHAR – Depende da situação. Se você não tem condição de se recuperar, o ideal é que você peça a falência e não fique em recuperação judicial, perdendo tempo, gastando dinheiro, enfim, se você não tem chance de recuperação – isso quem vai dizer para ele certamente é um assessor financeiro, muito fácil de ver, porque a matemática no final do dia é a falência. Embora os brasileiros tenham um certo pânico de falência e a gente não tenha muito uma cultura de falência no Brasil, você vê várias empresas amargando um processo de recuperação judicial, durante anos e mais anos, acaba o processo e na sequência pedem falência. 

AGÊNCIA DC NEWS – O número de processos tem aumentado ou se mantém?
LAURA BUMACHAR – 2025 foi um ano recorde por causa dos juros, quem consegue pagar? O nosso juros é o segundo maior do mundo, se eu não me engano. Só está atrás da Turquia: 15% ao ano é inviável, não tem como. É um custo altíssimo do capital e você tem acesso restrito ao crédito porque a recuperação de valores no Brasil é muito baixa comparada a outros lugares do mundo, então o crédito fica mais restrito ainda. Você precisa ter garantias para poder pegar crédito a um juro altíssimo. O CDI também é altíssimo, então fica inviável, você não consegue. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quer dizer, você avalia a política monetária atual como prejudicial para os negócios?
LAURA BUMACHAR – Não tenho a menor dúvida, por causa da política monetária e também do governo que gasta enlouquecidamente. Eu não sou economista, sou advogada, mas esse juro está do jeito que está porque o governo também não tem o menor compromisso com o gasto público. Uma coisa vai levando a outra e não tem muita solução, mas acho que esses juros realmente precisam baixar para que o empresário possa ter um fôlego e poder pagar as suas dívidas. 

AGÊNCIA DC NEWS – Você compararia esse período de tantas recuperações judiciais a qual época? 
LAURA BUMACHAR – Nos dois últimos anos (nada parecido), até porque antigamente, até 2005, a gente não tinha uma lei de recuperação judicial, que é tão específica. A gente usava a 7661, que era uma lei de falências e que só abrange credor que não é grafado. Não dá nem para você fazer esse tipo de comparação. Mas eu posso te dizer que eu acho que do que a gente está vivendo aqui, os últimos três anos foram drásticos. 

AGÊNCIA DC NEWS – Esses processos costumam demorar quanto tempo? A maior parte das empresas consegue de fato se recuperar?
LAURA BUMACHAR – Não, a maior parte não consegue se recuperar. Eu acho que o último número que vi é do Serasa, que 33% ou 34% conseguiram se recuperar, o resto não consegue. É um processo em que você dá a entrada e o maior benefício dele é que ele suspende imediatamente todas as dívidas e cobranças, em face do devedor, pelo prazo de 180 dias, que pode ser prorrogado por mais 180 dias. No desespero, o que acontece? Começa uma execução aqui, outra ali, a penhora de caixa do devedor, ele vai lá e entra correndo com o processo de recuperação judicial para ter a suspensão desses pagamentos. Apresenta um plano no prazo de 60 dias e, segundo a lei, em dois anos essa recuperação judicial deve estar fechada. Não quer dizer que o plano precisa estar cumprido, a recuperação judicial deve estar fechada, mas na prática não é o que acontece, tem processos que duram cinco, seis, sete anos às vezes. 

AGÊNCIA DC NEWS – Você acha que o Judiciário está mais rigoroso ou previsível na análise desses pedidos? 
LAURA BUMACHAR – Na verdade, o Judiciário tem que verificar se o pedido está em termos. O que quer dizer pedido em termos? Se eles apresentaram o documento necessário. Eventualmente pode haver uma verificação se a companhia é elegível ou a não recuperação judicial por conta de uma perícia. Se ela não tem condição de se recuperar, mas acho que o Judiciário vem deferindo esses processos de recuperação e está bem previsível em relação a isso. Eu não vejo o Judiciário falando: “Não, eu vou deferir o processo de recuperação judicial”. Eventualmente te pede uma perícia para verificar se realmente a empresa tem condições de recuperação. Nunca vi indeferir uma recuperação judicial. 

AGÊNCIA DC NEWS – Para 2026, como você vê o cenário? Acha que existe a possibilidade dos juros começarem uma tendência de queda? 
LAURA BUMACHAR – Acho que a tendência ainda é de alta em 2026. E que o alívio só virá em 2027. O endividamento está muito elevado, os juros vão continuar altos, vão cair, mas continuarão altos. Não acho que em 2026 a gente já vai ter um alívio. Com a queda dos juros em 2027, deve melhorar substancialmente. 

AGÊNCIA DC NEWS – Qual dica daria para um varejista que está considernado entrar em RJ?
LAURA BUMACHAR – Acho que é importante citar que dentro de qualquer processo de recuperação judicial as garantias precisam ser respeitadas. Você não pode é vilipendiar essas garantias ou tornar um credor que não é sujeito à recuperação judicial, porque tem alienação fiduciária – é sujeito a ela só e ao pretexto de salvar a empresa. Porque isso torna mais difícil ainda o processo de recuperação judicial. Eles exigem mais ainda do crédito.

Voltar ao topo