Líder do golpe em Mianmar renuncia ao comando das Forças Armadas para concorrer à Presidência

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Num movimento dos militares para manter o controle político de Mianmar sob a aparência de um governo civil, o general Min Aung Hlaing deixou nesta segunda-feira (30) o comando das Forças Armadas para disputar a Presidência, cinco anos após o golpe de Estado que derrubou a administração eleita.

A decisão ocorreu após eleições gerais realizadas de dezembro a janeiro e vencidas por um partido apoiado pelos militares. Na ocasião, o PSDU (Partido de Solidariedade e Desenvolvimento da União), legenda vencedora, conquistou 193 dos 209 assentos na Câmara baixa e 52 dos 78 assentos na Câmara alta. O pleito recebeu críticas das Nações Unidas e de vários países, que o classificaram de farsa.

Também se dá num momento de crise política no país. O golpe que retirou do poder o governo eleito liderado por Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz, motivou protestos massivos. E as Forças Armadas passaram a reprimir os atos com violência, o que desencadeou uma guerra civil ainda em curso.

O conflito já deixou pelo menos 93 mil mortos, deslocou mais de 3,6 milhões de pessoas e agravou a situação de uma economia já fragilizada, de acordo com estimativas citadas pela agência Reuters.

Mesmo num ambiente turbulento, a junta organizou novas eleições, das quais foram excluídos o partido de Suu Kyi e outros grupos de oposição —o que garantiu a vitória das legendas ligadas aos militares.

Em Mianmar, a eleição presidencial é indireta e ocorre com participação do Parlamento. Deputados da Câmara Baixa indicaram dois nomes para o cargo de vice-presidente, entre eles, o do general Min Aung Hlaing. A Câmara Alta ainda deve escolher outro candidato, e os três serão submetidos a votação para a escolha do presidente. A data desse pleito ainda não foi anunciada.

Analistas apontam que a candidatura de Min Aung Hlaing à Presidência é um objetivo antigo. “Sempre foi esse o plano: passar de líder militar a presidente”, disse o analista independente Htin Kyaw Aye à Reuters.

Hlaing, que comandava as Forças Armadas desde 2011, construiu sua carreira após estudar direito, ascendendo na hierarquia militar até assumir o posto máximo. Segundo analistas, ele consolidou seu poder ao distribuir cargos estratégicos a aliados e punir adversários políticos.

Em cerimônia na capital Naypyitaw, o general transferiu o comando das Forças Armadas para Ye Win Oo, um oficial de sua confiança. Durante o discurso, Min Aung Hlaing afirmou que continuará a servir “aos interesses do povo, das Forças Armadas e da nação”.

Ye Win Oo, que integrava o círculo próximo do general, foi nomeado chefe de inteligência em 2020 e promovido recentemente ao comando do Exército. Para analistas, a rápida ascensão indica alto grau de confiança por parte do antigo comandante. A relativa inexperiência política, contudo, já levanta dúvidas relacionadas à governabilidade em um momento de crise e tensão.

“Desde o golpe, ele [Ye Win Oo] manteve a patente de general e ocupou pastas sensíveis da administração militar”, escreveu o Instituto de Estratégia e Política – Myanmar, um think tank com sede na Tailândia, em uma análise neste mês. “Mesmo assim, o general Ye Win Oo parece não possuir a vasta experiência de liderança que abrange tanto o comando em campo de batalha quanto a administração institucional.”

A junta militar assumiu o controle da nação do Sudeste Asiático em um golpe em 1º de fevereiro de 2021, derrubando um governo civil eleito liderado pela vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi.

A política de 80 anos cumpre pena de 27 anos de prisão por crimes que vão desde traição e suborno até violações da lei de telecomunicações. A ex-líder civil e seus advogados negam as acusações. Ela permanece detida e, como vários outros grupos de oposição, seu partido, a Liga Nacional pela Democracia, foi dissolvido pelos militares.

Suu Kyi foi a vencedora do Nobel da Paz em 1991 por sua luta pela democracia e direitos humanos e se tornou um símbolo da luta da sociedade mianmarense por democracia. Sua reputação, no entanto, foi abalada por sua gestão da crise da minoria rohingya, que lhe renderam acusações de limpeza étnica.

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