SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A EFB Regimes Especiais de Empresas, responsável por conduzir a liquidação do Banco Master, entrou com ação na Justiça americana contra Henrique Vorcaro e Natalia Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco.
Eles são acusados de enriquecimento ilícito e de participação em esquemas fraudulentos que teriam sido articulados pelo ex-banqueiro para pulverizar os ativos do Master. “Daniel Vorcaro e seus coconspiradores empregaram um esquema complexo para ocultar a dissipação de bilhões de reais (mais de US$ 1 bilhão)”, diz a petição, protocolada nesta segunda-feira (2) no Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida (EUA). O valor é equivalente a R$ 5,2 bilhões.
A Folha de S. Paulo tentou localizar Natalia Vorcaro em emails institucionais do Grupo Multipar, do qual a família é dona, desde a segunda-feira, porém não obteve retorno até a publicação da reportagem. Henrique Vorcaro foi procurado por mensagens de WhatsApp no mesmo dia e não respondeu aos questionamentos. A defesa de Daniel Vorcaro não quis se manifestar.
No documento, os advogados do liquidante relataram uma série de transferências feitas por fundos de investimentos ligados a Vorcaro para empresas e beneficiários de seu entorno.
O pedido é que todos os valores repassados aos familiares de Vorcaro sejam restituídos ao Master e integrem a massa falida do banco, liquidado pelo Banco Central no ano passado.
O Sequor Law, escritório que representa a EFB nos Estados Unidos, reconstruiu um caso em que o ex-banqueiro teria destinado R$ 2 bilhões ao Fundo Astralo entre 2021 e 2023 utilizando recursos de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) vendidos pelo Master no mercado brasileiro.
A maior parte do dinheiro, cerca de R$ 1,5 bilhão, teria sido repassada para a Super Empreendimentos e Participações S.A., enquanto outros R$ 400 milhões foram endereçados ao Moriah Asset Management. Ambas as empresas pertencem a Fabiano Zettel, pastor e marido de Natalia Vorcaro.
Os advogados afirmam que as transações foram feitas sem valor real ou contraparte equivalente. O objetivo seria “promover um esquema maior orquestrado pelos membros da família Vorcaro” para fraudar o Banco Master.
Em outra transação, feita em 2022, o liquidante afirma que Vorcaro utilizou o fundo Dublin para aportar R$ 495 milhões do Banco Master no Jaguar Investments Horizon, uma empresa sediada em Delaware (EUA) e que é cotista único do fundo. Vorcaro é apontado como o beneficiário final do Jaguar.
EMPRÉSTIMOS FICTÍCIOS
Além das operações utilizando fundos, Henrique Vorcaro teria obtido R$ 100 milhões em empréstimos fictícios com o Master para movimentar dinheiro por meio de três de suas empresas no setor de saúde: a Promed Brasil Assistência Médica, a Simetria Planos de Saúde e a Affiance Life Administradora de Benefícios em Saúde.
Segundo os advogados, os empréstimos venceram entre 2024 e 2025, mas nunca foram pagos. A dívida teria sido parcialmente transferida para empresas de fachada e, posteriormente, cedida pelo Banco Master ao fundo Astralo.
“Segundo informações, Henrique Vorcaro não tinha a intenção de reembolsar ou fazer com que suas empresas reembolsassem os empréstimos concedidos pelo Banco Master”, diz o documento.
Os advogados também relatam supostos esquemas mediados pelo pai do ex-banqueiro com a venda de recebíveis praticamente sem valor da Simetria para o fundo City, uma estrutura financeira controlada pelo Master.
De acordo com o processo, em 2021 e 2022, a Simetria teria recebido R$ 165 milhões do fundo de investimento em troca de contratos de recebíveis que totalizavam R$ 250 milhões fictícios.
Henrique e Natalia Vorcaro ainda aparecem como donos indiretos da Milo Investimentos S.A., companhia que controla a administradora de cemitérios e imóveis Terra Santa. A empresa teria recebido R$ 229,7 milhões em aportes de dois fundos do Master: o Care 11 e o Brazilian Graveyard and Death Care.
“O capital transferido para a Terra Santa a partir desses fundos teve origem no Banco Master, pelo qual o banco não recebeu nenhum valor real ou equivalente razoável”, diz a petição.
COMPRA DE IMÓVEIS
Além das operações financeiras, outro caso em que os familiares de Vorcaro são apontados como beneficiários envolve a compra de uma casa na Flórida, em fevereiro de 2023, à época adquirida pela incorporadora Sozo, empresa da qual Henrique e Natalia são presidente e vice, respectivamente.
O imóvel foi comprado por US$ 32 milhões (R$ 166,4 milhões) e sites especializados no mercado imobiliário norte-americano classificaram a operação como a mais cara do estado.
Os advogados do liquidante alegam que a Sozo teria sido usada para ocultar a identidade de Henrique e Natalia no negócio.
No início deste ano, após a investida dos advogados da EFB no tribunal norte-americano para mapear o patrimônio dos Vorcaro nos EUA, a família teria iniciado um processo de venda do imóvel para uma empresa identificada como Chosen Vessel LLC, sediada nos EUA.
Além da tentativa de venda do imóvel, a Sozo teria omitido a operação do Multiple Listing Service, um serviço de divulgação pública de venda de imóveis dos EUA, com o objetivo de manter o negócio fora do radar das autoridades.
No processo, a EFB afirma que a compra do imóvel foi viabilizada pela Sozo com recursos de fundos ligados ao Master. Segundo a ação, havia a promessa implícita de que a propriedade seria posteriormente devolvida ao banco, já que Henrique e Natalia não seriam os legítimos donos -o que, porém, não ocorreu.
Os advogados pedem que a Justiça norte-americana reconheça que a Sozo atuou como uma espécie de agente fiduciário temporário.
Essa declaração é importante para impedir que os Vorcaro vendam o imóvel. Assim, o ativo poderá integrar a lista da massa falida do Master, que posteriormente será revertida para o pagamento de credores do banco.