Livro reconstitui bastidores do conclave e mostra virada que levou cardeal Prevost ao papado

Uma image de notas de 20 reais

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Três cardeais logo despontaram como favoritos na primeira votação para a escolha do futuro líder da Igreja Católica, no fim da tarde de 7 de maio de 2025. Depois de aberta e conferida a urna com as 133 cédulas, os presentes ouviram repetidas vezes, na apuração em voz alta, os nomes do húngaro Péter Erdo, do estadunidense Robert Prevost e do italiano Pietro Parolin.

Nessa ordem, eles foram os mais votados no primeiro dia do conclave reunido para definir o sucessor do papa Francisco. Ninguém obteve os 89 votos necessários, mas a composição do pódio surpreendeu os presentes na Capela Sistina, no Vaticano.

É o que revela o livro “The Election of Pope XIV – The Last Surprise of Pope Francis” (a eleição do papa Leão 14 — A última surpresa do papa Francisco), escrito pelo casal de vaticanistas Elisabetta Piqué e Gerard O’Connell. Lançada na Europa em três línguas, a obra deve chegar às livrarias dos Estados Unidos neste mês, mas ainda não tem previsão para sair no Brasil.

“Que Erdo ficasse em primeiro foi uma surpresa, mas uma maior ainda foi Prevost em segundo, já que ele ficou abaixo do radar antes do conclave e atraiu pouca atenção da mídia”, escreve O’Connell. O terceiro lugar de Parolin também foi inesperado, já que ele encabeçava as listas de papáveis. “‘Ele foi muito pior do que o imaginado’, um eleitor me disse”, conta o vaticanista.

Como se sabe, Prevost saiu vencedor no dia seguinte, na quarta votação, e se tornou o primeiro papa norte-americano.

Escrito em forma de diário, o livro alterna trechos narrados em primeira pessoa e cobre da morte de Francisco, em 21 de abril, até a posse de Leão 14, em 18 de maio. São quase 300 páginas com a descrição da intensa apuração jornalística e dos fatos daqueles dias históricos. Os dois trabalham em Roma há cerca de 30 anos -ela como correspondente do argentino La Nación; ele, para a America Magazine, de Nova York- e eram amigos de Francisco.

As dezenas de entrevistas -muitas com pessoas que pediram o anonimato- ajudam a reconstruir bastidores com precisão, desde as dinâmicas das votações até cenas inusitadas.

Umas das revelações é que a primeira votação começou atrasada não só pelo longo discurso do cardeal Raniero Cantalamessa, mas também por razões de segurança. Depois que os 133 cardeais foram fechados na Sistina, agentes avisaram que tinha sido detectado o sinal de um chip SIM ativo dentro da sala.

“Os cardeais, incrédulos, se entreolham, até que um deles [um dos mais velhos, cujo nome preferimos manter em sigilo] descobre subitamente que tem o celular no bolso. Desorientado e aflito, o cardeal entrega o aparelho proibido”, escreve O’Connell. Nos dias do conclave, os cardeais devem ficar isolados, impedidos de se comunicar com outras pessoas.

Segundo os autores, os três mais votados na rodada inicial foram alavancados por grupos que já chegaram organizados ao encontro. O húngaro Erdo era apoiado pela ala conservadora, insatisfeita com o papado de Francisco. Amplamente conhecido por sua atuação como número dois da Santa Sé, o italiano Parolin era um nome forte entre compatriotas e estrangeiros.

Já Prevost, que chefiava o Dicastério para os Bispos, no Vaticano, entrou com mais de 20 votos de um grupo transnacional. “Norte-americanos, sul-americanos e alguns europeus que tinham visto como ele administrava o dicastério e o consideravam equilibrado e tranquilo, mas um homem de governo”, disse Piqué à Folha.

Além disso, pesava o fato de que Prevost era visto como capaz de continuar os processos iniciados por Francisco, entre eles a sinodalidade. “A maioria dos cardeais eleitores nomeados por Francisco [108 de 133] queria a continuidade. Não um clone, mas alguém que não desse marcha à ré”, afirma O’Connell.

Com as cartas em jogo às claras depois da primeira votação, as dinâmicas das rodadas seguintes foram confluindo sempre mais na direção de Prevost. Já na segunda votação ele terminou em primeiro, seguido por Parolin. As posições se mantiveram até o pleito final, quando Prevost acabou vencedor com mais de cem votos.

Os autores mostram os fatores que fizeram minguar a candidatura de Erdo e principalmente a de Parolin. Muitos cardeais, por exemplo, foram influenciados pela falta de carisma do italiano com os jovens na missa do Jubileu dos Adolescentes, às vésperas do conclave.

Também contam como havia sinais nas movimentações de Francisco na reta final do papado de que ele não desejava Parolin como sucessor, ao mesmo tempo em que promovia a figura de Prevost.

Para os jornalistas, a dificuldade de prever a vitória de Prevost passava pelo fato de ele ser dos Estados Unidos. “Havia esse mantra de anos de que era impossível ter um papa de uma superpotência como os EUA. Mesmo os cardeais do país diziam isso”, conta Piqué. “Mas, no fim, ele era o menos norte-americano dos americanos porque tinha vivido metade da sua vida sacerdotal no Peru.”

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