PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) – O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que a França vai votar “não” ao acordo União Europeia-Mercosul, que deve ser aprovado pelas instâncias europeias nesta sexta (9), em Bruxelas, na Bélgica.
Em comunicado, Macron afirma que, apesar de “avanços incontestáveis” nas negociações -referência à inclusão de cláusulas adicionais, solicitadas pela França, de proteção do mercado e sanitárias-, “é preciso constatar uma rejeição unânime do acordo” pelos políticos franceses.
“A etapa da assinatura do acordo não representa o fim da história. Continuarei lutando pela concretização dos compromissos obtidos junto à Comissão Europeia e para proteger nossos agricultores”, acrescentou Macron no texto.
A decisão de Macron, que já era esperada, não deve alterar o resultado esperado da votação: a adoção do tratado pela UE. Tendo perdido o apoio italiano, a França não dispõe de uma minoria de bloqueio suficiente para o veto.
Espera-se que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viaje para a América do Sul para a cerimônia de assinatura formal com o Mercosul no Paraguai, na segunda-feira (12).
O anúncio de Macron nada fez para aplacar a ira dos agricultores franceses, contrários ao acordo. Nesta quinta (8), eles ocuparam com tratores o entorno do Arco do Triunfo e da Torre Eiffel, pontos icônicos de Paris.
“A palavra dele não pesou muito. Ele vai dizer não, mas o Mercosul vai ser aplicado”, disse ao canal de TV BFM o produtor Stéphane Pelletier, membro do sindicato de agricultores Coordenação Rural.
Do lado de fora do parlamento francês, um grupo de agricultores interpelou a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, que pertence ao partido de Macron, Renascimento (centro). Chegaram a jogar um líquido na parlamentar, que foi rapidamente retirada pelos seguranças.
A Folha acompanhou a manifestação do lado de fora da Assembleia Nacional. Os agricultores colocaram um trator diante do prédio, com faixas com dizeres como “Ursula, não nos faça de idiotas”. Alguns portavam bandeiras da França com a expressão “Frexit”, referência ao Brexit, movimento que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia, em 2020.
“Não há nada que possamos fazer, o tratado vai ser assinado”, admitiu Valentin Houillet, produtor de trigo, milho e girassol perto de Tours, ao sul de Paris. “Mas estamos aqui para manifestar nosso descontentamento.”
No início da noite, os agricultores começaram a se dispersar. Mas prometem voltar a se manifestar nos próximos dias.
Após a assinatura do acordo, ainda é necessária a aprovação do Parlamento Europeu. Outra alternativa para a França é judicializar a questão, contestando aspectos processuais.