Máquina de escrever renasce com modelos de até R$ 15 mil

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Foi na pandemia da Covid-19, em 2020, que Ronaldo Valim de Oliveira, 73, percebeu o ressurgimento do negócio que mantém aberto há 35 anos. Ele esboça um sorriso quando é questionado como é possível seguir com um comércio de restauração e venda de máquinas de escrever.

O principal motivo é que a conta fecha. A restauração pode custar R$ 5.000. O preço para venda varia, basicamente, conforme a avaliação do comerciante. Ele quase não tem concorrentes. O valor final depende, mas pode chegar a R$ 15 mil. Parece proibitivo, mas a clientela não pensa assim.

“Semana passada eu restaurei seis máquinas”, afirma o dono da Oliveira Typewriter, mostrando como é um trabalho viável economicamente.

Ele cita preços após alguma insistência. Prefere não falar em dinheiro. O seu gosto maior é contar a história de cada máquina que recebe. Algumas são do final do século 19.

“Os jovens, de certa forma, descobriram a máquina de escrever. Na pandemia, muita gente não tinha o que fazer em casa. Começaram a surgir grupos de literatura e a curiosidade sobre as máquinas. Pessoas que as tinham em casa, esquecidas, passaram a querer restaurá-las ou comprar uma. Quem escreve nela não quer voltar para o teclado do computador”, diz.

Uma contribuição considerável para que uma nova geração soubesse o que é e se interessasse pela máquina de escrever veio de Taylor Swift. A cantora norte-americana, fenômeno pop, usou um modelo vintage Royal 10 no vídeo da sua música “Fortnight”, single do seu álbum “The Tortured Poets Department”, de 2024.

O impacto nas vendas da Philly Typewriter, uma das principais fabricantes mundiais, fez com que um dos proprietários da empresa, Bill Rhoda, instalasse em lojas placas com a frase “junte-se ao departamento dos poetas torturados”. A maior procura, segundo ele, é de pessoas com menos de 30 anos.

Celebridades têm impulsionado o renascimento do equipamento. O cantor norte-americano John Mayer costuma usá-lo. O ator Tom Hanks tem mais de 100 máquinas e já fez exposições para mostrar a coleção.

É um mercado nichado. Mas, como é explorado por poucas pessoas, torna-se impulso para os que trabalham nele. Oliveira passa o dia e, algumas vezes, parte da noite, no piso superior de um sobrado na rua do Carmo, centro de São Paulo. No passado, o comércio de máquinas de escrever monopolizava a região. Hoje, sobrou apenas a Oliveira Typewrter.

Entrar em sua sala é tomar cuidado para não esbarrar em nenhuma das que estão espalhadas por mesas e bancadas. Estão visíveis também fotos e livros sobre o tema. Ele tem certa resistência a mostrar os aparelhos que estão cobertos para que sejam fotografados. Também não quer falar na quantidade de máquinas tem na sua oficina e nas salas em anexo.

“Eu não anuncio mais. Não faço nada. Tenho meu site. Quem quiser chegar até mim chega. Todas as máquinas de escrever têm história. Eram do pai, da mãe, dos avós. Quando tenho de restaurar, me viro com o que tem. Às vezes, o paciente chega carregado como morto, pura ferrugem. Outros estão em melhores condições. Mas todos saem daqui prontos para a vida. E cobro por isso, obviamente”, explica.

Para quem tem uma máquina de escrever antiga em casa, há o valor sentimental. O que Ronaldo chama de história. Mas os jovens que o procuram ou postam em comunidades sobre o assunto falam sobre a experiência sensorial, do som das teclas, de sentir o papel, da estética, do caminho para se afastar por alguns momentos dos aparelhos digitais.

Restaurar, reformar e vender máquinas de escrever foi o caminho de vida para quem cresceu com a compulsão de colecionar coisas e saber como elas funcionavam. Quando o menino Ronaldo ganhava um brinquedo, o primeiro impulso era desmontá-lo e aprender como remontá-lo. É o que faz com máquina de escrever. Aparelho que, afirma, quando viu pela primeira vez, ficou fascinado.

“Achei que era pesada demais para ser um brinquedo. Perguntei e disseram apenas ser uma máquina, sem mais explicações”, lembra.

É a mesma reação que busca provocar em todos os novos clientes que vão recolher uma peça restaurada: deixá-los fascinados. Ele recita de cor o ano de fabricação e a história de todas que chegam à sua mão. Mostra foto em preto e branco de uma criança sentada diante de um modelo antigo. O mesmo que ele está restaurando porque o cliente, hoje adulto, descobriu que aquela é a única imagem que tem da infância.

Oliveira não tem ilusões de que a máquina de escrever voltará a ser ultrapopular. Usá-la pode ser um desafio para uma nova geração impaciente, que não aceita a possibilidade de não ter como apagar, sem algum esforço, uma letra digitada errada. Ele quer apenas que seu mercado continue existindo e mantendo abertas empresas como a dele. Mesmo que estejam escondidas em um sobrado no centro de São Paulo.

De suas duas filhas, apenas uma tem interesse no assunto. Ele não ambiciona ter substitutos nem herdeiros. Embora planeje trabalhar até o dia da morte, sabe o que vai fazer com suas máquinas de escrever.

“Vou vender tudo. Vai ter muita gente interessada.”

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