SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Até aqui fora dos planos de Washington para a Venezuela pós-Nicolás Maduro, a líder opositora María Corina Machado foi à Casa Branca nesta quinta-feira (15) e se encontrou com o presidente Donald Trump, que determinou uma operação militar no último dia 3 para capturar o então ditador venezuelano.
Foi o primeiro encontro pessoal entre Trump e María Corina. A líder opositora, que deixou a Venezuela no mês passado em uma fuga pelo mar, tenta agora se firmar como interlocutora central no debate sobre a transição política do país sul-americano.
Após a reunião, a venezuelana disse que o encontro correu muito bem e foi “ótimo”. Mais tarde, relatou ter entregado a medalha do Nobel da Paz ao presidente americano, como já havia dito que faria. Não ficou claro se ele a aceitou.
Mesmo que María Corina tenha dado a medalha para Trump, a honra continua sendo dela. O Instituto Nobel da Noruega afirmou que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado. Questionado na quarta-feira se queria que a venezuelana lhe entregasse o prêmio, Trump disse à Reuters: “Não, eu não disse isso. Ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz.”
María Corina foi laureada no ano passado por seus esforços para promover uma “transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”, segundo o comitê do prêmio. Após a queda de Maduro, ela chegou a dizer que poderia assumir o poder na Venezuela.
Trump, entretanto, afirmou a jornalistas que duvidava da capacidade da opositora de liderar o governo venezuelano. Segundo ele, María Corina “não tem o apoio interno nem o respeito do país”.
Em contraste, o presidente americano elogiou Delcy Rodríguez, que foi vice do ditador deposto e é a atual líder interina da Venezuela. Depois do encontro entre Trump e María Corina, ainda nesta quinta, Delcy anunciou a apresentação de uma proposta para reformar a lei de hidrocarbonetos do país em resposta a investidores dos EUA, que pressionam por um acesso mais fácil à indústria petrolífera venezuelana.
Segundo ela, essas reformas “permitirão que esses fluxos de investimento sejam incorporados a novos setores, setores onde nunca houve investimento e setores onde não há infraestrutura”.
Em entrevista na quarta (14), Trump afirmou que “tem sido muito bom lidar com ela”, sinalizando abertura ao diálogo com setores ligados ao atual aparato de poder venezuelano.
O americano afirmou também na quarta que conversou por telefone com Delcy, no primeiro contato público entre os dois desde a captura de Maduro. O diálogo sinalizou uma inflexão na relação bilateral, marcada nos últimos anos por ruptura diplomática, sanções e confrontos retóricos.
Segundo Trump, a conversa foi longa e abrangente. “Discutimos muitas coisas”, disse a jornalistas, ao afirmar que “tudo vai muito bem” com a Venezuela, quase duas semanas após o bombardeio de Caracas e a captura de Maduro. O americano descreveu Delcy como “uma pessoa formidável” e alguém com quem Washington “trabalha muito bem”.
Do lado venezuelano, Delcy classificou o telefonema como “produtivo e cortês”, feito em um ambiente de “respeito mútuo”. Em mensagem publicada no Telegram, afirmou que os dois abordaram “uma agenda de trabalho bilateral em benefício dos povos”, além de pendências históricas na relação entre os governos.
O contato ocorreu num contexto de reaproximação entre Caracas e Washington, que já deram início à retomada de relações diplomáticas e à assinatura de acordos energéticos. Também coincide com uma nova rodada de libertação de presos políticos, iniciada na semana passada. Entre os beneficiados está o jornalista e reconhecido ativista opositor Roland Carreño, preso no início de agosto de 2024, em Caracas.
María Corina, por sua vez, foi à Noruega, no ano passado, para receber a láurea da paz. Neste mês, viajou ao Vaticano, onde participou de audiência com o papa Leão 14 e pediu ao pontífice que pressione Caracas a libertar os presos políticos.
Antes da reunião com Trump, a secretária de Comunicação da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o presidente aguardava o encontro com expectativa. Segundo ela, o republicano esperava uma conversa “proveitosa e positiva”.
“O presidente está ansioso para conversar sobre a realidade na Venezuela e o que está acontecendo”, disse Leavitt. Ao mesmo tempo, a porta-voz ressaltou que permanece válida a avaliação de Trump segundo a qual Machado não teria apoio interno suficiente para governar a Venezuela.
María Corina foi impedida de disputar a eleição presidencial de 2024 por decisão da Suprema Corte da Venezuela, controlada pelo regime. Naquele pleito, Maduro foi declarado vencedor, mas observadores internacionais consideram que Edmundo González, candidato da oposição, foi o mais votado.