Menor jornada na indústria de alimentos vai custar R$ 23 bi e levar a aumento de preços, diz Abia

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A possível redução na carga horária semanal no Brasil deve gerar impactos na indústria alimentícia, com aumento do preço dos produtos. A avaliação é da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos), que prevê alta de custos de R$ 23 bilhões caso a jornada passe de 44 para 40 horas semanais.

“Esses R$ 23 bilhões provavelmente serão repassados para o preço do produto”, diz João Dornellas, presidente-executivo da Abia, durante entrevista coletiva nesta quinta-feira (5) para divulgar o balanço do setor em 2025. “A gente reconhece que é legítimo buscar uma melhor qualidade de vida, mas não deve ser uma coisa descasada do crescimento econômico. Esperamos que esse exercício seja feito sem nenhuma afobação, que haja muita discussão e respeito às especificidades dos setores.”

Os cálculos do impacto econômico, segundo Dornellas, foram feitos considerando o total de horas trabalhadas por ano, o salário médio pago pelo setor e o número de horas trabalhadas a menos, pagando o mesmo salário. “A decisão de reduzir a jornada de trabalho em outros países foi tomada com tempo, alguns demoraram uma década, outros países levaram 15 anos”, disse.

De acordo com a Abia, o setor emprega diretamente 2,12 milhões de pessoas, além de gerar 8,5 milhões de empregos indiretos. No ano passado, porém, houve uma desaceleração na abertura de novas vagas: 51 mil postos de trabalho, ante 72 mil registrados em 2024. A Abia diz que aumentou o número de postos de trabalho indiretos em 204 mil no ano.

Em 2025, a indústria faturou R$ 1,38 trilhão, o equivalente a 10,9% do PIB (Produto Interno Bruto) e um aumento nominal de 8% sobre 2024. Em termos reais, descontada a inflação, no entanto, a alta nas vendas foi de 2,2%. Em volume, foram produzidas 288 milhões de toneladas de alimentos e bebidas não-alcoólicas, aumento de 1,9% sobre 2024.

IMPACTO DO TARIFAÇO E DA GUERRA

As exportações no ano passado somaram US$ 66,7 bilhões (R$ 373 bilhões), uma ligeira alta de 0,7% sobre o ano anterior. Em 2024, o faturamento havia crescido 6,6%. Já em volume exportado, houve queda de 4,1% em 2025, ante um aumento de 10,5% registrado em 2024. O recuo nas vendas pode ser conferido especialmente ao tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump.

“Nós vínhamos em um crescimento [em faturamento] de 4%, 5%, 6% ao ano, agora tivemos um aumento de 0,7%”, diz Dornellas. “Se não fosse o tarifaço, talvez tivéssemos vendido entre US$ 500 milhões [R$ 2,6 bilhões] e US$ 1 bilhão [R$ 5,2 bilhões] a mais”, afirma o executivo, ressaltando que a indústria não tem a cifra exata do impacto, uma vez que exportações envolvem outros fatores para além da tarifa, como variação do dólar e do custo de transporte.

De acordo com a Abia, por blocos econômicos, o continente asiático é o principal destino das exportações de alimentos do Brasil, respondendo por 41,1% do faturamento (só a China representa 19%). Na sequência, vêm a Liga Árabe (15,4%), a União Europeia (13%) e a América do Norte (11%) -sendo que a fatia dos Estados Unidos corresponde a 7,4%. As exportações para o Mercosul somam 3,2%.

No ranking dos dez países que mais compram alimentos e bebidas brasileiros estão China, Estados Unidos, Países Baixos, Indonésia, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Índia, Chile, Japão e México.

Questionado sobre os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, acerca das exportações brasileiras, o executivo afirmou que ainda não foi observado impacto direto. “Existe essa volatilidade nas commodities, que pressiona logística, fretes, transportes”, diz. “Mas claro que nos preocupa, porque o planeta inteiro é muito dependente do petróleo como fonte de energia.”

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