[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Quando desembarcou no Brasil, no início do século 20, o farmacêutico português Eduardo Augusto Gonçalves dificilmente poderia antecipar a dimensão do legado que começava a construir em uma pequena farmácia de Joinville, em Santa Catarina. A fórmula criada por ele em 1915, pensada para tratar inflamações simples da pele, atravessou gerações, ganhou espaço nas casas brasileiras e transformou a Minancora em uma das marcas mais longevas do país no segmento de cuidados pessoais. Mais de 110 anos depois, a empresa tenta provar que tradição não precisa significar imobilidade. Em um mercado cada vez mais orientado pelo consumo digital, a Minancora tem se reinventado ao acelerar sua presença no e-commerce, que em 2025 cresce a um ritmo quase oito vezes superior ao das vendas nas lojas físicas, enquanto preserva símbolos, linguagem e produtos que fazem parte da memória afetiva do consumidor. “A marca permanece jovem porque aprende a mudar sem deixar de ser quem é”, afirma a gestora-presidente Lourdes Maria Duarte, bisneta do fundador.
Instalada inicialmente na Farmácia e Laboratório Minancora, na Rua do Príncipe, no centro de Joinville, a marca nasceu de um conhecimento farmacêutico tradicional combinado à observação prática das necessidades do dia a dia. A pomada antisséptica — formulada com ingredientes simples e multifuncionais — rapidamente ganhou fama local e, pouco a pouco, ultrapassou os limites da cidade catarinense. O nome escolhido por Gonçalves sintetizava essa ambição de permanência: a junção de Minerva, deusa da sabedoria, com a âncora, símbolo de firmeza e estabilidade. Ao longo das décadas, a Minancora deixou de ser apenas um produto de balcão para se tornar parte do cotidiano doméstico brasileiro, atravessando diferentes ciclos econômicos, mudanças de hábitos e transformações no varejo farmacêutico. “A força da marca sempre esteve na confiança construída de geração em geração”, afirma Lourdes Maria Duarte.
Ao longo dessa trajetória, a fórmula original da pomada Minancora foi preservada, com apenas pequenos ajustes ao longo do tempo, mantendo as características que a tornam reconhecível para sucessivas gerações de consumidores. O que mudou foi o entorno. A partir desse produto-ícone, a empresa passou a ampliar gradualmente seu portfólio, incorporando novas categorias e formatos de cuidado com a pele. Hoje, a Minancora reúne sete linhas de produtos, com diferentes variações de tamanho e embalagens, em um movimento que buscou responder a novos hábitos de consumo sem romper com a identidade construída desde 1915. “A base sempre foi a mesma: eficácia, simplicidade e multifuncionalidade”, afirma Lourdes Maria Duarte. “O desafio foi ampliar o mix sem descaracterizar aquilo que fez a marca durar.”
É a partir dessa base consolidada que a Minancora chega ao presente tentando se manter relevante em um ambiente de consumo radicalmente diferente daquele em que nasceu. Nos últimos anos, a empresa passou a investir com mais intensidade em canais digitais, redes sociais e vendas on-line, reposicionando sua comunicação e ampliando o alcance da marca para públicos mais jovens. Em 2025, o comércio eletrônico da Minancora cresceu 31%, enquanto as vendas tradicionais avançaram 4% no mesmo período. Com o resultado, Maria Duarte entendeu o recado, o desafio era encontrar a linguagem correta. “O principal foco está na comunicação digital e nas redes sociais, com linguagem leve, próxima e educativa.” Com isso, conta a executiva, foi possível achar uma forma de dialogar com novas gerações sem perder a “essência construída ao longo de mais de um século.”
E, para se aproximar dos consumidores mais jovens, a Minancora olhou para trás. Na celebração de seus 110 anos, a marca lançou uma campanha publicitária protagonizada por Dona Elma Andreani, influenciadora digital de 101 anos, escolhida para representar a longevidade, a autenticidade e a permanência que atravessam a história da empresa. Sob o conceito “O que alguém com mais de 100 anos tem para contar?”, a ação buscou dialogar com novas gerações ao recorrer não à estética da juventude, mas à experiência acumulada. “A ideia foi mostrar que envelhecer não significa perder relevância”, afirma Lourdes Maria Duarte. “Pelo contrário: significa ter história para compartilhar.” A campanha marcou uma virada na comunicação da marca, que passou a usar o storytelling como ponte entre passado e presente.
O reposicionamento da comunicação veio acompanhado de uma atualização dos símbolos que historicamente identificam a Minancora. Em fevereiro de 2024, a marca apresentou mudanças em sua identidade visual, com a reformulação da deusa — figura presente desde as primeiras embalagens — e da âncora, elemento central de seu imaginário. Os traços ganharam contornos mais definidos e contemporâneos, enquanto a âncora passou a ser envolvida por uma corda, reforçando a ideia de controle, força e permanência. A nova estética passou a ser aplicada gradualmente ao portfólio, incluindo produtos como o Creme Antissinais, o Alívio para os Pés, os sabonetes antiacne e o creme antiacne, sinalizando uma tentativa de atualizar a linguagem visual sem romper com os códigos que sustentam o reconhecimento da marca. “A marca avalia constantemente oportunidades de linhas que dialoguem com seu propósito de cuidado, simplicidade e preservação”
Ao mesmo tempo em que revisita sua própria história, a Minancora passou a incorporar de forma mais explícita a agenda contemporânea de sustentabilidade e responsabilidade ambiental. A empresa vem investindo no uso de matérias-primas renováveis, em programas de reciclagem de embalagens e em uma gestão mais eficiente dos resíduos industriais, buscando reduzir impactos sem comprometer a simplicidade que sempre definiu seus produtos. Mais do que um discurso alinhado ao espírito do tempo, trata-se de uma tentativa de atualizar práticas sem romper com a lógica que sustenta a marca desde o início do século passado: cuidado, funcionalidade e permanência. Em um mercado marcado por modismos rápidos e ciclos cada vez mais curtos, a Minancora chega aos 110 anos apostando na combinação rara entre memória, adaptação e continuidade – algo que nasce na empresa assim um português do ramo farmacêutico desembarca em solo tupiniquim no século passado e fica encantado com a fauna e flora brasileira.