Mortes de brasileiros na Guerra da Ucrânia disparam, e Itamaraty faz alerta

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Mais brasileiros foram mortos na Guerra da Ucrânia em 2025 do que a soma de todos os anos anteriores do conflito, iniciado em fevereiro de 2022, de acordo com dados do Itamaraty enviados à Folha.

O governo brasileiro contabiliza os óbitos de 23 cidadãos do país desde o começo da guerra. Destes, 12 (52%) perderam a vida no ano passado. Outros três foram declarados mortos neste ano, em pouco mais de um mês.

A pasta registra também aumento dos brasileiros considerados desaparecidos. O total é de 44, e 34 pessoas (77%) foram incluídas nessa lista em 2025. Os números correspondem apenas aos casos formalmente comunicados ao Brasil pelos governos da Rússia e da Ucrânia.

Os números preocupam o governo brasileiro, que tem reforçado alertas nas redes sociais sobre os riscos de envolvimento em combates no exterior. O Itamaraty também chama atenção para casos de cidadãos que relatam dificuldades para deixar fileiras de Exércitos estrangeiros após o alistamento.

Os brasileiros são recrutados com a intermediação de compatriotas que atuam em países estrangeiros. São também estimulados por publicações em redes sociais que glorificam os confrontos e prometem treinamento e salários robustos. A realidade, entretanto, é diferente da apresentada na internet.

Nesta semana, mais um brasileiro pode ter sido morto em combate na Ucrânia. O paraense Wesley Adriano Silva, que atuava como voluntário das forças de Kiev na guerra contra a Rússia, foi atingido por disparos de artilharia e não teria resistido, segundo publicações de amigos nas redes sociais. Apresentando-se como “Índio Boa Morte”, ele publicava na internet fotos e vídeos de suas atividades no país do Leste Europeu. O Itamaraty o considera desaparecido.

Diante das baixas de soldados brasileiros, o Itamaraty reforçou, na quinta (12), a recomendação para que convites ou ofertas de trabalho em Exércitos estrangeiros sejam recusados. Segundo a pasta, inclusive a assistência consular, nesses casos, pode ser “severamente limitada” pelos termos dos contratos assinados entre os alistados e as Forças Armadas de terceiros países.

“Não há obrigatoriedade por parte do poder público para o pagamento de passagens ou o custeio de retorno”, diz trecho do alerta. A nota acrescenta que os cidadãos que se voluntariam ficam sujeitos ainda a processos em cortes internacionais e também no Brasil.

A engenheira civil Mariana Figueredo de Souza, 28, relata angústia e afirma à Folha que teve prejuízo financeiro para ajudar o irmão a sair da Ucrânia. Incentivado por publicações nas redes, ele se voluntariou ao Exército de Kiev e viajou à Europa em novembro do ano passado, porém decepcionou-se com as condições que lhe foram impostas no país e se arrependeu da decisão.

Mariana diz que o irmão foi atraído por falsas promessas de que teria um trabalho na guerra para ajudar crianças e pessoas em situações de vulnerabilidade. Na Ucrânia, entretanto, ele teria se deparado com esquemas de corrupção nas tropas e enviado à região de front em poucos dias, sem treinamento, para o que ela descreve como “missões suicidas”.

A desistência desagradou aos comandantes, que mobilizaram vigias para impedir uma fuga, afirma Mariana. Ela diz que, do Brasil, contratou um motorista de aplicativo por € 250 (R$ 1.535, na cotação atual) para resgatá-lo do campo de batalha, no leste ucraniano, em um momento de desatenção dos militares.

Depois de chegar a Lviv, cidade na outra ponta do país, o irmão teria sido impedido de cruzar a fronteira com a Polônia sob o argumento de que o contrato com as Forças Armadas ucranianas ainda estava ativo.

Barrado, ele perdeu o voo da Polônia para o Brasil, cuja passagem custou R$ 12 mil, diz Mariana. “Fiquei uma semana sem trabalhar. Eu não comia nem dormia. Estava em desespero”, diz ela.

A saída da Ucrânia ocorreu dias depois, em dezembro, com orientações da embaixada do Brasil em Kiev. No total, ela estima o prejuízo de R$ 25 mil, incluindo as passagens aéreas, hospedagem e alimentação.

Em Itapevi, município em São Paulo, o irmão está abalado psicologicamente, diz Mariana. De seu grupo de mais 5 pessoas, 2 teriam sido mortas, e as outras 3, feridas. Ela prefere não divulgar o nome dele por questões de segurança.

Iniciada há quase quatro anos, em 24 de fevereiro de 2022, a Guerra da Ucrânia é tão mortífera quanto foi a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Como mostrou a Folha, um estudo de janeiro do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), de Washington, conta até 1,8 milhão de baixas militares desde o início da invasão russa até o final de 2025, incluindo 465 mil mortes, e o restante de feridos incapacitados para o combate.

De 2022 a 2025, a Rússia registrou uma taxa de 1 morto para 2,7 feridos. Já a Ucrânia, 1 para 3,28. Os números são semelhantes aos de seus antecessores que lutaram sob Josef Stálin: 1 morte para 2,57 feridos.

Nos últimos meses, com a redução do apoio dos Estados Unidos à Ucrânia, as forças russas têm avançado no leste do país, ainda que de forma lenta.

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