Nova decisão sobre juros do Fed mostra divisão interna sobre próximos passos

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A decisão sobre juros do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) desta quarta-feira (10) reflete um comitê dividido cujas próximas decisões estão dependentes da evolução dos dados econômicos.

A análise é do Goldman Sachs, que vê a autoridade monetária ainda comprometida com uma trajetória gradual de afrouxamento nas taxas. O banco afirma que o Fed “restaurou a linguagem anterior afirmando que ‘a extensão e o timing’ de novos ajustes na taxa dependerão dos dados, das perspectivas e do balanço de riscos”.

A dissidência de três membros do comitê de política monetária, porém, é um ponto de atenção para o mercado. Assim como havia ocorrido nas últimas reuniões, a decisão dividiu os integrantes do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto), e o corte de 0,25 ponto nos juros foi aprovado por 9 votos a 3 -um diretor apoiou uma redução maior, enquanto outros dois pediram manutenção da taxa.

Para Mauricio Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, as dissidências “têm feito cada vez menos preço, à medida que o mercado também espera um presidente do Fed mais ‘dovish’ [jargão do setor para uma posição mais branda na política monetária] no ano que vem”.

O novo presidente do Fed deve ser indicado por Donald Trump no início de 2026 e passa a ocupar o cargo depois de maio. Alguns nomes já são especulados pelo mercado, como de Kevin Hassett, assessor econômico da Casa Branca. A indicação preocupa alguns analistas por conta da possibilidade de o novo dirigente cortar bruscamente os juros nos EUA para agradar a Trump.

Outro destaque da decisão foram as projeções macroeconômicas levemente mais otimistas, com crescimento do PIB mais forte e inflação mais baixa nos próximos anos.

“A decisão de hoje do Fed, que espera mais crescimento e menos inflação, é positiva para os mercados, que devem reagir positivamente nos próximos dias”, diz Garret.

A reação do mercado americano foi positiva. O dólar fechou em alta de 0,51% nesta quarta-feira, cotado a R$ 5,465, e os índices de Wall Street marcaram forte alta após a entrevista coletiva, com o S&P500 avançando 0,7%, o Dow Jones, 1,05%, e o Nasdaq, 0,3%.

Além disso, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano recuaram, sinalizando expectativa de juros menores no futuro: a taxa dos títulos de 2 anos caiu 0,07 ponto porcentual, e a dos de 10 anos caiu 0,04 ponto.

Parte dessa reação foi atribuída ao tom neutro, levemente brando, de Jerome Powell, presidente do Fed, em entrevista a jornalistas após a divulgação da decisão.

Powell afirmou que a política de juros do Fed está bem posicionada para responder ao que está por vir para a economia e se recusou a indicar quais serão os próximos passos do comitê. Ele acrescentou que “a política monetária não está em um curso predefinido” e que o banco central tomará decisões “reunião a reunião”.

Maria Irene Jordão, estrategista global da XP, o tom de Powell na entrevista para jornalistas foi de neutro a levemente dovish. Ela diz que o mercado agora calcula que há uma baixa chance de um novo corte de 0,25 ponto percentual em janeiro: segundo a ferramenta CME Fed Watch, a probabilidade é de 24%.

A análise do banco Citi é que os mercados foram agressivos demais ao esperar uma orientação mais “hawkish” [dura] de Powell, que, em vez disso, afirmou que a inflação excluindo tarifas está próxima da meta, enquanto os riscos negativos para o mercado de trabalho continuam aumentando.

O banco cita que o Fed anunciou a compra de títulos do Tesouro maiores e mais cedo do que o esperado, para manter as reservas em ampla oferta. “Esperamos que dados mais fracos do mercado de trabalho levem a cortes de 25 pontos-base em janeiro e março e acreditamos que os mercados estão precificando de forma insuficiente os riscos inclinados a cortes mais profundos no próximo ano”, analisa o banco.

O Brasil descolou dessa tendência, com o mercado atento à corrida eleitoral de 2026.

“Com essa questão do Fed, a tendência é que tenha uma valorização do dólar um pouco mais expressiva, ainda mais com a questão Flávio Bolsonaro pegando forte no Brasil”, afirma Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos.

O anúncio do filho mais velho do ex-presidente como candidato à Presidência para o ano que vem derrubou a Bolsa na sexta-feira (5).

“Vamos esperar para ver o que vem de novidades internas, aqui no Brasil, para que a gente possa traçar um panorama do dólar para 2026”, diz ele, que acredita que é preciso compreender a divergência entre os dirigentes do Fed para entender também o que pode precificar de dólar para 2026.

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