'O Agente Secreto' revisita relação entre empresários e ditadura em disputa por tecnologia

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Parte da trama de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, imagina uma disputa por tecnologia de carros elétricos em pleno Brasil dos anos 1970, quando a ditadura militar tentava lidar com o choque do petróleo.

Indicado a quatro categorias no Oscar —melhor filme, filme internacional, ator (Wagner Moura) e seleção de elenco—, o longa usa esse pano de fundo para construir um enredo de perseguição entre um empresário poderoso ligado ao regime e o protagonista.

A partir daqui, o texto revela alguns elementos da trama.

Na história, Armando, o personagem interpretado por Wagner Moura, é perseguido pelo empresário fictício Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli) e seus capangas.

Não há muita informação explícita sobre os negócios dele: na sede da companhia, vê-se uma foto da escavação do metrô de São Paulo; em um momento do filme, Ghirotti afirma que é “da engenharia” e que sua empresa é familiar; em outro, é revelado que ele pertence ao conselho de administração da então estatal de energia Eletrobras, sinal de proximidade com a ditadura.

O protagonista da trama é diretor de um centro de pesquisas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) que desenvolvia, em 1975, tecnologia para um protótipo de carro elétrico, hoje central para a transição energética e empresas como Tesla e BYD.

A ideia de um carro elétrico em 1975 não surge por acaso. Dois anos antes, o primeiro choque do petróleo havia quadruplicado o preço da commodity. Naquela época, o Brasil produzia cerca de 20% do combustível que consumia, segundo escreveu o economista Marcelo Paiva de Abreu no livro “The Cambridge History of Latin America”.

No entanto, o regime entendeu que enfrentava um problema de energia, e não de combustíveis, segundo Abreu. Ao citar o que chama de maus projetos da ditadura (que foram em número “não insignificante”, segundo ele), o autor diz que o maior deles foi a iniciativa nuclear.

“Os esforços para promover a conservação de energia e o desenvolvimento de fontes alternativas de energia foram tímidos”, diz o texto.

A crise no filme começa quando Ghirotti visita a universidade para impedir que o núcleo de Armando continue com a pesquisa. Isso porque ele era investidor de um projeto parecido no Canadá e não queria a concorrência. É por esse motivo que o empresário começa a boicotar e, depois, perseguir o personagem de Wagner Moura.

Pedro Henrique Pedreira Campos, autor do livro “Estranhas Catedrais”, sobre a relação entre empreiteiros e o governo militar, diz que entre os empresários próximos ao regime havia aqueles que eram ideológicos e difusores de ideias semelhantes às dos militares, mas também empresários mais pragmáticos, como o Ghirotti retratado no filme.

O historiador diz que “O Agente Secreto” está antenado nas pesquisas mais recentes sobre a ditadura, que têm chamado a atenção para o papel dos empresários e para a atuação deles. Campos, no entanto, afirma desconhecer algum episódio semelhante ao que acontece no filme.

“A dinâmica do poder dos empresários não se manifestava exatamente daquela forma. Eu estudei as empreiteiras e as construtoras, e boa parte delas tinha seu quadro diretivo de engenheiros formados nessas escolas”, disse.

Campos (que afirma ter gostado do filme) disse que se trata de uma metáfora do poder que esses agentes tinham, mas que a reunião mostrada no filme tem “um certo distanciamento da realidade histórica”.

Naqueles anos, o governo de Geisel acelerou os gastos para prolongar o chamado milagre econômico, período de alto crescimento econômico no início daquela década. A aposta foi um segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, que tinha como meta um crescimento de 10% ao ano.

Para isso, as estatais aumentaram os investimentos. Entre 1975 e 1980, elas representavam 47,3% do total dos investimentos no país, de acordo com os dados de Abreu. Parte das empresas privadas buscava laços com os militares para tentar contratos com as grandes estatais.

Em seu livro “A Organização”, a jornalista Malu Gaspar descreve um desses casos. Em 1971, a Odebrecht disputou e venceu a licitação para erguer uma parte do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Outra empresa, a Hidroservice, tinha sido contratada para supervisionar a obra, e tentou desqualificar a Odebrecht.

Norberto Odebrecht procurou Ernesto Geisel (então presidente da Petrobras) e pediu apoio. A autora afirma que o general conversou com o brigadeiro da Aeronáutica responsável pelo contrato, e a Odebrecht levou a obra.

Abreu afirma o período foi marcado por forte intervenção estatal. “Foi usada uma gama intrincada de incentivos para fomentar o desenvolvimento industrial”, escreve o economista, citando proteção tarifária, isenções fiscais e crédito subsidiado.

Segundo Vinicius Muller, professor do Insper, a relação de governos com empresários não é exclusividade dos militares, mas há uma diferença de transparência.

“Em governos autoritários, a relação é mais nebulosa, porque as informações não são divulgadas como em uma democracia”, disse.

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