SÃO PAULO, SP (FOLHARESS) – Até esta sexta-feira (9), um dia após o regime da Venezuela anunciar que começaria o processo de soltar presos políticos, apenas oito pessoas haviam sido liberadas, segundo o balanço mais atualizado da ONG Foro Penal.
O número é baixo comparado ao total de pessoas ainda presas como parte da política de perseguição da ditadura de Maduro. A Foro Penal estimava, antes das solturas recentes, em 806 os presos por motivos políticos na Venezuela.
O número de detidos, inclusive, pode ser ainda maior a organização venezuelana Justiça, Encontro e Perdão, por exemplo, contabilizou mais de mil presos políticos no país em novembro do ano passado. Ou seja, nem 1% deles conseguiu sua liberdade de volta.
Ao longo dos últimos anos, o regime chavista tem promovido prisões arbitrárias, frequentemente baseadas em acusações como terrorismo, conspiração e traição à pátria, utilizadas como instrumentos para silenciar opositores.
Grupo de pessoas em pé na rua de bairro residencial à noite, com casas e carros estacionados ao fundo. Iluminação artificial destaca os indivíduos e a área ao redor.
A Foro Penal ainda não divulgou a identidade de todas as pessoas soltar. Até a manhã desta sexta havia sido confirmada a saída da renomada ativista Rocío San Miguel, detida desde fevereiro de 2024. Ela estava no Helicoide, prisão rotulada por organizações de direitos humanos como “centro de tortura” da ditadura.
Outro libertado foi o ex-candidato à Presidência da Venezuela Enrique Márquez, preso após se denunciar irregularidades nas eleições de 2024, que deram um terceiro mandato a Nicolás Maduro apesar de diversas evidências de fraude.
Vídeos de Márquez reencontrando e abraçando familiares circulou nas redes sociais. Já na noite de quinta, logo após o anúncio do regime, familiares de presos se reuniram em frente a diversas prisões no país na esperança de que seus entes fossem libertados.
Se somam à lista de libertados os opositores do regime Biagio Pilieri e Larry Osorio Chía. A soltura de Pilieri, que tem cidadania italiana, foi festejada pelo governo do país europeu. “Ele está em boas condições e já recebe assistência da nossa representação diplomática em Caracas”, escreveu o ministro de Relações Exteriores, Antonio Tajani, em um post no X.
“Hoje é um belo dia para a família e os amigos de Biagio. Um sinal positivo da presidente Delcy Rodríguez.”
O candidato da oposição Edmundo González, visto como o vencedor da eleição de 2024 no país, celebrou a libertação das pessoas. “Ver o abraço daqueles que já se reencontraram me deixa profundamente feliz”, escreveu ele em um post.
“Me coloco com respeito e proximidade ao lado dos que ainda estão esperando”, completou, numa possível referência ao seu genro, Rafael Tudares Bracho, está detido desde janeiro de 2025.
González, que vive na Espanhã, ainda cobrou a comunidade internacional a reconhecer a sua vitória no pleito presidencial que reconduziu Maduro a um terceiro mandato. O venezuelano conversou com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.
São as primeiras libertações sob Delcy Rodríguez, que assumiu após a captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar dos EUA. Ambos estão presos em Nova York. A decisão parece ter sido bem vista pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
O americano anunciou nesta sexta que suspendeu novos ataques contra o país latino-americano. “A Venezuela está libertando um grande número de presos políticos como sinal de que está buscando a paz”, afirmou o republicano em um post na rede social Truth.
Ele disse ainda que Washington e Caracas estão “trabalhando bem juntos”. “Em razão dessa cooperação, cancelei a segunda onda de ataques que era anteriormente esperada, a qual tudo indica não será necessária”, completou.
A mobilização militar na região, porém, deve continuar, já que Trump afirmou que os navios de guerra enviados ao mar do Caribe permaneceram onde estão para garantir “ordem e proteção”. O contingente inclui o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald Ford.
Diplomatas dos Estados Unidos viajaram nesta sexta a Caracas para avaliar a reabertura da embaixada americana na cidade, fechada desde 2019. O principal representante diplomático dos Estados Unidos em Bogotá, John McNamara, está entre os participantes da comitiva.
O anúncio da liberação dos presos foi feito pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez irmão de Delcy. Ele disse que a decisão foi um “gesto unilateral de paz” e que, portanto, não teria sido acordado com nenhuma outra parte.
Delcy participou ainda na quinta de um ato em homenagem aos mortos durante a ação americana que levou Maduro. Numa aparente tentativa de afastar especulações de traição e de que a nova líder teria negociado com os EUA, ela disse que houve resistência das forças segurança da Venezuela.
“Aqui ninguém se entregou. Aqui houve combate e houve combate por esta pátria”, afirmou Delcy durante a cerimônia. “Não estamos subordinados nem estamos submetidos. Temos dignidade histórica e temos compromisso e lealdade com o presidente Nicolás Maduro.”