ONU precisa de menos gordura e é doloroso Brasil apoiar outro nome, diz candidato argentino

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MUNIQUE, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – O diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e candidato ao mais importante cargo da ONU, Rafael Grossi, disse à Folha que as Nações Unidas precisam de “menos gordura e mais músculo”, numa referência a cortes e consolidação de mandatos que defende na entidade.

O argentino também afirmou que é “muito doloroso” para ele o fato de o Brasil ter escolhido apoiar outro nome: a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet. “O processo evoluirá e talvez, em algum momento, eu tenha esse apoio do Brasil”, disse Grossi, em entrevista à margem da Conferência de Segurança de Munique.

A ONU atravessa um dos momentos de maior questionamento desde sua criação no pós-guerra, tanto por ter seu poder de decisão gradualmente esvaziado quanto por uma crise inédita de financiamento.

Até o final do ano, a organização precisa escolher um secretário-geral para substituir o português António Guterres, em um processo de seleção no qual o vencedor deverá ser aprovado no Conselho de Segurança —onde Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China têm poder de veto.

Como em praticamente todos os temas, Brasil e Argentina estão em lados opostos. O governo Lula endossou a candidatura de Bachelet, enquanto o ultraliberal Javier Milei abraçou o nome de Grossi.

“Eu não sou um candidato de direita, sou um funcionário internacional independente. Ou seja, a Argentina não está apresentando seu ministro das Relações Exteriores, um amigo do presidente Javier Milei”, afirmou Grossi.

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*Folha – Por uma regra informal de rotação, em tese cabe a um latino-americano a secretaria-geral da ONU. Mas há um racha entre sua candidatura e a de Bachelet. Por que a região não consegue unidade?*

*Rafael Grossi -* A aspiração da América Latina e do Caribe de ter um secretário-geral é legítima. Foram quatro secretários-gerais europeus, dois africanos, dois asiáticos e apenas [o peruano] Javier Pérez de Cuéllar.

Uma unidade [da América Latina e Caribe] teria sido muito positiva, mas é necessário lembrar que, historicamente nas Nações Unidas, nunca aconteceu de uma região convergir em uma única pessoa.

*Folha – As candidaturas refletem as divisões ideológicas na América do Sul, principalmente entre Lula e Milei?

*Rafael Grossi -* Não. Em primeiro lugar, eu não sou um candidato de direita, sou um funcionário internacional independente. A Argentina não está apresentando seu ministro das Relações Exteriores ou um amigo do presidente Milei. Tenho uma trajetória de 40 anos na diplomacia, grande parte dela muito próxima do Brasil. Ninguém poderia afirmar que eu tenho uma associação a uma visão política em particular, sou um diplomata professional.

Entendo que seja tentador dizer que há uma candidatura de esquerda e outra de direita. Isso não ajuda ninguém na América Latina. Vejam o que fiz na AIEA, qual foi minha gestão e minha abordagem aos problemas. Acredito que isso basta para esclarecer que não se trata de uma visão [política].

*Folha – Nunca houve uma mulher no cargo, e o Brasil defende uma mulher na secretaria-geral.*

*Rafael Grossi -* Acredito na igualdade entre o homem e a mulher. A partir do momento em que há candidaturas femininas, o princípio da igualdade entre homens e mulheres está perfeitamente protegido. Os países devem escolher que tipo de liderança desejam. Acho que é um falso debate a questão de que agora “é a vez de”.

Digo isso com a tranquilidade moral de quem dirige uma agência que, em 2019 quando assumi, tinha 28% de mulheres. Hoje são 53%, em altos cargos de decisão: segurança nuclear, tecnologia e salvaguardas. Nesse aspecto, o que se faz vale mais do que mil palavras.

*Folha – A ONU passa por um dos seus momentos mais desafiadores desde a criação, com sua autoridade questionada e sob ameaça de subfinanciamento. Como pretende enfrentar esses temas?*

*Rafael Grossi -* Para mim, esta eleição é uma das mais decisivas na história. Primeiro, há uma situação internacional marcada por um nível altíssimo de conflitos e fragmentação. Segundo, há enormes dúvidas, ceticismo e pessimismo quanto à capacidade das Nações Unidas de agregar valor. Dizem: “Para que serve? Para que existe?” Alguns inclusive afirmam que ela é uma força negativa.

Estamos em um ponto muito baixo. Por isso, acredito que essa eleição deve se basear em quem é a pessoa que, neste momento, pode restaurar essa credibilidade e se reconectar com as grandes potências —em particular os Estados Unidos, mas não apenas.

*Folha – Crê que tem condições de reengajar os Estados Unidos no sistema ONU, inclusive com a volta do financiamento?*

*Rafael Grossi -* Acho que tenho essa capacidade de interlocução com eles e com outros. Os EUA representam 22% ou mais do orçamento da ONU. É um país decisivo, mas naturalmente os outros membros permanentes do Conselho de Segurança e as grandes nações do mundo que não fazem parte dele —Brasil, África do Sul, Índia, Japão e Alemanha— também precisam acreditar nas Nações Unidas.

Os EUA foram os que expressaram isso de forma muito clara, retirando recursos da organização ou suspendendo seus pagamentos. Mas não vejo outros que tenham dito: “Não se preocupem, eu pago.” Na realidade, muitos outros compartilham em silêncio esse ceticismo em relação ao burocratismo, à duplicação de mandatos, à falta de uma bússola e de um rumo claro sobre para onde a ONU deve ir.

*Folha – O sr. disse antes que não é um candidato de direita…*

*Rafael Grossi -* Não deixo de ser também [candidato de Milei], eu não renego isso. Sou argentino, e tem que ser o meu país que me apresente, mas também sou um funcionário independente.

*Folha – Pode ser o candidato de Donald Trump?*

*Rafael Grossi -* Seria arrogante dizer isso. Seria um erro da minha parte. Eu espero por isso, desejo, da mesma forma que quero ser o candidato apoiado por todos esses países decisivos.

Respeito muito que o Brasil tenha outro candidato. Talvez seja algo muito doloroso para mim, porque sempre trabalhei muito próximo do Brasil. Mas o processo evoluirá e talvez, em algum momento, eu tenha esse apoio do Brasil.

*Folha – O sr. apoia a reforma do Conselho de Segurança da ONU? Quais outras mudanças crê que a organização precisa?*

*Rafael Grossi -* Reforma é uma palavra muito ampla e, neste momento, tem duas dimensões. Uma delas tem a ver com a reforma do Conselho de Segurança, que é um processo político e que não é dirigido pelo secretário-geral, mas pelos países. São os países que têm de chegar a um novo consenso sobre como fazer isso. Ninguém pode duvidar da legitimidade de o Brasil ter um assento, mas obviamente isso depende de se estabelecer uma configuração aceitável para outras regiões.

Mas há outra dimensão, que é a predominante: que ONU queremos? Como a queremos atuando? É preciso redimensioná-la, isso está claro. Redimensionar não significa cortar, cortar e cortar. Significa cortar em alguns lugares, há duplicidade de mandatos inegável. Há um burocratismo inegável, há seis, sete, oito organismos falando das mesmas coisas —isso também não é viável. Tudo isso tem que ser parte desse desafio.

*Folha – Defende uma ONU mais econômica?*

*Rafael Grossi -* Menos gordura e mais músculo. Ou seja, não uma ONU mirrada, pequenina, fraca, tímida e receosa. Ao contrário, acho que há oportunidade. As pessoas percebem que uma ONU tão apagada também não é algo bom. Há muitas instâncias em que as Nações Unidas podem desempenhar um papel importante. Veja o caso da Ucrânia e da Rússia.

Isso implica consolidação de mandatos e um programa mais claro. As Nações Unidas não têm coordenação. As mensagens transmitidas por funcionários são muitas vezes contraditórias —e é aí que se percebe que faz falta uma certa dose de liderança.

*Folha – Há uma avaliação de que Rússia e China ficaram insatisfeitas com a atuação da AIEA no âmbito dos bombardeios dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, e que isso poderia lhe custar o apoio dessas potências. Como vê esse quadro?*

*Rafael Grossi -* De forma alguma. Em primeiro lugar, estou plenamente envolvido nas negociações atuais relacionadas à solução desse problema. O desafio para o funcionário internacional é ter sempre a capacidade de interlocução.

O secretário-geral da ONU, assim como o diretor-geral da AIEA, pode falar em um dia, mas no seguinte precisa estar operando.

Sou criticado tanto de um lado quanto do outro, com igual veemência. Vejo isso muito no caso da Ucrânia. Cada vez que publico algo no X, os russos dizem: “Ele está nas mãos dos ucranianos.” E os ucranianos dizem: “É um fantoche de Putin.”

*Raio-X | Rafael Grossi*

Nascido em 1961 em Buenos Aires, tem mais de 40 anos de atuação como diplomata é diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU desde 2019. Foi embaixador na Áustria, Eslovênia e Eslováquia. Representou a Argentina como aliado extra-Otan e foi chefe de gabinete da Organização para a Proibição de Armas Químicas, em Haia, na Holanda.

Candidatos precisam de aval do Conselho de Segurança

Para se tornar secretário-geral, o candidato precisa ser aprovado no Conselho de Segurança, que o recomenda à Assembleia-Geral da ONU.

O candidato necessita de ao menos 9 de 15 votos no conselho e não pode ser vetado por um membro do grupo de países com assento permanente.

Datas

1º.abr.26 – Apresentação dos candidatos. Por ora, foram lançados o argentino Rafael Grossi e a

chilena Michelle Bachelet

julho – Expectativa de votação

31.dez – Fim do mandato de António Guterres

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