Pão de Açúcar encolheu mais de 60% sob gestão do Casino e agora busca saída para dívida

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma mistura de expansão acelerada, decisões equivocadas e disputas entre acionistas, acompanhadas de altas taxas de juros e mudanças relevantes no comportamento de consumo. Essa combinação de fatores explica a crise do GPA (Grupo Pão de Açúcar), uma das maiores e mais tradicionais varejistas do país, segundo analistas e consultores.

Entre 2012, quando passou às mãos do grupo Casino, e 2023, quando os franceses deixaram o controle, a rede encolheu 64% em receita bruta. Entre 2024 e o início de 2025, o Casino foi abrindo mão da sua participação, mas continuou como principal acionista.

Essa posição, porém, mudou em maio do ano passado, quando a família Coelho Diniz, dedicada ao varejo no interior de Minas Gerais, se tornou o acionista mais relevante do grupo, somando 24,6% de participação.

O grupo chamou a atenção do mercado na terça-feira (24), quando disse nas notas explicativas do balanço que havia “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”. Os auditores da Deloitte também alertaram para os problemas.

A companhia tem R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento em 2026, e o capital de giro líquido estava negativo em R$ 1,2 bilhão. O endividamento total do grupo soma R$ 4 bilhões. O balanço também indicou cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias, classificadas como “perdas possíveis” e, portanto, não provisionadas.

O quadro é resultado de um longo processo. Ao longo dos anos, o Casino deixou de investir no negócio e usou o capital para reduzir o endividamento do grupo, fruto de uma expansão mal calculada. Depois de se tornarem donos do GPA, os franceses compraram a totalidade da rede Monoprix, também francesa, e expandiram sua presença na América do Sul.

“O dinheiro da venda da participação na Casas Bahia em 2019, por exemplo, foi usado na rede Êxito”, diz o consultor Eugênio Foganholo, da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, referindo-se à varejista colombiana controlada pelo Casino e que chegou a ser sócia do GPA, além de ter negócios no Uruguai e na Argentina. Mas o próprio Êxito acabou vendido em 2024, ano em que o Casino também deixou de ser controlador do GPA, após um aumento de capital do grupo.

Analistas e consultores também comentam que o Casino se desfez de diversos ativos do GPA, como redes de farmácias e postos de combustíveis, mas deixou a dívida dessas empresas com o grupo.

Procurado, o GPA não quis comentar. Já o Casino respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que sua estrutura acionária e de governança “sofreu alterações significativas” desde abril do ano passado. As mudanças se referem à saída do ex-dono do Casino, Jean-Charles Naouri, que passou o controle do grupo para um consórcio liderado pelo bilionário tcheco Daniel Kretinsky. “Nesse contexto, o Casino não pretende comentar retrospectivamente sobre a gestão anterior do GPA”, afirmou, por email.

O Pão de Açúcar foi palco de um embate feroz envolvendo o antigo controlador, o empresário Abilio Diniz (morto em 2024) e Jean-Charles Naouri. Em 2011, Abilio propôs uma fusão com o Carrefour, arquirrival do Casino, para continuar no comando executivo do GPA. O plano criaria um gigante avaliado em US$ 41,9 bilhões. Mas o Casino vetou o acordo e Naouri acabou assumindo a presidência do Pão de Açúcar.

Agora, o Casino se prepara para deixar o GPA e está à procura de um comprador para a sua fatia de 22,5%. Não será fácil, tendo em vista os números da companhia.

Em 2012, o GPA era um grupo com receita bruta de R$ 57 bilhões, sendo R$ 31 bilhões apenas no segmento alimentar. Além do Pão de Açúcar, tinha as bandeiras Extra, Assaí, era sócio de Casas Bahia e Ponto Frio, com as quais também operava no comércio eletrônico, e tinha ainda os sites Barateiro, E-Hub e Partiu Viagens. Aos negócios, se somavam uma rede de drogarias e postos de combustíveis.

Ao todo, eram 1.882 lojas, com área bruta de vendas de 2,9 milhões m² e 151 mil funcionários. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) somava R$ 3,6 bilhões, e o lucro líquido havia atingido R$ 1,1 bilhão. No ano, foram investidos R$ 700 milhões apenas para abrir 101 lojas.

Ao final de 2023, no último ano dos franceses como controladores, o GPA registrou receita bruta de R$ 20,6 bilhões, queda de 64% sobre 2012. Hoje o grupo é dedicado apenas ao varejo alimentar, com Pão de Açúcar e Extra. Em relação a 2012, a rede de lojas caiu mais da metade, para 728, com área de vendas de 548 mil m². Em 2025, foram abertas 23 lojas e fechadas 20. Como resultado, a receita bruta somou R$ 20,6 bilhões —ou seja, 33% inferior às vendas de 2012, considerando apenas o segmento alimentar. O Ebitda foi de R$ 1,7 bilhão e o prejuízo atingiu R$ 824 milhões. Hoje são 37 mil colaboradores.

No fim do ano passado, o GPA anunciou um plano de corte de custos, despesas e investimentos para 2026, prevendo redução dos desembolsos para entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões. No terceiro trimestre, a empresa concluiu a segunda etapa de um processo de simplificação da estrutura administrativa, que resultou no corte de 700 empregos.

Contam ainda para a crise a Selic em 15%, que contribui para aumentar a dívida líquida das varejistas em geral. Mudanças no comportamento do consumidor, que passou a variar mais entre os diversos canais —atacarejo, farmácia, varejinho de bairro, ecommerce— também contribuíram para um ambiente muito mais competitivo.

Ao mesmo tempo, as redes regionais ganharam musculatura. No ano passado, o mineiro Supermercados BH ultrapassou o Pão de Açúcar e se tornou a quarta maior rede varejista do país, atrás de Carrefour, Assaí e Grupo Mateus (este último também regional, com sede no Maranhão).

No entanto, os analistas concordam que o grupo tem uma marca forte, com um amplo programa de relacionamento (Cliente Mais), marca própria consolidada (Qualitá), lojas em pontos estratégicos de 11 capitais e no Distrito Federal, além de uma operação on-line lucrativa. Portanto, é muito cedo para se pensar em recuperação judicial como forma de reestruturar a dívida.

Na opinião de Álvaro Bandeira, conselheiro da Abradin (Associação Brasileira de Investidores), são muitas contingências na conta do GPA, que vai precisar de dinheiro novo para sobreviver. “Talvez parte dos credores possa transformar dívidas em participação acionária”, diz. O que mais lhe chamou a atenção na apresentação de resultados foi o tom do CEO. “Muitos executivos estão acostumados a apresentar números ruins e demonstrar otimismo. Mas a perspectiva dele não foi animadora”, diz, referindo-se a Alexandre Santoro, ex-IMC, que assumiu o comando do grupo em janeiro, indicado pelos Coelho Diniz.

“Apesar de há menos de dois meses na liderança da companhia, eu tenho absoluta clareza da importância desse momento”, disse Santoro, na apresentação de resultados, dia 25, destacando a necessidade de uma “mudança estrutural e cultural” no grupo. “Uma companhia com a operação, a marca e a posição de mercado do GPA não pode permanecer anos sem gerar caixa, seja por passivos herdados, seja por decisões de investimento desconectados da real capacidade operacional da empresa.”

RAIO-X | GRUPO PÃO DE AÇÚCAR

Fundação: 1959

Sede: São Paulo (SP)

Funcionários: 37 mil

Bandeiras: Pão de Açúcar Supermercados, Extra Mercado, Minuto Pão de Açúcar

Lojas: 728, em 11 estados e no Distrito Federal

Faturamento em 2025: R$ 20,6 bilhões

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