Paradoxo brasileiro: número de leitores cai, mas mercado de livros cresce em volume e receita (R$ 3,1 bi)

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Segundo o Instituto Pró-Livro, principais influências de leitura para crianças são a escola e a mãe
(Eduardo Knapp / Folhapress)
  • Setor atinge 60,3 milhões de livros vendidos, alta de 7,7% em relação a 2024. Número de leitores cai desde 2015: hoje são 93,4 milhões
  • Dante Cid, do Snel: instabilidade econômica afeta diretamente o mercado. "São poucas as pessoas que compram livros com frequência"
Por Anna Scudeller

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O varejo livreiro brasileiro vive um paradoxo: cresce em faturamento e volume, mesmo com o número de leitores em queda. Em 2025, a receita somou R$ 3,099 bilhões, alta de 8,7% sobre 2024 (R$ 2,852 bilhões). Em termos de volume, o crescimento foi de 7,7%, chegando a 60,336 milhões (2025), contra 55,997 milhões (2024). Os dados são do Painel de Varejo de Livros no Brasil, feito pela NielsenIQ BookData para o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

Já em relação ao número de leitores, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do Instituto Pró-Livro, houve queda. Em 2024, período da última pesquisa, havia 93,4 milhões de brasileiros que declararam ter lido, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses em relação ao levantamento. Em 2015, eram 104,7 milhões, retração de 10,8%. A queda não se deu apenas em números absolutos, mas principalmente em termos proporcionais – a população brasileira acima de 5 anos em 2024 era de 201 milhões (46% de leitores), e em 2015 eram 188 milhões (56% deles leitores).  

Para sustentar o crescimento num mercado consumidor menor só há uma explicação: uma política agressiva de descontos. Em 2024, o desconto médio foi de 22,5%, e em 2025 subiu para 23,9%. Caso o volume fosse vendido pelo preço cheio, o setor teria movimentado R$ 4 bilhões. Para Dante Cid, presidente do Snel, o cenário favorável de unidades vendidas não foi bem aproveitado pelas editoras. “Pensamos que as editoras tomariam isso como oportunidade”, afirmou em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. Em outras palavras, a demanda maior poderia ter segurado a política de descontos.

Num país de hábitos de leitura fragilizado, a situação econômica tem peso decisivo. Cid acredita que a inflação estará sob controle – o IPCA acumulado em 2025 ficou em 4,26, pouco abaixo do teto da meta (4,5%). “Esperamos que se mantenha assim”, disse. O executivo destaca que cenários de instabilidade financeira afetam diretamente o varejo livreiro. “As pessoas focam em gastos essenciais e o livro é um dos primeiros cortes”, afirmou. “São poucas as pessoas que compram livros com frequência, e nesse caso, esse número cai.”

BIBLIODIVERSIDADE – Cid chama a atenção também para um tema complexo, a bibliodiversidade. No Brasil, a cada temporada surgem novas ondas que impulsionam o mercado, mas concentram a gama de livros oferecidos. É o caso dos livros de colorir — como os populares Bobbie Goods. Em 2025, o número de ISBNs diferentes comercializados caiu 17,7%. Para o presidente do Snel, 2026 terá um fenômeno parecido, com a Copa do Mundo, que tende a acentuar esse movimento, ao privilegiar produtos de alto giro. “É mais um ano em que o mercado de livros não será liderado por um livro que de fato incentive a leitura”, afirmou.

Não dá, no entanto, para cravar que o contato com livros de determinado tipo incentive ou não a leitura. Os próprios dados do Painel do Varejo de Livros mostram que sem os livros de colorir o mercado manteria o crescimento em 2025: 1,9% em volume e 5,1% em receita. O que incentiva a leitura e consequentemente levaria à bibliodiversidade está mais atrelado a fenômenos culturais e políticas públicas. Em resumo, família, amigos + escola. Na Pesquisa Retratos da Leitura, quando perguntados sobre o que levou ao interesse pela leitura entre crianças e adolescentes, sempre prevaleceu na ponta a indicação feita pela escola e professores – 67% (na faixa entre 5 e 10 anos), 71% (11 a 13 anos) e 64% (14 a 17 anos). E em segundo lugar aparece a mãe, 61% (5 a 10 anos) e 54% (11 a 13 anos) ou amigos, 43% (14 a 17 anos).

Em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS publicada em setembro, Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), afirmou que para ter mais leitores é preciso fortalecer todo o ecossistema livreiro – com mais livrarias, mais editoras e mais pontos de descoberta de títulos, especialmente no formato físico, onde leitores encontram obras que muitas vezes não aparecem nas grandes plataformas online. “Concorrência saudável fortalece o ecossistema… precisamos de mais leitores, mais pontos de venda, mais diversidade”, disse na entrevista Martins Fontes.

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