SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (25), uma operação para desarticular um esquema de lavagem de dinheiro atribuído a um grupo criminoso ligado ao Comando Vermelho. Entre os alvos estão sócios da Fictor, empresa que anunciou uma tentativa de compra do Banco Master, em novembro, na véspera de o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ser preso pela primeira vez
Um dos mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal de São Paulo no âmbito da operação Fallax é contra o CEO da financeira, Rafael Gois. Outro mira o ex-sócio da empresa Luiz Phillippe Rubini, que comandava o braço de investimentos do conglomerado, o Fictor Invest.
O comunicado da PF menciona fraudes bancárias contra a Caixa Econômica Federal que podem superar a cifra de R$ 500 milhões. A autoridade policial ainda cita os crimes de estelionato e lavagem de dinheiro.
Procurada, a Fictor afirma que seu CEO foi alvo de um mandado de busca e apenas o smartphone dele foi apreendido. “Tão logo sua defesa tenha acesso ao conteúdo da investigação, serão prestados os esclarecimentos necessários às autoridades competentes, com o objetivo de elucidar os fatos.”
A defesa de Rubini, executivo que deixou a Fictor em outubro do ano passado, disse que “não teve conhecimento prévio do processo e se manifestará oportunamente”.
O grupo entrou em recuperação judicial, no dia 2 de fevereiro, declarando dívidas acima de R$ 4,2 bilhões.
Os agentes estão cumprindo 43 mandados de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva em cidades dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia.
A decisão da Justiça Federal afirma que a ação ocorre no âmbito da Operação Rala Nota, que investiga o núcleo financeiro do Bonde do Magrelo, um grupo criminoso atuante no interior paulista e ligado à facção Comando Vermelho.
De acordo com o Ministério Público de São Paulo, durante a análise das informações, notou-se intensa movimentação financeira entre o Magrelo e suas empresas e Thiago Branco de Azevedo, conhecido como Ralado, morador do interior de São Paulo e administrador de vários CNPJs. A suspeita é que sejam empresas de fachada. Ralado é o principal alvo da operação desta quarta e está foragido, segundo a Polícia Federal.
Segundo a decisão da Justiça Federal, executivos da Fictor também mantinham contato e relações comerciais com Ralado.
De acordo com a PF, a organização criminosa sob investigação utilizava empresas de fachada e estruturas empresariais para alterar a origem dos recursos ilícitos. Para isso, dependiam do recrutamento de funcionários em outras instituições financeiras, que inseriam dados falsos nos sistemas bancários para viabilizar saques e transferências indevidas. “Posteriormente, os valores eram convertidos em bens de luxo e em criptoativos, com o intuito de dificultar o rastreamento”, diz comunicado da PF.
Durante a operação, a autoridade policial apreendeu uma pistola calibre nove milímetros, munições, valores em dinheiro vivo, relógios e aparelhos digitais, como notebook, pen drives, tablets e smartphones.
A Fictor atuava em um modelo de captação de recursos a partir da emissão de contratos de SCP (Sociedade em Conta de Participação), uma espécie de ação em sociedade oculta com menor regulação. Após o escândalo do Master, houve uma corrida para recuperar investimentos na Fictor. Com a recuperação judicial, os credores quirografários são os últimos na fila para receber seus débitos.
A situação é agravada pela operação envolvendo a empresa. A Justiça determinou o bloqueio e o sequestro de bens imóveis, de veículos e de ativos financeiros até o limite de R$ 47 milhões, com o objetivo de descapitalizar a organização criminosa.
No interior de São Paulo, são cumpridos mandados em Piracicaba, Limeira, Santa Bárbara d’Oeste, Americana, Itapira e Rio Claro.
Foram ainda autorizadas medidas cautelares para o rastreamento de ativos financeiros, incluindo a quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 pessoas jurídicas.
A PF investiga a atuação da organização criminosa desde 2024, quando identificou indícios de um esquema estruturado para a obtenção de vantagens ilícitas.
Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, de estelionato qualificado, de lavagem de dinheiro, de gestão fraudulenta, de corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional. As penas desses crimes podem ultrapassar 50 anos de reclusão.